09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Nota sobre o julgamento de Eldorado dos Carajás


| Tempo de leitura: 2 min

Em nome do Setor Pastoral Social da CNBB, repudiamos o resultado do julgamento dos soldados envolvidos no massacre de Eldorado dos Carajás, Sul do Pará, onde 19 trabalhadores sem-terra foram assassinados num confronto com a Polícia Militar, em abril de 1996.

Entendemos que a absolvição dos 124 PMs contribui para a escalada da violência, no campo e na cidade, na medida em que estimula a impunidade dos culpados. Até mesmo os oficiais condenados nos julgamentos anteriores do mesmo caso, apesar das penas condenatórias, permanecem em liberdade.

A luta pela terra, neste País, tem feito cair muitos mártires, entre trabalhadores, sindicalistas, religiosos, advogados, agentes e lideranças. Na grande maioria dos casos, gente que tomba a mando de latifundiários, os quais permanecem anônimos. Não podemos admitir que continuem impunes tanto os assassinos quanto seus mandantes.

Esperava-se que no julgamento de Carajás, pelo número de pessoas mortas, pela extrema crueldade e pela repercussão aqui e no exterior, os culpados tivessem um destino diferente, fossem exemplarmente punidos. Mas prevalece, outra vez, a mais cínica impunidade. Cínica a ponto de os soldados alegarem que atiraram para o alto! Deve-se supor, então, que foram os próprios trabalhadores que abriram fogo contra si mesmos? É o que o resultado do julgamento nos leva a concluir! Afinal, de onde partiram as balas que atingiram os sem terra?

Como sabemos, o acúmulo da riqueza e da terra e as profundas injustiças e desigualdades sociais em nossa história têm um preço muito elevado para os setores excluídos da população. Suor, lágrimas e sangue lavaram e continuam lavando o solo desta Pátria Brasil. Até quando!?

Diante de fatos tão flagrantemente escandalosos, são inevitáveis as palavras do profeta bíblico: “Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês esfolam o povo e descarnam os seus ossos. Vocês são gente que devora a carne do meu povo e o esfola, quebra seus ossos e os faz em pedaços, como carne de panela, como um cozido num caldeirão” (Miquéias 3,1-3).

Apelamos aos poderes constituídos, Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como a todas entidades e movimentos da sociedade civil organizada, no sentido de empenhar-se por um basta a esta espiral de violência, cujas vítimas são quase sempre os mais pobres e indefesos.

Que Deus nos dê força e coragem para manter a luta pela terra e na terra, até o dia em que se realize o sonho de outro profeta bíblico: “Os homens construirão casas e nelas habitarão, plantarão vinhas e comerão os seus frutos (Isaías, 65,21). (Alfredo J. Gonçalves - assessor do Setor Pastoral Social da CNBB)