O governo de Israel consome 11% do Produto Interno Bruto (PIB) a cada ano com a ação militar no conflito com a Palestina, segundo o cônsul geral do país, Medad Medina. Desta forma, para uma riqueza anual de US$ 50 bilhões, Israel consome US$ 5,5 bilhões com a guerra. Medina visitou a Câmara Municipal de Bauru na última segunda-feira. Na entrevista, ele falou sobre o estágio da democracia em seu país, criticou a autoridade da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e disse que Yasser Arafat é conivente com a onda de terrorismo no conflito entre os dois países. Leia os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Qual o motivo da visita do senhor? Medad Medina - Sou cônsul geral de Israel em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e parte do meu trabalho é conhecer as localidades mais importantes dessas regiões e ampliar o contato com as autoridades do estado. Eu também vim aqui para falar sobre a situação no Oriente Médio e expor as posições de Israel. Nem sempre o que é publicado pela imprensa de fora do Oriente é verdade. A imprensa é levada a publicar a versão das agências de notícias internacionais e estou aqui para mostrar nossa versão. Queremos apontar onde há equívoco.
JC - Quais os grandes equívocos das agências internacionais em relação à posição de Israel? Medina - São muitos. Por exemplo, quando começou a violência na Intifada, todas as posições defendidas por Ariel Sharon foram menosprezadas em seu inteiro teor pelas agências. Elas não contam que esta violência está planejada pelos palestinos há muito tempo, que eles matam muitos civis com o terrorismo, que Israel ocupa posições militares. Eles falam em massacre de 500 pessoas em Genin, que Israel massacrou civis e isso não é verdade. Morreram 53 palestinos no ataque e 23 soldados israelenses e não matamos civis. Eles disseram que matamos um padre católico na Igreja da Natividade em Belém e não é verdade. É distorcer para o Ocidente o que acontece por lá. Existem muitos exemplos.
96 FM - Como o senhor define a presença dos israelenses em áreas palestinas? Medina - Não estamos lá porque queremos. Estamos discutindo a questão desde 1967, quando o Egito, Jordânia e Síria atacaram o Estado de Israel e nós ocupamos esses territórios. Mas devolvemos os territórios e assinamos acordos de paz com o Egito e não temos um milímetro de território egípcio. Esses territórios da Palestina nós decidimos não devolver até que se estabeleça a paz entre nós e os palestinos. Esta é a política atual e vamos mantê-la até a chegada da paz. Mas eles tentam culpar Israel para pedir a saída do nosso exército de seus territórios. Mas não há nenhuma garantia de acordo para a paz com essa ação. Então queremos deixar os territórios com um acordo de paz definido. Já deixamos 42% da Faixa de Gaza, deixamos uma parte da Cisjordânia.
JC - Qual a razão do investimento tão alto de Israel em armamento? Medina - O Estado de Israel investe por causa da guerra, mas a natureza do povo judeu não é militar. O povo judeu sempre foi filosófico, de estudar. Isso só aconteceu depois do conflito que se iniciou em 1948. Isso obrigou Israel e desenvolver um poder militar e hoje o país consome 11% do PIB na guerra. Com a paz na região não haveria a necessidade de tanto investimento.
JC - Um embaixador palestino disse em Bauru, há um mês, que Israel pratica o genocídio contra eles. Como o senhor vê essa posição? Medina - Declarações podem ser dadas por qualquer pessoa, que podem produzir frases de efeito. Mas modificar o sentido das palavras não é possível. Genocídio é se referir a 1.400 mortos em 20 meses e 500 israelenses na mesma época? O sentido de genocídio é estatístico? Acho que o genocídio é da parte dos palestinos, quando o homem-bomba ataca e mata civis em Jersusalém, Tel Aviv. Eles perseguem judeus para matar judeus. Nós não perseguimos civis, crianças, mulheres. Nós combatemos os terroristas palestinos, o que é legítimo.
