“Três Pontes é o nome de um trecho do rio Batalha onde existe uma ponte só, na região do Clavinote, no município de Avaí.
Segundo os pirangueiros e motoristas mais velhos que por ali passaram, consta que na década de 30 existiram as três pontes no prolongamento do aterro e com as freqüentes reformas, duas deixaram de existir, ficando até hoje apenas uma no canal principal do rio.
Justamente nessa ponte que restou ocorreu um fato pitoresco envolvendo um motorista da Prefeitura Municipal de Avaí com vários pescadores.
O motorista era o Flávio, antigo caçador de capivaras daquele mesmo rio, que desejava passar pela tal ponte para buscar pedregulhos com um velho caminhão-basculante, marca Dodge, desbotado, sem breque, sem luz e sem buzina.
Só que a ponte estava tomada literalmente por pescadores que, sossegados da vida, não lhe saíam da frente. O único jeito foi passar bem devagar entre eles e ainda ele teve de ouvir piadas e mais piadas sobre a feiúra do seu caminhão.
O Flavião, como era chamado, ficou nervoso e quando conseguiu alcançar o outro lado do rio passou a maldizer os pescadores e a traçar planos de revanche para o seu retorno.
Lá no alto do espigão, parou o seu ‘Dojão’ ao lado da máquina carregadeira e pediu ao seu operador que sobrecarregasse o basculante para que assim, mais pesado, corresse mais na descida de volta.
Satisfeito o seu pedido, saiu apressadamente na estrada de terra de volta para Avaí, passou logo o câmbio para a segunda marcha, a terceira, quarta, quinta, sexta, soltou a reduzida e pisou no acelerador até que o seu pé direito fedeu a óleo diesel e quando o motor não alcançou mais a velocidade, então jogou o câmbio na banguela, digo, ponto-morto. ‘Agora, vamos ver se vão ficar na frente’, falou sozinho.
A velocidade que o velho caminhão atingiu devido à sobrecarga na descida foi tanta que o Flavião chegou a arrepender-se daquilo que estava fazendo. Tentou frear, mas não tinha freios; tentou buzinar, mas não tinha buzina; tentou piscar o farol, mas não tinha farol...
Então, a terra tremeu por todo o Clavinote e um poeirão amarelo-ocre se levantou que causou um escurecer pra aquelas bandas.
Quando o Flavião avistou a ponte, achou que ela estava mais estreita, mais comprida, mais torta e a descida até lá estava ainda mais íngreme do que nunca e o pior - os pescadores estavam todos lá e tinha um deles que até dormia...
- ‘Nossa Senhora Aparecida’ - disse o Flavião. ‘Será que ainda não viram meu caminhão?’
Os pescadores não só viam como até sentiam o ‘Dojão’ que se aproximava, pois como eu disse, a terra tremia, logo a ponte também tremia, o rio Batalha também tremia...
Os pirangueiros desesperados não tinham mais tempo para correr devido a distância considerável para sair daí e só tinham um jeito de fugir do atropelamento coletivo e eminente - pulando no rio de onde eles estavam...
Não ficou ninguém sobre a ponte e quem sabia nadar, nadou; quem não sabia, aprendeu na hora; quem tinha peixes pegos, perdeu tudo e os peixes que estavam no rio por ali também desapareceram, tal o ruído causado pela passagem do caminhão sobre a ponte, que chegou a desaparecer no meio da poeira que acompanhou o ‘Dojão’ até ao outro lado do rio.
Flavião agora vibrava de alegria e orgulho pela proeza que acabara de realizar e não via a hora de contar pra todo mundo quando chegasse em Avaí.
Mas em Avaí alguém lhe disse:
- ‘Olha Flavião, você fez tudo certinho, aqueles pescadores são mesmo uns folgados; só não precisava parar o caminhão e voltar a pé na ponte só para tirar um sarro na cara dos pirangueiros. Você poderia ter levado uma surra, uma facada, uma canivetada ou ainda uma rasteira. Ou será que levou? Você está mancando...’
Flávio de Oliveira, meu irmão, em 30 de maio de 2002 faz 70 anos e até hoje faz parte das histórias vivas deste nosso rio Batalha. Parabéns mano-velho.â€
Eurico de Oliveira Aposentado, pescador e contador de histórias