08 de julho de 2026
Ser

170 milhões em ação

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Daqui a cinco dias, começa uma das maiores festas do esporte mundial, a 17.ª Copa de Mundo de Futebol, no Japão e na Coréia. Como dizia a canção interpretada por Gal Costa às vésperas do segundo Mundial do México, em 1986: â€œÉ novamente tempo de paixão”.

Para a grande maioria dos brasileiros, a competição significa que muitas atividades rotineiras do dia-a-dia vão ficar para o segundo plano. Até mesmo o trabalho. “Vamos compensar as horas no trabalho para poder chegar mais tarde e ver os jogos da seleção em casa”, diz o operador de máquina José Carlos Santos. “Se não tivesse a compensação, ia chegar atrasado mesmo. Copa do Mundo é só de quatro em quatro anos”, justifica.

Nem mesmo os horários “esquisitos” provocados pelo fuso em relação aos países-sede - localizados, literalmente do outro lado do mundo - espantam os torcedores. “Vou ficar acordado, não quero nem saber”, garante o comerciário Cássio Canuto Soares. Porque essa paixão pelo futebol é tão intensa a ponto de se tornar uma febre nacional a cada quatro anos?

Para a geógrafa e professora de sociologia da Universidade do Sagrado Coração (USC) e da Universidade Paulista (Unip), Linia Bilac Garrone, o futebol está no imaginário do brasileiro porque mexe com seus sonhos. Não faz parte da realidade dura do dia-a-dia de trabalho de crise econômica. É uma forma de fuga da realidade.

Esse tipo de escape não é uma novidade. No Império Romano, os estádios (o mais famoso deles é o Coliseu, em Roma) já eram uma forma de divertimento simples para as massas, mesmo que essa diversão significasse muito sangue inocente derramado.

“Era uma forma de provocar a alienação do povo. Ou seja, afastá-lo da realidade”, diz a professora. A Copa do Mundo, no seu ponto de vista, não está muito longe do “pão e circo” romano quando faz com que as pessoas deixem muitas coisas de lado para dar atenção aos jogos. “Ela quase mascara a realidade, como acontecia na antiga União Soviética”, lembra.

Antes da queda do muro de Berlim, o incentivo ao esporte era uma das principais formas do governo soviético de manter sua população crente na superioridade do seu País. A Copa do Mundo já teve em sua história momentos nos quais serviu para desviar a atenção de populações inteiras que viviam sob ditadura.

Foi assim em 1934 e 1938, quando a seleção italiana foi bicampeã mundial para a alegria de Mussolini, e em 1970, quando o Brasil, tricampeão no México, alimentou o ufanismo do governo militar nacional. Em 1978, a vitória argentina em casa teve o mesmo fim: fortalecer, indiretamente, os generais que estavam no poder.

Paixão nacional

Mas essa fuga da realidade não tem apenas aspectos negativos. “Ela serve para alimentar os sonhos, algo de mítico nisso tudo, na competição, na comemoração da vitória”, afirma Garrone. “Como ficaria o mundo se não existissem essas fugas da realidade?”, questiona a professora.

De acordo com a psicóloga Rejane Villas Bôas Tavares, especialista em terapia familiar e casais, a grande maioria das pessoas precisa de algo “fora de si” para lhe trazer felicidade. No caso do futebol, o seu time. â€œÉ muito mais fácil depositarmos nossas expectativas no outro porque, se acaso ele falir, foi culpa dele, não nossa”, diz.

Ao mesmo tempo, cada vez que há uma vitória, existe um incentivo para que se possa ter mais forças para lutar e alcançar alguma felicidade na vida.

Tavares acredita que, no Brasil, o que move a relação do povo com o futebol é a paixão por vencer, por dar certo, ter sucesso. É uma paixão que liga corações: não importa raça, cor, idade, religião ou classe social. Todos se encontram e são iguais em um mesmo time.

â€œÉ uma oportunidade de extravasar: gritar, vibrar, chorar, xingar, pular. Enfim, colocar todos os sentimentos para fora, na nossa vida cotidiana não temos tal oportunidade”, diz.

Nas ondas do rádio

Tavares lembra que para muitas pessoas, o time de futebol é algo tão importante como a família, o grande amor, a religião e o trabalho. O Brasil talvez seja um dos poucos países do mundo no qual uma pessoa pode trocar de nome, religião, família, até mesmo de sexo, sem nem cogitar a possibilidade de mudar de time de coração.

O estudante André Caracini confirma: “Mudar de time é uma coisa impossível. Uma vez que você fez a escolha é para sempre”, diz o santista que nunca viu o seu time ser campeão de um torneio importante. “Torço para o Santos por causa do meu pai”, confessa.

A popularidade do futebol no País é inexplicada. Pode estar ligada à facilidade de se praticar o esporte, ou ao fato de ser uma modalidade que exige a presença de muitas pessoas. A professora da USC e da Unip aposta também na hipótese dos meios de comunicação terem ajudado na difusão do esporte no século passado.

O grande responsável teria sido o rádio. “Todo mundo tem um aparelho. O rádio chegou à casa das pessoas muito antes da televisão e a emoção com que as partidas são transmitidas pelo rádio também é muito maior”.

Copa reflete paixão pelo País

A admiração pelo futebol é uma coisa que passa de geração para geração. Se o pai é apaixonado por algum time, ou mesmo por futebol, acaba passando isso para os filhos e as gerações futuras. Do mesmo jeito que pais que não são muito envolvidos e não colocam uma bola no pé da criança desde cedo, não colaboram para que os filhos desenvolvam tal paixão.

Mas mesmo os não-apaixonados (muitas mulheres estão nesse grupo) acabam vendo e torcendo durante a Copa do Mundo como se fossem grandes fãs do esporte.

A explicação para a psicóloga Rejane Villas Bôas Tavares, é que a Copa do Mundo é o auge da paixão do brasileiro, não só pelo futebol, mas pelo próprio País.

Na opinião dela, as pessoas, durante a competição não se unem na torcida por uma questão de “embalo”, mas sim porque essa é uma época na qual o País está se apresentando diante do mundo e por isso “tem que fazer bonito”.

É uma época na qual as pessoas deixam de lado a rivalidade dos seus clubes regionais e se unem numa só torcida, lembra Tavares.

Fãs otimistas

A dupla de Ronaldos e Denílson têm feito o torcedor bauruense sonhar com a possibilidade do pentacampeonato, mesmo que de forma tímida. “Acho que vai ser uma Copa difícil. Tem muito time bom e a seleção só está ‘pegando jeito’ agora”, afirma o vendedor Samuel Castilho.

Para o funcionário público aposentado Edevaldo Nogueira, a Argentina tem uma equipe que pode atrapalhar, mas mesmo assim o Brasil tem chance de vencer o Mundial. “A seleção dá medo nos outros times”, acredita. Menos otimista, a universitária Alessandra Garcia, que gosta de futebol, acha que o time vai ter que “jogar muito”, se quiser se campeão. “Tenho medo da França e da Argentina”, revela.

Os franceses, atuais campeões do mundo - que podem vir a cruzar com o Brasil se os dois times vencerem os quatro primeiros jogos - também metem medo na dona de casa Joana Alice Martins Araújo. â€œÉ trauma da última Copa”, confessa. “Mas acho que vamos ganhar assim mesmo, nem que seja nos pênaltis”, completa.