Popularmente conhecida como a pílula do dia seguinte, a contracepção de emergência, como o próprio nome diz, só deve ser utilizada em situações emergenciais, seja em casos de violência sexual ou falhas de outros métodos contraceptivos, onde houve uma relação sexual desprotegida com possibilidade de uma gravidez não-planejada.
Este método, que chegou há dois anos no Brasil, mas que já existe na Europa há mais de dez anos, consiste na ingestão de dois comprimidos, facilmente encontrados nas fármácias e vendidos sem prescrição médica. O volume de vendas é tão grande que, nem propagandistas deixam mais amostras nos consultórios.
A primeira pílula deve ser tomada nas primeiras 72 horas após a relação sexual desprotegida e a segunda com intervalo de 12 horas após o primeiro comprimido.
A ginecologista Carla Lambertini Bonjorno explica que pílula do dia seguinte age de três maneiras. A primeira é quando ela inibe ou retarda a ovulação. “Se a mulher estiver prestes a ovular, ou esse óvulo fica parado dentro do ovário, ou vem mais lentamente até chegar no útero. Então, inibe essa fecundação, essa gravidez.â€
Num segundo método, a pílula torna o endométrio, a camada interna do útero, incompatível à fixação do embrião. “Mesmo que já estiver fecundado esse embrião não consegue se implantar.â€
Já o terceiro método, torna o muco cervical espesso impedindo que os espermatozóides caminhem através do canal cervical para fecundar o óvulo. “A pílula não deixa o espermatozóide subir.â€
Não abortiva
A médica esclarece que esse conjunto de ações que podem ser provocadas pelo uso da pílula do dia seguinte não é abortivo.
“A pílula não induz a aborto em caso de gravidez já estabelecida, já que quando atua ainda não houve a implantação do ovo no útero. Se já existe um ovo fecundado na semana anterior, a mulher já está grávida.â€
A pílula comprovadamente só atua num período de até 72 horas após o ato sexual.
“Essa história de tomar a pílula do dia seguinte com três meses de gravidez só traz efeitos colateraisâ€, adverte a ginecologista revelando que o contraceptivo é ainda mais eficaz nas primeiras 24 horas.
Os efeitos
Este método não causa nenhum prejuízo à mãe ou má formação do feto, afirma Carla Bonjorno. Não dá câncer de mama, nem apresenta riscos à amamentação. Mas em alguns casos pode haver alteração na menstruação, como antecipação ou atraso no ciclo menstrual e até mesmo aumento no fluxo sangüíneo. As mulheres podem também ter enjôos e até vômitos.
Mas se por um lado se tem menos efeitos colaterais que os métodos utilizados anteriormente, quando as mulheres ingeriam dez pílulas anticoncepcionais convencionais das mais fortes e repetiam a dose após 24 horas, a carga de hormônio é ainda maior na pílula do dia seguinte. Cada comprimido, em dosagem hormonal, equivale a uma cartela completa de pílulas.
Carla aconselha ainda, que em caso de vômito, nas primeiras três horas após a ingestão do comprimido, a dose deve ser repetida.
Uso indiscriminado pode causar danos
A pílula da contracepção de emergência é um grande avanço conquistado pela mulher pois pode reduzir os riscos hospitalares e o estresse que uma gravidez indesejada pode causar.
Entretanto, uma pesquisa inédita do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids (Nepaids), da Universidade de São Paulo aponta que o uso do medicamento se espalha de maneira alarmante entre as adolescentes que passam a fazer da pílula do dia seguinte um método contraceptivo regular.
Considerando que cada pílula equivale a uma cartela e que a cada vez que se faz o uso correto é necessária a ingestão de dois comprimidos, uma adolescente que teve três relações em um mês e adotou o método consumiu seis cartelas de anticoncepcionais em menos de 30 dias.
“O hormônio dado em quantidade excessiva em um período curto, vai ocasionar para a mulher distúrbios hormonais que podem durar por muito tempo. Ela acaba ficando com retenção líquida, ciclo alterado, hemorragias. E é muito prejudicial seja nas mulheres muito jovens ou nas mais velhas, cujos riscos e margem de comprometimento aumentam ainda mais.â€
O contraceptivo também não deve ser tomado por aquelas pessoas que naturalmente não podem tomar pílulas anticoncepcionais, sejam elas hipertensas, sensíveis ou diabéticas.
A médica também faz um alerta às mulheres grávidas que fazem o uso do medicamento na tentativa de um aborto. “Ainda não se tem comprovação científica de que possa ocorrer má formação fetal, mas podem ocorrer complicações na gravidez e torná-la uma gestação de alto risco. Podem ocorrer formações de cistos e rompimentos dos mesmos, contrações uterinas e até trabalho de parto prematuro.â€
Segurança
A indicação da pílula pela ginecologista Carla Bonjorno é exclusiva para aquela mulher que não tem um contato sexual ativo, mas sim eventual e que ao fazer uso de camisinha para se proteger, o preservativo se rompe. “Um caso emergencial mesmo e em período fértilâ€, alerta.
A probabilidade média de ocorrer gravidez decorrente de uma única relação sexual desprotegida na segunda ou terceira semana do ciclo menstrual com contracepção de barreira (camisinha) é de 8%; com a contracepção de emergência, esta taxa cai para 2%; já com o anticoncepcional de uso regular é de 1%.
Excepcionalmente, a contracepção de emergência pode ser utilizada mais de uma vez no mesmo ciclo. â€œÉ importante lembrar que após utilizá-la é preciso adotar uma proteção de barreira ao se ter relação sexual. A pílula do dia seguinte não protege contra aids, sífilis e outras doenças sexualmente transmissíveis. Só o preservativo é capaz de minimizar estes riscos.â€