O pescado é um produto que cada vez mais faz parte do cardápio do brasileiro. Congelados ou frescos, os peixes fazem muito sucesso entre os consumidores, que na maioria das vezes nem imagina as dificuldades que passam os pescadores. A chegada do inverno traz também um período difícil para os profissionais, que dependem da pescaria para sustentar suas famílias e sobreviver.
Em Cambaratiba, distrito de Ibitinga, a quase 80 quilômetros de Bauru, cerca de 15 pescadores vivem exclusivamente da pesca profissional. Às margens do rio Tietê, entre as represas de Ibitinga e de Promissão, esses homens desenvolvem um trabalho duro, que não escolhe dia: de domingo a domingo, faça chuva ou faça sol, as redes são armadas.
Mas apesar da perseverança, nem sempre seus esforços são recompensados. Como todos os pescadores sabem, o peixe é animal tinhoso, tem dia que aparece, tem dia que não. Nessas horas, pode acontecer da pescaria não compensar a saída dos barcos, não pagar sequer o combustível. Só que ficar em casa, esperando os peixes “apareceremâ€, é uma atitude que não pode passar pela cabeça de um pescador, pois da sua insistência depende a sua sobrevivência.
Em Cambaratiba, cerca de 15 pescadores concentram-se em duas regiões: Fazenda São José da Figueira e Fazendinha. Todas as tardes, os barcos se preparam para armar as redes que trarão o lucro do dia seguinte. Em um trabalho bastante solitário, a maioria pesca sozinho. Pode parecer simples, mas existe uma complexa relação de respeito e confiança entre pescador e rio, que somente eles são capazes de realizar.
Entre uma pescaria e outra, eles enfrentam sucuris, socorrem turistas, levam mordidas de piranhas e sempre aprendem mais um “causo†para contar, mas com uma diferença: são histórias mais reais do que se imagina. São histórias de vida.
Na Fazenda São José da Figueira moram vários pescadores, entre eles Sílvio Aparecido Pavan, 36 anos, José Roberto Ribas, 60 anos, e José Roberto Moreira, 51 anos. Cada um deles carrega uma história de amor pela profissão.
Ribas, por exemplo, é um homem solitário, apaixonado pela pesca e pela natureza. Para ele, a profissão, apesar de dura, oferece liberdade. “Eu não tenho patrão, meu patrão é Deusâ€, explica o pescador profissional referindo-se ao comportamento dos peixes.
O pescador explica que o período que se inicia é realmente um dos mais complicados para os profissionais. “Se você pescava 100 quilos, agora pesca 20â€, compara. Para não ficar no prejuízo, o pescador deve ser cuidadoso, conhecer bem a região e evitar o desgaste da tralha e do barco. Há casos em que o profissional perde o material em enroscos, galhos e árvores submersos, ou, o que é pior, furtado.
O roubo de redes e de todo o pescado é um problema sério. “Eu não gosto de ladrão, porque a vida já é sofrida e aí vem alguém e rouba a rede da gente! Creio que sejam pessoas de fora, porque quem vive da pesca não faria uma coisa dessasâ€, desabafa o pescador.
Capazes de salvar os amadores em apuros, são muitas as histórias que eles contam de resgate de pescadores, adolescentes e até de pessoas mais velhas. “O que acontece é que nem sempre as pessoas têm conhecimento do rio e são surpreendidas por um vento muito forte, que pode afundar a embarcaçãoâ€, fala Ribas.
Pagar o preço
Depois de tanto trabalho, tudo limpinho e congelado, chega uma equipe de uma empresa de Araraquara que adquire o produto da pesca. Robson Antonio Struziato, 21 anos, e Marcos Roberto da Silva, 38 anos, são resposáveis pela compra dos peixes. “Apesar da queda nas pescarias, o consumo de peixes se manteve. O peixe chega e sai com muita rapidezâ€, explicam Struziato e Silva.
Os preços variam de acordo com a espécie, de R$ 0,80 a R$ 2,00, o que leva em consideração a dificuldade de pesca, mas principalmente o interesse por determinadas espécies. O curioso, por exemplo, é o fato de algumas espécies apresentarem a mesma dificuldade na pesca e seu preço ser diferenciado. Nesse caso, o que vale é interesse do consumidor.
