Depois de quase dez anos de reivindicações, os moradores do Jardim Manchester estão realizando um sonho. Eles começaran a aposentar os lampiões, instalar chuveiros elétricos e a pensar em comprar televisores para assistir à Copa do Mundo, num bairro que tem até nome de time de futebol.
Ontem, a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) fez a ligação de 12 residências e até o dia 10 de julho todas as 94 casas do bairro estarão iluminadas, bem como a área central, que ganhará iluminação pública.
Entre os eufóricos com a chegada da energia elétrica, estavam os familiares de Claudeci dos Santos Tavares, a Claudia, que é presidente da associação de moradores do bairro. Agora as crianças podem assistir tevê, os adultos podem conversar na varanda dispensando as lamparinas e todos vão poder tomar banho de chuveiro, assim que for instalado.
Depois de seis anos Cláudia religou a geladeira e agora pode fazer sua primeira compra com produtos perecíveis, vai poder ter gelo e água fresca. “Nossa vida era um sacrifício. Você compra bife, mas tem que comer no almoço e na janta. Não pode sobrar, senão estraga; não pode guardar um frango temperado porque não tinha onde. Iogurte é para tomar na hora. Acho que comprei iogurte e trouxe em casa para as crianças só umas três vezesâ€, conta.
Mas a maior comemoração está em poder assistir aos jogos da Copa. “Eu queria ter visto as Olimpíadas, mas não foi possível. Agora o bairro todo vai poder torcer pelo Brasil, com mais gostoâ€, comenta sem medo de esconder a alegria.
Contando as horas
“Parece sonhoâ€, suspira a dona de casa Catarina de Lourdes Costa Ferraz enquanto coloca lenha no fogão a lenha para esquentar uma das últimas latas d’água para ela, o marido e os três filhos tomarem banho. “São cinco latas de 20 litros todos os dias. Uma para cada um.â€
Ela mora no Manchester há cinco anos e conta que foi muito difícil acostumar com a rotina do escuro. Há tempos ela e o marido investiram R$ 220,00 na compra de um poste e a fiação necessária para receber o relógio de força. “Vão ligar amanhãâ€, anunciou ontem, toda esperançosa.
Os filhos também não vêem a hora da luz chegar para poderem comprar uma televisão para assistir aos jogos da seleção. Por enquanto, a única diversão e meio de comunicação na casa é um rádio a pilha.
Mesmo com todo o compasso de espera, Catarina conta que os dias no bairro, que fica às margens da rodovia Bauru-Jaú, entre o Parque Santa Therezinha e a fábrica de baterias Ajax, já foram piores. “Passamos dois anos recebendo água, de carro-pipa. Só há três anos é que temos água e esgoto.â€
Vivendo no passado
Desempregado, Edmundo Ferreira de Almeida espera que a luz que vai chegar em sua casa hoje ilumine sua vida. Ele já faz as contas da economia que a energia elétrica vai lhe trazer.
Ele conta que gasta R$ 1,20 por dia só em velas e para ver tevê são R$ 10,00 por mês para carregar duas vezes a bateria. Isso quando o acumulador de energia dura 15 dias.
Já sua esposa, a dona de casa Maria da Glória, diz que a energia é o marco do futuro. “Vamos pular do passado para o futuro apertando a tomada. Nós estamos vivendo no passado, há 2000 anos atrás, tomando banho de canequinha com água esquentada na fogueira e passando roupa com ferro a brasa. Tão pesado que quando acaba de passar a roupa do dia a gente se sente morta.â€
Com a chegada da luz poderão também aposentar a pequena televisão a bateria e colocar na sala a tevê em cores que ficou guardada durante seis anos.
Mesmo com tanto sacrifício, eles nem acreditam que vão poder torcer para o Brasil brilhar na Copa.