08 de julho de 2026
Bairros

Comunidade em ritmo de festa junina

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 8 min

Junho está apenas começando, mas a movimentação em torno dos preparativos para as festas em homenagem aos santos católicos do mês - Santo Antônio (dia 13), São João (24) e São Pedro (29) já é grande nos quatro cantos da cidade. Além das tradicionais quermesses promovidas pelas paróquias dos padroeiros, cerca de outras 80 festas de rua deverão animar os bairros, sem contar com as festanças particulares de escolas e clubes.

Por trás do clima contagiante e ingênuo, os arrasta-pés guardam aspectos sócio-culturais-religiosos-econômicos que precisam ser destacados.

Embaladas por um objetivo comum - que é o sucesso absoluto do evento -, comunidades inteiras arregaçam as mangas num trabalho tão cansativo como gratificante. Enquanto ele dura, as diferenças dão lugar à interação.

Pobre e ricos, intelectuais e iletrados, não importa, todos se unem para angariar prendas, patrocínios ou para preparar quitutes típicos. Nesses eventos, o grau de sociabilidade, de mistura melhor dizendo, é enorme. Há ainda o fato de que as festas juninas costumam ter intuito beneficente, destinando parcial ou integralmente as arrecadações em dinheiro a creches e grupos de apoio.

A questão cultural também se mantém forte, embora mais nos Estados nordestinos do que no Sudeste. Aqui, na verdade, muita gente canta, dança e acende fogueira sem saber o porquê. A fogueira, por exemplo, é um símbolo das festas pagãs que acabou santificado e incorporado à tradição religiosa quando os cristãos perceberam que não conseguiriam extirpá-la dos rituais impuros.

Se os gestos são conscientes ou não, porém, pouco importa. Relevante é que essas repetições continuadas são fundamentais para preservar as festanças juninas como um misto de crença e folclore.

Para a comunidade católica, as festas aparecem como arrebanhadoras de fiéis e instrumento para melhorias nas paróquias. Todos os anos, pessoas afastadas do seio da Igreja passam a ter maior contato depois de participar da organização dos eventos.

“Tem gente que só vem mesmo para aproveitar, mas sempre há aqueles que resolvem ajudar pela primeira vez e tomam gosto. Nossas pastorais ganham reforço por conta da quermesse e isso é gratificante demais”, comemora Elaine Aparecida de Almeida Falcão, secretária da Paróquia de São Pedro.

Do ponto de vista econômico, junho é um mês bastante positivo para a cidade. Além do Dia dos Namorados, os festejos típicos também movimentam o comércio. A Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib) não possui estimativas específicas sobre a venda dos artigos juninos, mas confirma que a demanda de consumidores interessados em trajes, acessórios e alimentos “caipiras” tem boa representação na lucratividade do período.

Outros setores

Não é só o comércio que entra no embalo de “São João”. Setores da administração municipal, polícias Civil e Militar e Corpo de Bombeiros entram no clima também.

No ano passado, a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) e a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) chegaram a receber perto de 100 pedidos de interdição de rua. Este ano, poucos requerimentos chegaram até o momento, mas isso não significa que o mês será pobre de festas. “Seguindo a tradição brasileira, tudo é deixado para última hora. Daqui a uns dias, vai chover pedido aqui”, previu Aníbal do Santos Ramalho, gerente de operações viárias da Emdurb.

As polícias e os Bombeiros estão começando a se preparar para a época dos foguetórios. A Militar deverá intensificar a ronda nos principais eventos - a Universidade do Sagrado Coração (USC), inclusive, já solicitou policiamento -, podendo até montar uma equipe especial para cuidar exclusivamente das festas juninas.

Já a Polícia Civil tem a missão de autorizar as eventuais queimas de fogos, bem como fiscalizar os pontos de venda de fogos de artifício, cuja comercialização deve seguir uma série de regras e o manuseio, cuidados específicos.

Os Bombeiros também permanecem em alerta no período, pois, infelizmente, os acidentes com fogos sempre acontecem. O que mais preocupa a corporação é o lançamento de balões, que podem causar verdadeiras tragédias nesta época de tempo seco.

Os Santos

O primeiro santo homenageado em junho é Antônio, cuja devoção foi iniciada pelos portugueses. Tido como o santo casamenteiro, é muito procurado por solteiras, especialmente por aquelas que se julgam infelizes no amor. A vocação do santo é confirmada pela própria Igreja Católica, que aproveita o ensejo para celebrar casamentos comunitários e abençoar namorados e já casados.

O segundo santo é João Batista, o profeta primo de Jesus Cristo que passou a vida anunciando a chegada do messias, teria nascido no dia do solstício do verão europeu, 24 de junho, exatamente na data em que as festas pagãs eram realizadas e que a Igreja acabou incorporando oficialmente.

São Pedro, talvez o principal apóstolo de Cristo e primeiro papa católico, foi trazido, ao lado de São Paulo, bem mais tarde para a tradição católica, mas as celebrações em sua homenagem têm hoje o mesmo peso. O guardião dos céus, segundo a crença, fecha os festejos no dia 29.

