10 de julho de 2026
Geral

Lá vem o noivo: é 'seo' José, 90 anos

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 4 min

Quarta-feira, Dia dos Namorados. Do lado de fora da Igreja de Santo Antônio, na Bela Vista, 25 casais preparam-se para um casamento coletivo. Entre eles está José Augusto Tavares, um animado noivo de 90 anos.

“Com esse casamento é o quarto”, conta o homem rindo. “Enquanto a gente está bem, está de pé, acho que tudo vale a pena”, diz sentado calmamente em um banco da igreja.

A cruz de neon ofusca os olhos de quem sobe a escadaria da igreja. Lá dentro, já não há mais lugares. É véspera do Dia de Santo Antônio e muita gente está adiantando a “fézinha” para o casamenteiro.

Ao lado de “seo” José, claro, a noiva: “No começo eu não tinha interesse de namorar. Sou viúva duas vezes. Era só uma brincadeirinha”, conta a elegante Brasília Franco Tavares, que não esconde a idade, 82 anos.

Dona Brasília conta que rendeu-se ao insistente José para agradar a neta, na época com oito anos. “Foi essa aqui o cupido”, diverte-se mostrando a menina, já crescida e toda arrumada para o casório.

Nervoso? “Que nada, rapaz, no meio desse povo todo, estou achando muito legal”, diz o noivo ilustre. O casamento coletivo também agrada dona Brasília. â€œÉ bacana, não é?” A fila se forma, lembrando uma quadrilha de festa junina. A diferença é que alguns ali estão visivelmente tensos.

Amor não tem idade, conclama o chavão. Depois do homem de 90 anos, encontra-se uma adolescente. Ali no meio está Ana Cláudia Laureano, 16 anos. Ela sim está nervosa, mal consegue respirar o ar seco do outono. “Casar é meu sonho. Fiz questão do vestido”, confidencia. Ela é uma das poucas com o traje clássico. Toda de branco.

Seu noivo, Sebastião Quintino Júnior, 24 anos, conta que eles já têm um bebê e esperavam uma oportunidade para casar. “Acho que vai ser mais bonito que um casamento comum”, opina.

Juntos há 12 anos, Gaudência Aquino Crepaldi, 66 anos, e Antônio Sanches, 70 anos, aguardam na fila. “Estávamos esperando um tempo para ver se dava certo. Agora, sim, podemos casar”, explica Gaudência.

Apesar de não estar vestida como Ana Cláudia, ela inspira jovialidade, inocência até. “Casar era um sonho. De que mulher não é?”, diz com os olhos eufóricos.

Os primeiros casais preparam-se para entrar. Ninguém quer ser notícia numa hora dessas. O último casal da fila, no entanto, conta um pouco da sua história. “Temos uma menina de 13 e outra de 7. Vivemos juntos há 15 anos”, diz Wilson Monteiro Vicente, 68 anos. Ao seu lado, a noiva Márcia Aparecida dos Santos Vicente, 32 anos. Eles caminham pela igreja, ao passar pela sua “torcida”, Wilson acena.

O padre entra: “ao nosso querido Santo Antônio: a nossa saudação”. Palmas, muitas palmas. O santo é forte. Os casais estão prontos. Que eles sejam felizes para sempre.

Bauru registra 100 casamentos/mês

Em Bauru, dois cartórios fazem o registro dos casamentos. Em cada um deles, a média é de 50 matrimônios por mês.

No Cartório de Registro Civil do 1º Distrito, no Centro, a quantidade de casamentos está caindo ano a ano, segundo Ademílson Luiz Mendes Novelli, oficial do cartório. Segundo ele, este ano a queda é de cerca de 8% em relação ao ano passado. “A instituição casamento está um pouco desacreditada”, opina

Alexandre de Matos Nascimento, escrevente-substituto do cartório do 2º Distrito, na Vila Falcão, discorda de Novelli. Para ele, o casamento tem mais crédito hoje. “Ele é necessário. Pelo lado prático, serve como documento. Além disso, existe o lado social”, afirma. “As pessoas são mais bem informadas na atualidade. Tem consciência da decisão”, comenta.

Segundo as estimativas de Nascimento, o cartório do 2º distrito vem registrando o mesmo número médio de casamentos, de 50 por mês, há dez anos.

O que os dois concordam é que o mês de dezembro é o campeão de casamentos, desbancando maio, o “mês das noivas”. Em dezembro, cada cartório registra, em média, 70 uniões.

Nascimento, no entanto, admite que o aumento da população em Bauru não está sendo acompanhado por uma maior incidência de matrimônios. O processo burocrático do casamento custa R$ 159,00. Inclui a papelada e a publicação de um edital. “O preço está caindo desde 1990”, afirma Nascimento.