JC - Mas qual a posição do senhor sobre o que o Ocidente considera como fanatismo no conflito? Medina - O principal é que a aceitação do Estado de Israel pelos judeus passa por um estado independente e livre no Oriente Médio. O Egito e a Jordânia chegaram à conclusão que o povo judeu tem esse direito. Alguns países árabes já entenderam assim também, como o Marrocos, Oman, Catar. Mas os palestinos resistem a essa verdade. O problema não é só territorial. Eles não admitem o povo judeu com um estado, organizado. O conflito está ligado a uma visão do povo palestino de que em 1947, foi praticada injustiça contra eles quando a Palestina foi dividida. É uma visão que inclui fanatismo sim.
96 FM - Os palestinos consideram o Sharon um político radical. Como ficam as divisões de tendências em relação ao governo em Israel? Medina - Israel é um país democrático e é preciso saber conviver com as divergências e nós sabemos. Em qualquer democracia vai ter oposição que critica o partido que está no poder. Agora, o Ariel Sharon tem o apoio de 70% dos israelenses em relação à sua política no conflito com a Palestina.
JC - Qual a situação das mulheres dentro de Israel? Medina - A mulher em Israel tem os mesmos problemas que o de muitas outras democracias. Em Bauru só há uma mulher eleita. É pouco. 10% do parlamento em Israel é de mulheres. É um pouco mais, mas ainda é pouco. As mulheres vivem em liberdade, estão no Exército israelense e há mulheres pilotas no país. Mas precisamos avançar muito ainda.
JC - Que relação o senhor faz entre política, poder e religião em Israel? Medina - Israel tem problemas na área, é claro. Temos uma separação entre a religião e o estado, mas temos partidos religiosos. Eles têm esse direito no estado democrático. Mas há dificuldade de convivência com a ideologia religiosa e a política. Existe certo fanatismo, mas não é o fanatismo que usa a violência para matar inocentes como se vê na Palestina, no mundo muçulmano, árabe. Não existem segmentos fundamentalistas em Israel. Lá, a vida é respeitada e é importante. Há fanatismo em Israel por não aceitarem coisas laicas dentro do país. Os religiosos não estão prontos para aceitar coisas que os laicos têm direito de fazer e pensar. Mas temos uma democracia, temos leis, e isso é coibido pelo governo.
JC - Qual a situação da economia israelense em um ambiente militar e de conflito? Medina - Sem dúvida, a economia e o turismo estão afetados pela guerra. O custo de vida é elevado e o desemprego está em alta por causa da energia e dos gastos para combater a Intifada palestina. O povo de Israel está acostumado, há 54 anos, a ser chamado a pagar mais impostos para custear a defesa do país. Quando o país precisa que o povo sirva, os israelenses vão ao Exército. É difícil, mas é uma situação que não podemos evitar sem que haja paz. É uma missão que o israelense tem vontade de defender.
96 FM - Qual a solução para o fim do conflito? Medina - A solução passa pela postura dos palestinos de parar com a Intifada, com essa violência usando o terrorismo. Eles têm que saber que a paz só virá quando sentarem conosco para negociar, conversar. Sem o fim das ações terroristas não vejo o fim do conflito. Nós aceitamos sentar para conversar mesmo em um ambiente de violência. A OLP tem controle sobre os atos terroristas, sabe quem faz. E se não tivesse controle não deveria estar lá. O governo sabe o que está acontecendo em seu país. Eles precisam agir.
JC - Que papel Yasser Arafat está desempenhando no conflito? E os americanos? Medina - Um papel muito ruim. Toda vez que acontece um atentado, ele fala contra o atentado, mas não age. Falar, discursar, não resolve. Ele sempre nos manda uma mensagem que não mostra sua verdadeira intenção. Não sabemos se ele realmente quer acabar com o terrorismo ou se só discursa. Os americanos estão tentando ajudar o máximo que eles podem. Mas eles não podem obrigar um dos lados a aceitar uma proposta. Eles estão envolvidos, estão conversando, acompanhando.