10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos - Tire a roupa e dê uma olhadinha no espelho

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Quando surgimos na existência começamos um desenvolvimento que é basicamente corporal. Nós nos expandimos e tomamos forma neste mundo através de um corpo. A vida humana não é somente espiritual e mental, mas essencialmente corporal. Nossa qualidade de vida e a comunicação que desenvolvemos com o mundo estão intimamente relacionadas com corpo. É através dele que conhecemos a nós mesmos e o nosso universo.

Através do corpo sentimos não somente a dor que nos ensina nossos limites, como também o prazer que nos indica o caminho certo para o nosso desenvolvimento. O corpo nos fala sobre nossa história de vida e sobre nosso estado atual. É difícil nos concentrarmos em uma atividade intelectual se sentimos dor física.

O dia se desenvolve muito melhor se nosso corpo está descansado, se tivemos uma boa noite de sono. Quando não nos sentimos bem é quase inevitável transmitirmos aos outros nosso estado de espírito através de gestos e expressões corporais. Com um sorriso podemos contagiar positivamente todo um ambiente. O corpo também revela nossa frustração ou satisfação diante do rumo que tomamos na vida. Um estado emocional abalado acaba, na maioria das vezes, se “somatizando”, ou seja, acaba transformando-se em uma doença física. Enfim, o corpo é parte de nossa individualidade e de nossa personalidade.

Sem o corpo deixamos de ser humanos para sermos fantasmas. Muitas vezes, o óbvio necessita ser verbalizado: nós somos corpo.

Infelizmente, esta verdade precisa ser sempre relembrada, já que nossa cultura ocidental sofreu grande influência de uma das mais tristes linhas filosóficas gregas: a filosofia de Platão. Nesta, o universo encontra-se dividido entre o mundo das idéias e o mundo das coisas visíveis. Enquanto o primeiro é o verdadeiro mundo, o segundo é sua cópia imperfeita.

Portanto, o objetivo do ser humano é a libertação deste mundo sensível para atingir o mundo das idéias. Como todo o universo, o próprio ser humano também vive em um dualismo radical.

Se o mundo sensível é uma espécie de exílio do mundo das idéias, o corpo humano funciona como uma prisão que impede a alma de deixar a realidade imperfeita em que vive. Este estado da alma é, para Platão, a patologia humana por excelência.

Dividida completamente do corpo, a alma constitui o que há de divino, eterno, racional e autônomo no ser humano. O corpo (soma) é, para o filósofo, o túmulo da alma. Portanto, o objetivo da vida terrena seria fazer com que a alma retornasse ao seu estado original, ou seja, conquistar a liberdade fora do corpo e viver na plenitude do mundo das idéias.

Para Platão, o homem sábio é aquele que procura superar a realidade dos sentidos. Principalmente através do cristianismo, esta linha de pensamento acabou influenciando todo o mundo ocidental criando uma mentalidade dualista que distingue alma e corpo, razão e sentido, mundo espiritual e mundo material. A tragédia não está somente no dualismo, mas também na supervalorização do que é mental e na desvalorização do que é material.

É necessário re-aprender que corpo e mente constituem uma única realidade. A saúde humana é ao mesmo tempo física, mental e espiritual. Justamente o dualismo proposto por Platão é uma forma patológica de viver a vida. A pessoa humana é uma unidade na qual torna-se impossível dividir corpo, mente, espírito e alma. Quando o corpo está doente, todo o ser humano sofre com a doença.

Portanto, o sábio não é aquele que cuida somente do que é espiritual e mental, mas aquele que cuida também de seu corpo, da unidade de seu ser. O que não significa entrar no “jogo” perigoso da beleza estética proposta pela mídia.

Saúde não significa necessariamente ter aquele “corpo perfeito” desejado pela estética atual. Determinada estética corporal não é sinônimo de saúde, pois a aparência do corpo depende muito de fatores hereditários e condições individuais de cada ser humano.

Aquele corpo “perfeito” modelado por anabolizantes, exercícios físicos em excesso e regime alimentar agressivo além de ser artificial é com certeza uma preparação para uma vida doente.

Cuidar da saúde é basicamente criar hábitos saudáveis que envolvem todo o nosso ser: alimentação adequada, suficiente descanso e uma controlada atividade física. Estes três hábitos estão intimamente ligados e interdependentes. No que se refere ao condicionamento físico, são importante as atividades aeróbias como a caminhada, a natação, a hidroginástica como também os exercícios localizados da musculação.

Porém, a atividade física não pode ser prescrita pela nossa própria vontade, nem pelo vizinho, nem mesmo pelo médico ou fisioterapeuta. A atividade de condicionamento físico só deve ser prescrita por um profissional qualificado, ou seja, o professor de Educação Física. Quem cuida do corpo, está cuidando do ser e não terá dificuldade alguma de sentir-se bem e desenvolver uma profunda espiritualidade. Certa vez escreveu Fernando Pessoa: “O que em mim sente está pensando”. Parafraseando o poeta eu diria que o que em mim sente está, com certeza, pensando e se movimentando.

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