A corvina e a mandiúva são as espécies que representam a maioria dos peixes capturados nas redes. Só que o preço é diferenciado: o pescador recebe R$ 0,80 por quilo de corvina, enquanto recebe R$ 1,00 por quilo de mandiúva. Apesar da região possuir outras espécies mais procuradas e melhores preços, como dourados, pintados e tucunarés, sua pesca é ocasional.
“O dourado é um peixe esperto, fica nas corredeiras e dificilmente cai na rede. Já o pintado é capturado em períodos em que a temperatura está mais elevadaâ€, comentam os pescadores. Com a queda da temperatura, os peixes tendem a procurar regiões de maior profundidade e passam a maior parte do tempo inertes, dificultando o trabalho dos profissionais.
Já o tucunaré não entra no rol das espécies capturadas, pois ele não cai na rede. “O tucunaré só se pega no anzolâ€, comenta Pavan. Ele é um profissional que busca outras atividades para complementar sua renda mensal. “Já vivi só de pesca, mas agora está muito difícil.†Nascido e criado em Cambaratiba, como ele mesmo diz, Pavan também faz serviço de pedreiro.
Conhecedor de toda a região, ele não se aperta e aproveita, com muito bom humor, as belezas de Cambaratiba. “Aqui é um lugar especial, tem corredeiras e a água é limpaâ€, finaliza o pescador.
Rede ou tarrafa?
“Aí depende... A tarrafa pega melhor que a redeâ€, explica Moreira. “Só que tem época certa. Agora, nem adianta usar a tarrafa, porque você tem que jogar no cardume. É em outro período.†A rede pode ser armada sempre, mas dependendo da espécie, muda-se a malha. “Hoje (referindo-se à domingo), vou ver se pego alguns lambaris, por isso, vou colocar rede com malha 4â€, ensina.
Moreira, diferente de outros pescadores, prefere comercializar seus pescados em sua própria casa. “Consigo um preço melhor, pois tem muito amador que vem pescar e acaba sem peixe. Aí vem comprar aquiâ€, brinca o pescador. Ele também vende camarões de água doce cozidos e salgados para serem usados como isca. Um pacotinho com mais de 300 iscas sai por R$ 2,00.
Pragas
Alguns inconvenientes dificultam a vida do pescador, como as vorazes piranhas. É comum encontrar peixes mordidos ou até devorados pelas piranhas nas redes. “Ela vê o peixe preso e aproveitaâ€, conta Ribas.
Outra coisa chata são os ovos das mariposas. “Em determinada época do ano, a superfície da água fica cheia de ovos que colam na rede. No dia seguinte, precisamos secá-la ao sol para depois esfregar e tirar os ovinhos. Caso contrário, a rede fica toda grudada e não dá resultadosâ€, explica Moreira. Silveira brinca com a história: “Tomara essas mariposas virassem tudo peixe!â€
Aliás, o cuidado com a tralha é importante, pois a rede deve estar sempre limpa antes de ser colocada. “Uma rede suja é uma parede para o peixe, aí ele desviaâ€, salienta Moreira.
Causos de pescador
• Você sabia que dentro da cabeça da corvina existem duas pedrinhas? Pois é verdade, idênticas e muito bonitas. Na mão de alguns pescadores, elas viram verdadeiros talismãs. Segundo o Canaã Viagem e Turismo, site especializado, “a corvina de água doce, Plagioscion squamossissimus, é a mais comum, introduzida em barragens e açudes. Uma forma de identificação é pelos otolitos, um par de pequenas pedras no crânio (ouvido interno). As marcações nos otolitos são caracteres distintos entre espécies e gênerosâ€. Taí a explicação “científica†das pedrinhas.
• Esta é do Pavan: “Você sabia que tem duas Nossa Senhora Aparecida no dourado? Uma fica na lateral, perto da boca e do olho, a outra fica na língua. Eu tirei uma para a minha mãe. É assim: você corta a língua do dourado, fervente bem na água, bastante mesmo, e aí aparece a imagem. É uma proteção, dá até para colocar no colar.â€
• Ribas: “Tem muita coisa no rio. O que tem em cima da terra, tem embaixo da água!â€