08 de julho de 2026
Articulistas

O teatro do bem e do mal


| Tempo de leitura: 3 min

Na luta do Bem contra o Mal, sempre é o povo que entra com os mortos. Os terroristas mataram trabalhadores de 50 países em Nova York e Washington, em nome do Bem e do Mal. E em nome do Bem contra o Mal, o presidente George Bush jurou vingança. Eliminar o Mal? O que seria do Bem sem o Mal? Não apenas os fanáticos religiosos precisam de inimigos, para justificar sua loucura. Também necessitam de inimigos, para justificar a sua existência, a indústria de armamentos e o gigantesco aparato militar dos EUA. Bons e maus, maus e bons: os atores mudam de máscaras, os heróis passam a ser monstruosos e os monstros, heróis, conforme exigem os que escrevem o drama. Isso nada tem de novo. O cientista alemão Werner von Braun foi mau quando inventou os foguetes V-2, que Hitler descarregou sobre Londres, mas converteu-se em bom no dia em que colocou seu talento a serviço dos EUA

Saddam Hussein continua onde estava, mas este inimigo número um da humanidade caiu para a categoria de inimigo número dois. O flagelo do mundo, agora, chama-se Ossama Bin Laden. A CIA ensinou tudo o que sabe em matéria de terrorismo: Bin Laden, amado e armado pelo governo dos Estados Unidos, era um dos principais “guerreiros da liberdade” contra o comunismo no Afeganistão. Bush Pai ocupava a vice-presidência quando o presidente Reagan disse que estes heróis eram “o equivalente moral dos Pais Fundadores da América”. Hollywood concordava com a Casa Branca. Nessa época, foi filmado Rambo 3: os afegãos muçulmanos eram os bons. Agora, são maus, muitíssimo maus, na época de Bush Filho, 13 anos depois.

Muito se parecem entre si o terrorismo artesanal e o de alto nível tecnológico, o dos fundamentalistas religiosos e o dos fundamentalistas do mercado, o dos desesperados e o dos poderosos, o dos loucos e o dos profissionais de uniforme. Todos compartilham o mesmo desprezo pela vida humana.

Em nome do Bem contra o Mal, em nome da Única Verdade, todos resolvem tudo se matando, primeiro, e perguntando, depois. E, por esse caminho, acabam alimentando o inimigo que combatem. Embora, agora, o líder da Civilização exorte a uma nova Cruzada, Alá é inocente dos crimes cometidos em seu nome. Afinal, Deus não ordenou o holocausto nazista contra os fiéis de Jeová e não foi Jeová que determinou a matança de Sabra e Chatila, nem quem mandou expulsar os palestinos de sua terra. Por acaso, Jeová, Alá e Deus não são três nomes de uma mesma divindade?

Uma tragédia de equívocos: já não se sabe quem é quem. A fumaça das explosões faz parte de uma cortina de fumaça muito maior que nos impede de ver. De vingança em vingança, os terrorismos nos obrigam a caminhar aos tombos. Vejo uma foto publicada recentemente: em uma parede de Nova York, alguma mão escreveu: “Olho por olho deixa o mundo cego.” Um menino de 3 anos, chamado Luca, disse outro dia: “O mundo não sabe onde está sua casa”. Ele olhava um mapa. Poderia estar vendo um noticiário. (IPS). (Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, é autor de “As Veias Abertas da América Latina” e “Memórias do Fogo”)