08 de julho de 2026
Geral

Bombeiros procuram evitar problema

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Lidando diariamente com o socorro a pessoas feridas e em situações de risco de morte, os bombeiros estão diretamente expostos ao estresse pós-traumático. Mas, a maioria deles consegue passar ileso ao problema. O segredo: eles desenvolvem estratégias e técnicas psicológicas para superar as conseqüências das tragédias.

De acordo com a professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sandra Leal Calais, doutora em psicologia, se não fosse esse subterfúgio, eles correriam o risco de ter danos irreparáveis. “As estratégias usadas por eles são corretíssimas do ponto de vista psicológico. Se não fosse por elas, os bombeiros poderiam sofrer muito as conseqüências do seu trabalho no cotidiano”, explica.

Ela acompanhou durante mais de seis meses as atividades da corporação em Bauru. A partir da vivência e da intervenção feita junto aos militares, ela criou subsídios para a sua tese de doutorado “Estresse pós-traumático - Intervenção clínica em vítimas secundárias”.

Segundo a professora, cada bombeiro tem uma maneira diferente de reagir à situações de grande adrenalina, como incêndios, salvamentos e resgate de vítimas.

Quando saem do quartel em direção a uma ocorrência, eles vão no carro mentalizando qual a melhor técnica para salvar de maneira rápida e eficiente a vítima. No local do acidente, os militares concentram-se basicamente no seu trabalho, sem desviar a atenção para o emocional que envolve a vítima. “Eles têm um cuidado enorme com os acidentados, conversam com eles, tentam animá-los, mas procuram não pensar no histórico de vida da pessoa”, explica a professora.

Depois de levar a vítima para o hospital, cada um tem uma maneira para desestressar. Alguns escutam música clássica, outros jogam bola, outros analisam criticamente a ocorrência, salientando os pontos que podem ser aperfeiçoados.

Crianças

O soldado Marcos Aurélio Vieira, que trabalha há 11 anos na corporação, diz que o treinamento que os bombeiros recebem é o que determina a sua atuação. “Nós somos treinados para encarar o problema sem se envolver com ele.”

Ele salienta que nem sempre o bombeiro fica totalmente ileso à situação. Mas, mesmo sentindo-se abalado, ele tem forças suficientes para concentrar-se no salvamento. “A nossa maior gratificação é salvar uma vida. Por isso, procuramos superar o trauma da visão do acidente e concentrar-se na vítima”, enfatiza.

Para o sargento Carlos Eduardo Nunes, o que mais marca os militares é vítima presa em ferragem. â€œÉ um trabalho demorado e a gente vive toda a agonia da pessoa”, diz.

Mesmo assim, o emocional tem que ficar separado do racional, para que o resgate seja feito de forma rápida e sem afobação.

Outro fator que mexe profundamente com a maioria dos bombeiros é o salvamento de crianças. “Isso sempre nos deixa triste, pois vemos nas crianças seres frágeis e, ao mesmo tempo, cheio de vida pela frente”, comenta Vieira.

Embora procurem esquecer a situação da vítima depois do resgate, algumas cenas ficam para sempre na mente dos militares.

Vieira, por exemplo, diz que um caso que o marcou muito foi o de um acidente em que morreu um casal, na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, há alguns anos. “Eles tinham casado recentemente. A mulher teve duas paradas cardíacas no local do acidente e nós conseguimos reanimá-la. Mas, ao chegar ao hospital, ela faleceu”, conta.

Já Nunes lembra de casos em que ele procurou animar a vítima enquanto ela era retirada das ferragens. “Teve um rapaz que ficou um bom tempo preso nas ferragens. Eu fiquei segurando a mão dele e falei para que ele apertasse a minha a cada vez que sentisse muita dor. Ele apertava direto e eu me sentia satisfeito por estar ajudando.”

O sargento diz que a união da equipe conta muito como estratégia para desestressar. “Quando voltamos de um resgate difícil, nós brincamos muito um com o outro, alguns gritam, outros fazem exercícios físicos, tudo para limpar a imagem que ficou na mente”, ressalta.

Ele trabalha há 15 anos na corporação e salienta que, com o tempo, o bombeiro aprende a lidar melhor com as situações de risco. “No começo sentimos medo, não de ver a vítima, mas de errar no socorro”, explica.

É o que diz sentir o soldado Marcelo de Oliveira Saggioro. No dia da entrevista (sexta-feira) ele estava se iniciando na corporação. “Ainda não atendi nenhuma ocorrência, mas acho que vou me sair bem”, diz.

Ele salienta que a preparação psicológica é eficiente. “Nós somos treinados para ter calma e racionar rapidamente na hora do socorro. Não há tempo para se envolver emocionalmente com a vítima.”

Mesmo com o preparo, um frio na barriga é inevitável. “A adrenalina sobe, mas temos que nos controlar”, explica.

Além das situações tensas vividas nos salvamentos, há outros fatores que podem estressar os bombeiros.

De acordo com Sandra Leal Calais, o próprio ambiente causa uma alteração no organismo dos militares. “Os bombeiros nunca dizem ‘não’. Eles atendem a todas as solicitações, mesmo que não sejam ocorrências de sua área de atuação. Isso pode estressá-los”, diz a professora.