09 de julho de 2026
Bairros

Trânsito urbano invade as rodovias

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

O tráfego urbano nas estradas que cortam o município de Bauru tem alcançado participação surpreendente no fluxo diário geral de veículos. Nos trechos rodoviários situados na área urbanizada, o movimento chega a aumentar 155%, segundo recentes medições feitas pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

Os resultados das aferições deixam claro que o bauruense, por opção ou não, prefere as pistas de alta velocidade a enfrentar semáforos, “pares” e os outros obstáculos característicos das ruas e avenidas. Quem o faz por livre escolha argumenta que a rapidez e a fluidez são garantias insuperáveis de economia de tempo, de combustível e até de paciência.

Há, entretanto, aqueles que, por falta de alternativa, são obrigados a cair na malha rodoviária. Caso, por exemplo, de quem mora ou precisa chegar até a Vila São Paulo, Pousada da Esperança e Parque Colina Verde, todos bairros da zona norte.

O pior é que a maioria dessa população malservida - não só de infra-estrutura viária, é bom salientar - não possui veículo automotor e, invariavelmente, nem condições de custear o passe diário do transporte coletivo. São pessoas que quase todos os dias andam quilômetros a pé ou de bicicleta para chegar ao trabalho.

O mérito desse sacrifício, porém, é apenas o pano de fundo de um problema muito mais grave: o risco iminente de acidentes. A situação agrava-se ainda mais quando as potenciais vítimas são crianças em percurso escolar. Estudantes que residem no Colina Verde e nos jardins Nicéia e Ivone, só para citar estes três, convivem todos os dias com a ameaça sobre rodas.

Soluções em baixa velocidade

A mistura dos trânsitos urbano e rodoviário é hoje em Bauru um problema com soluções distantes. Passarelas de transposição trariam benefícios aos pedestres, mas quase nenhuma ajuda aos motoristas, que precisariam de vias marginais para se locomover sem correr os riscos inerentes às auto-estradas. A iluminação dos trechos rodoviários urbanos também contribuiria com a segurança dos usuários.

A execução dessas obras, no entanto, consumiria investimentos que estão fora do orçamento municipal e, por ora, dos planos do Governo Estadual. Só na construção das três passarelas mais necessárias - no Jardim Panorama, no Colina Verde e no Gasparini, esta última já com garantia de ser erguida -, os gastos ultrapassariam a casa de R$ 1 milhão.

Para a iluminação dos 31,5 quilômetros de rodovias que cortam a cidade (Marechal Rondon, Comandante João Ribeiro de Barros e acessos à Bauru/Iacanga e à Bauru/Marília), seriam precisos mais de R$ 7,2 milhões. E, finalmente, a construção das marginais demandaria algo em torno de R$ 14 milhões. O cálculo dos investimentos foi baseado em valores fornecidos pelo DER.

A instalação de lombadas eletrônicas nos pontos urbanos mais movimentados das rodovias seria uma opção plausível no entendimento do DER, na medida em que controlaria - por meio da ameaça de penalidade em dinheiro - a velocidade dos veículos. Um estudo nesse sentido, por sinal, foi desenvolvido pelo órgão para atender o Estado inteiro, mas não vingou.

Ao contrário dos dispositivos eletrônicos, a utilização de mecanismos convencionais de controle de tráfego, como obstáculos em nível e semáforos, não é possível nas auto-estradas. A legislação que regula as rodovias é expressa nesse aspecto, o que torna evidente a contradição de se permitir, ainda que de forma velada, a interferência dos hábitos urbanos.

Responsabilidade de quem?

Sozinhos, nem prefeitura nem Estado demonstram condição, disposição e vontade política de assumir as obras. Entretanto, tanto um quanto outro cita o termo parceria quando questionados a respeito da responsabilidade sobre o problema.

O Departamento de Estradas de Rodagem tem nítido interesse em livrar-se do trânsito urbano, principalmente porque a presença de usuários sem o perfil de motorista rodoviário costuma trazer inconvenientes ao órgão. Ações indenizatórias por conta de acidentes são os principais.

O município também tem motivos para tentar corrigir o problema, a começar pelo atendimento às reivindicações de populares. Os requerimentos cobrando providências não param de chegar à Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), que já tem projetos para algumas obras, mas não possui autonomia nem condições financeiras para executá-los.

Em março do ano passado, a Prefeitura de Bauru encaminhou cinco solicitações ao DER, quase todas propondo parcerias para a construção de marginais (do Distrito Industrial II à Vila Aimorés, da Vila São Paulo ao Parque Colina Verde e do Jardim Pagani à Quinta da Bela Olinda) e vias de acesso (das avenidas Duque de Caxias e Rodrigues Alvez para a Rondon e vice-versa). Até agora, nenhuma resposta, mas também nenhuma cobrança mais contundente.

Na recente visita do governador Geraldo Alckmin a Bauru, a titular da Seplan, Maria Helena Rigitano, acrescentou à lista mais dois pedidos: a duplicação da avenida Luiz Edmundo Coube, no trecho entre o Hospital Regional e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), e a abertura de um segundo acesso à Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem).

O fato de os três aparelhos serem estatais justificou o requerimento, mas também serviu para reforçar o espírito daquele que parece ser o único caminho para as soluções: a parceria.

Se não for por meio dela, é praticamente impossível pensar que Bauru venha a ter um dia as tão necessárias marginais. “Por estarem fora do patrimônio do Estado, as marginais competem ao município construir. O problema é a falta de dinheiro. Pedimos material e oferecemos mão-de-obra. Uma vez prontas, as obras trarão benefícios a todos”, ponderou Maria Helena.

Mesmo se o DER aceitar a proposta e fornecer o material, a prefeitura terá que arcar com desapropriações em praticamente todos os trechos marginais, mas Maria Helena Rigitano garante que isso não seria empecilho. “Não teríamos um dispêndio muito grande porque grande parte das áreas já pertence ao município”, informou.