11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana - Bauru não está livre de dano ambiental

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 6 min

Bauru não está imune aos problemas ambientais que metrópoles como São Paulo enfrentam no dia-a-dia. A opinião é do professor Osmar Cavassan, vice-diretor da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Para Cavassan, dois pontos são a chave para impedir que a cidade mantenha o desenvolvimento sem descuidar do equilíbrio ecológico: educação ambiental e planejamento.

Segundo o professor, a Semana do Meio Ambiente, comemorada no início deste mês, é o momento ideal para a reflexão e a discussão de propostas. Cavassan não é radical. Defende o desenvolvimento econômico e argumenta que Bauru e outras cidades de porte não podem prescindir de indústrias.

Segundo ele, no entanto, é preciso que a população tenha consciência e se mantenha vigilante até para os riscos invisíveis do progresso. Leia a seguir a entrevista que o professor concedeu em seu gabinete, no câmpus da Unesp de Bauru.

Jornal da Cidade - Em que patamar Bauru está na questão ambiental? Osmar Cavassan - Bauru é uma das maiores cidades do Interior do Estado de São Paulo. Tem mais de 300 mil habitantes e, evidentemente, um crescimento deste porte conduz a uma série de situações, que se não bem administrada,s podem causar danos ao meio ambiente.

JC - O que, por exemplo? Cavassan - A ocupação de espaço, a produção de lixo e esgoto, a proteção de suas nascentes, dos mananciais, a obtenção de água, que é um problema muito sério. A emissão de substâncias na atmosfera. São situações que se agravam com o aumento da população. Bauru sente bastante este crescimento, no que se refere a questão ambiental.

JC - Se o plano diretor fosse seguido, a situação seria melhor? Cavassan - Acima de tudo é necessário um plano. Um plano bem feito tecnicamente e Bauru conta com um. Evidente que este plano tem que ser periodicamente revisto, ele não pode ser inflexível porque situações não previstas, na época em que ele foi elaborado, podem surgir. Então, há necessidade de adequações, de se rever alguns conceitos, isso deve existir o tempo todo.

JC - Se Bauru tivesse mais indústrias, a situação seria pior? Cavassan - A situação seria diferente com certeza. Evidentemente, a indústria gera consumo maior de energia, mais resíduos, barulho... é uma série de situações que são geradas pela presença da indústria.

Agora, a indústria é necessária. Os problemas não seriam tão grandes se a expansão industrial de Bauru, ou de qualquer outra cidade, fosse feita mediante um bom planejamento, de uma localização mais adequada, de mecanismos mais eficientes contra a emissão de resíduos desta indústria. Então, neste caso, nos teríamos uma chance de produzir, que é uma necessidade, mas ao mesmo tempo com um mínimo de impacto possível.

JC - Existem estudos que mostram que a poluição de São Paulo está chegando a Bauru. Esta situação tende a se agravar? Cavassan - Tudo pode ser mudado, as coisas não são estáticas. A ação antrópica, a presença do homem, morando, ocupando, modificando, transformando energia, transformando substâncias. Ela provoca um impacto em seu entorno.

Este entorno tende a ser cada vez maior, à medida que um maior volume de produtos são lançados. Produtos lançados na atmosfera seguem a rota dos ventos.

JC - O Tietê corre para dentro. Cavessan - Corre para o Interior. Ele nasce na Serra do Mar, na região de Salesópoles, atravessa a Grande São Paulo e tem a sua foz no rio Paraná. Então, ele atravessa todo o Interior do Estado, de leste para oeste. Toda aquela carga de material que é lançada flui através do rio. Todo o entorno sofre.

Dependendo da direção dos ventos, determinados gases, material particulado, transportado em altas altitudes, acaba se depositando no entorno. Hoje, nós podemos perceber emissões, mesmo através dos sentidos, de substâncias gasosas das usinas da região.

E através de medidores mais sensíveis, que hoje estão se apresentando, nós podemos perceber aqui até substâncias vindas de regiões distantes como São Paulo. Hoje, a poluição, ou a ação do homem, não tem fronteiras geográficas. A dispersão destas substâncias segue as correntes da natureza.

JC - O Greenpeace publicou um relatório alertando para a contaminação industrial. A Ajax passa por um problema semelhante em Bauru, com o chumbo. Qual é o ponto crucial desta questão, na sua opinião? Cavessan - O Brasil tem leis suficientes para o controle destas situações, mas os mecanismos de fiscalização e aplicação é que nem sempre têm a infra-estrutura desejada para que estas leis sejam aplicadas de maneira eficiente.

Não tanto por falta, ou capacidade dos seus funcionários, mas de estrutura, de mecanismos, viaturas, equipamentos, que nem sempre são suficientes para dar conta de todos estes processos. Alguns processos de poluição não são perceptíveis, por exemplo, nem sempre os mais perigosos são aqueles que você percebe pelos sentidos.

Às vezes você percebe um cheiro ruim de um rio, pela visão percebe a derrubada de uma área de mata, ouve um som muito forte e tem um desconforto. Mas em termos orgânicos, às vezes a poluição imperceptível para os olhos e ouvidos é muito pior.

No momento que a população percebe uma agressão à natureza, ela tende a denunciar, a imprensa se faz presente, os órgãos fiscalizadores atendem a denúncia e agem contra aquilo. Mas quando a ação é imperceptível para os sentidos, ela só vai ser detectada quando as conseqüências, como óbitos, doenças, começam a ser registradas com freqüência naquela região. Quando se correlaciona aquelas conseqüências à origem do problema, o problema já é muito extenso. Por isso que talvez tenha acontecido situações como a de Bauru.

JC - Este ano vai ocorrer a conferência Rio + 10, em Joanesburgo, para que se avalie a situação ambiental do planeta, dez anos depois da Eco 92. O senhor acha que vai sair alguma coisa proveitosa do encontro? Cavessan - Eu espero que sim, mas vai depender muito do quanto as grandes potências se comprometerem a participar do processo global de planejamento e de não-degradação ambiental.

Nós temos percebido que nestas reuniões as grandes potências, que são as que mais poluem, em nome às vezes do não-comprometimento da economia destas nações, são as que mais se omitem da responsabilidade. E o que é pior: às vezes transferem esta responsabilidade para os países economicamente menos favorecidos, como se eles fossem os grandes vilões da degradação ambiental.

Na realidade, a degradação foi muito intensa e ainda continua existindo diretamente na área destas grandes nações ou através de ações suas em outros países, que têm uma dependência econômica daquele país.

JC - O que precisa ser feito para que as gerações futuras de Bauru tenham uma vida ecologicamente equilibrada? Cavessan - Bom. Eu acho que Bauru precisa, como toda cidade grande, de um trabalho muito sério, envolvendo pessoas que tecnicamente estejam bem informadas e que tenham capacidade planejamento. O plano diretor não pode estar dissociado do plano ambiental.

Segundo, é preciso implementar programas de educação ambiental, onde você siga os seguintes princípios: que as pessoas aprendam a perceber o ambiente em que vivem, a partir da percepção, que elas procurem conhecer os elementos do ambiente em que vivem. Conhecendo, elas passam a ter capacidade de entender o que está acontecendo ali. E entendendo, elas têm capacidade de decidir, de participar, de discutir, de propor e de se envolver de alguma maneira com a questão ambiental.

O cidadão, neste caso, entende o que está acontecendo com o seu ambiente e tem uma responsabilidade sobre ele. Seu modo de vida em relação a este ambiente será coerente. Isso faz parte do processo de educação ambiental, que não é apenas militância ambiental, não é a conservação a todo preço.