Eles já percorreram juntos mais de 15 mil quilômetros por todo o País em viagens idealizadas pelo projeto “Pedal na Estradaâ€, que tem como principal objetivo a conquista dos quatro extremos do País. Dois deles já foram alcançados - o Arroio Chuí (RS) e a Ponta do Seixas (PB) - pelos ciclistas bauruenses Luis André Chella e Edenilson Rogério Veríssimo. Agora, ambos planejam superar um desafio de 4 mil quilômetros: ir até a fronteira do Acre com o Peru.
A intenção é dividir a aventura em duas etapas. Na primeira, com duração de 20 dias, o ponto de partida é a cidade de Campo Grande, indo em direção a Cuiabá. Este é o local escolhido para o início da segunda, prevista para durar 50 dias, cujo destino principal é a capital do Acre, Rio Branco. “Desta para frente irá depender das condições do clima e das rodoviasâ€, ressalta Chella.
Entretanto, os ciclistas bauruenses ainda aguardam o “sinal verde†do patrocinador que os acompanha desde o início do projeto para colocarem o pedal na estrada. “Se não conseguirmos patrocínio, o projeto pára, pois não temos como bancá-lo. Mas ainda estamos esperando a resposta de uma empresa, que deve vir após a Copa do Mundo. Isso feito, 15 dias depois caimos na estradaâ€, afirma ele.
A indecisão não desanima os ciclistas, que não pensam em parar o projeto. “Se não conseguir, continuarei lutando em busca de outros patrocínios. Só vou abandoná-lo por motivos de saúde e se não tiver mais condições de pedalarâ€, ressalta Chella. “Modéstia à parte, é um projeto fantástico e somos pioneiros em Bauru. O cicloturismo existe há muito tempo, mas eu e Edenilson fomos os primeiros a atuar nessa modalidadeâ€, completa.
A confiança reflete na preparação dos estradeiros. “Levamos uns seis meses para nos prepararmos, pesquisando o roteiro, as rodovias e treinando na medida do possívelâ€, destaca Chella. O “possível†para ele é pedalar pelo menos três vezes por semana e quase diariamente quando a data da viagem vai se aproximando. “Trabalho em dois empregos e tento manter o corpo em forma pedalando até 400 quilômetros por semanaâ€, diz ele.
Para Chella, ser um cicloturista é apreciar a liberdade e o momento em que a bicicleta se transforma na extensão de suas pernas. “Acho que não há como alcançar maior nível de liberdade que não seja através do cicloturismo. Nele, você está livre e não depende de nadaâ€, considera ele.
Fatos marcantes
Tantas viagens e aventuras fizeram os ciclistas guardarem lembranças de vários locais e pessoas. Segundo Chella, os amigos que ganhou pelos lugares por onde passou foram os fatos mais marcantes de todas as suas experiências com bikes. “A cada 100 quilômetros das rotas que fiz tenho amigos de todos os tipos, negros, índios, caminhoneiros, médicos e delegados. Isso é o que mais fascina nessa modalidade de cicloturismoâ€, ressalta ele.
E foi graças às “andanças†pelo País e pelo exterior que Chella enfatiza ter aprendido a tipificar as pessoas. “Onde cheguei nunca fiquei sem comer ou local de hospedagem, pois muitas vinham me perguntar o que eu queria e me oferecendo coisas. Por isso, costumo classificar que 70% delas são anjos, 20% são falsas e 10% são ruinsâ€, afirma o ciclista.
Para ele, o aspecto mais interessante do contato com outros povos e culturas é a solidariedade. “O que mais me admirou foi obter o reconhecimento delas, independente de raça, cor ou posição socialâ€, salienta Chella.
O início
A identificação de Chella com as bicicletas começou cedo. Logo aos três anos de idade, presenteado pelo pai, ele já estava montado em uma. “Depois disso nunca mais me recordo de ter ficado sem bicicleta na minha vida. Comecei a trabalhar com 14 anos fazendo entregas com uma bikeâ€, lembra ele.
Mas foi em 1995 que Chella realizou sua primeira grande aventura, indo de bicicleta de Bauru até a casa de seu irmão em Araçatuba. “Foi uma revolução, pois todos acharam que eu era doido. Foi a partir daí que surgiu a idéia do projeto, que em 1996 se profissionalizou e passamos a buscar nossos objetivos.â€
Perfil
• Nome Luis André Chella
• Lugar para passear
“O Brasil é lindo por inteiro e cada lugar tem sua característica. Mas gostei muito de Bonito (MS), da Lagoa dos Patos (RS) e das cataratas de Foz do Iguaçu.â€
• Time Palmeiras
• Quem você nunca levaria na garupa da sua bicicleta?
“Minha mãe, porque ela iria sofrer muito.â€
• E quem você levaria?
“Minha esposa Gisele.â€
• O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?
“O bauruense não dirige mal, mas ainda falta muita gentileza, camaradagem e ajuda mútua em prol de todos no trânsito.â€
• Que nota você daria para os motoristas de Bauru?
“Oito, pois não podemos generalizar por causa de meia dúzia.â€
• Nome Edenilson Rogério Veríssimo
• Time Corinthians
• Quem você nunca levaria na garupa da sua bicicleta?
“O Fernando Henrique Cardosdo.â€
• E quem você levaria?
• “Minha mãe Elizabete.â€
• O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?
“Os bauruinos, que são os bauruenses cretinos. Estes não respeitam as bicicletas no trânsito e vivem querendo passar por cima da gente. Os maiores, no caso os carros, deveriam respeitar os menores, como as bikes.â€
• Que nota você daria para os motoristas de Bauru?
“Uma nota bem baixa: cinco.â€
Livro e animais mortos
As viagens dos ciclistas bauruenses prometem render muito mais que lembranças. Chella revela que pretende escrever um livro relatando as experiências vividas durante as aventuras cicloturísticas. Mas enfatiza que ele só irá lançá-lo após o objetivo final do projeto ser alcançado, ou seja, a conquista dos quatro extremos do País. “O livro já está sendo escritoâ€, adianta ele.
Para isso, Chella irá contar com os diários de bordo das viagens que ele organizou com o auxílio da esposa Gisele. “Eles servirão de referência para a edição da obraâ€, diz o ciclista.
O número imenso de animais mortos nas rodovias também chamou a atenção de Chella e Edenilson durante as viagens. E é justamente para que todos possam fazer uma reflexão a respeito é que eles pretendem organizar uma exposição com as principais fotos tiradas. A idéia é realizá-la assim que o projeto atingir o objetivo de conquistar os quatro extremos. “Queremos mostrar o efeito devastador das estradas nos animaisâ€, enfatiza Chella.