Paróquias terão celebrações grandiosas

O calendário de festejos juninos este ano em Bauru é para nenhum “arroz de festa” pôr defeito. Entre 7 de junho e 7 de julho, não haverá um único final de semana sem opção. Os programas oferecem diversão e oportunidades para o exercício de fé a toda família.

Na sua 62.ª edição, a concorrida quermesse de Santo Antônio, realizada no adro da igreja, vai começar na próxima sexta-feira e se estenderá até 23 de junho. Já a programação religiosa teve início no feriado de quinta-feira com a trezena de Santo Antônio, que prossegue até o dia 12 em duas sessões diárias, às 7h e às 19h30. Na véspera do dia do padroeiro, haverá casamento comunitário e bênção dos casais.

A paróquia de São João Batista, na Vila Ipiranga, promoverá nove dias de festa. Embora seja o mais recente dos festejos - foi instituído há cinco anos -, a celebração do popular santo reuniu mais de 7 mil pessoas no ano passado. A fogueira, a quadrilha e o hasteamento do mastro de São João são os atrativos de destaque do evento, cuja renda obtida tem destino certo: a construção da igreja.

São Pedro é comemorado dia 29, mas a festança em sua homenagem, realizada desde 1964 em Bauru, só termina no dia 7 de julho. Desde que foi elevada à condição de paróquia, há quatro anos, a quermesse ganhou proporção grandiosa. Nesse período, para se ter uma idéia, a renda angariada praticamente quadruplicou.

A comunidade da Vila Dutra, onde fica a paróquia de São Pedro, já está em ritmo de festa. A organização do evento envolve o trabalho direto de 80 pessoas, das quais metade é intimamente ligada aos projetos da Igreja. “A outra metade apenas ajuda nos preparativos, mas alguns certamente passarão a integrar os projetos das pastorais. Todo ano é assim. A festa ajuda a arrebanhar católicos distantes e isso é muito bom”, avaliou Elaine Aparecida de Almeida Falcão, secretária da paróquia.

A festa de São Pedro chegou a reunir mais de 10 mil pessoas no ano passado e a previsão é de que mais visitantes apareçam na celebração de 2002. O trabalho é tão intenso que os coordenadores chegaram a cogitar a terceirização das barracas - serão 12 no total.

“Seria muito mais fácil, principalmente porque a festa tem o sentido econômico de obter fundos, mas perderíamos o importante espírito da comunhão, da participação comunitária”, alegou Elaine, que nos dias do evento acorda às 6h e dorme só depois das 3h. “Nesses dias, não tenho marido, mãe, nem filhos, que, por sinal, eu recruto para ajudar. É um trabalho que você ama ou larga”, enfatizou.

Em 2001, a festa de São Pedro consumiu 210 dúzias de bebidas, 250 frangos assados, 2.500 pastéis, 300 quilos de batata e gerou três carroças lotadas de lixo. O lucro pagou tudo o que não foi doado e rendeu a informatização da paróquia, a cobertura do telhado da igreja e a aquisição de uma geladeira e um forno de pizza.

Sem sanfona não tem graça!

Festa junina que se preza tem de ter quadrilha, paçoca, quentão e, claro, sanfoneiro. Embora o forró esteja em alta, é nessa época do ano que os tocadores de acordeão, a conhecida sanfona, mais são requisitados para shows e apresentações informais. “Se fosse contar, teríamos compromisso todos os dias”, disse Nilton Tayano, um dos acordeonistas mais célebres de Bauru.

A agenda só não está superlotada porque o repertório de Tayano, que há três anos formalizou uma dupla com o também reconhecido Edward Viotto, o Badê, tem um perfil mais erudito. Mesmo assim, eles - que têm 62 anos, nasceram no mesmo dia e mês, possuem descendência italiana, são palmeirenses e tocam desde “que usavam calças curtas” - costumam se apresentar em casas fechadas que promovem festas típicas.

O período é excelente para os músicos do ramo, vítimas de um certo isolamento até o forró invadir a cena universitária e se tornar moda. “Essa onda ajudou muito a quebrar o preconceito que existia em relação aos acordeonistas. As pessoas estão vendo a sanfona com outros olhos, dando o devido valor ao instrumento, que é popular e sofisticado ao mesmo tempo”, expôs Badê.

A maioria que vincula o acordeão às marchinhas de São João desconhece a infinidade de sons e estilos que podem ser extraídos dele. Tayano e Badê deram uma mostra disso à reportagem do JC, que lamenta não poder descrever com palavras aquilo que ouviu.

Na verdade, o instrumento é clássico, caro, pouco acessível à grande parte das pessoas que o julga “caipira”. Além disso, é dificílimo de dominar. “Para ficar craque mesmo, só depois de uns 40 anos tocando”, calculou Tayano. “Tempo pelo menos suficiente para se fazer umas cinco faculdades”, emendou Badê.