09 de julho de 2026
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Isso nunca vai acontecer comigo...


| Tempo de leitura: 3 min

Certa vez escrevi: “sou cidadão do mundo, filho da minha mãe e o dia todo de todos os dias lembro-me dela como o berço da minha cidadania”. Continuo a entender a maternidade como um milagre, que gera vida e traz alegrias aos seres humanos.

Ela, no entanto, torna-se um problema quando vem cedo demais. Atualmente, em média, a primeira relação sexual das adolescentes acontece em torno dos 15 anos e nos primeiros seis meses de namoro, ou seja, em um período de transformações e turbulências emocionais. E o que mais preocupa é que elas têm engravidado como nunca.

Os jornais divulgam dados que são no mínimo alarmantes. Dos partos realizados pela rede pública de saúde, em 2001, 25% foram de adolescentes. E se não bastasse, cerca de 40% destas jovens tornam a engravidar novamente em um curto período de tempo (em 1991 a reincidência era de 20%).

Segundo especialistas, o problema não está na falta de informação, pois cerca de 90% dos jovens conhecem os métodos anticoncepcionais, mas no sentimento de invulnerabilidade que eles possuem, explicitado na frase “isso nunca vai acontecer comigo...”.

A constatação de que “o conhecimento dos métodos não se traduz em prevenção” é comprovada por uma pesquisa realizada pela Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher), da Unicamp, onde se descobriu que 99,4% das gestantes entre 11 e 19 anos conheciam a camisinha e sabiam como usá-la. Além disso, também existem garotas que não se protegem durante a relação sexual, pois se sentem intimidadas durante a primeira experiência, não tendo a segurança necessária para exigir que o parceiro use o preservativo.

Muitos especialistas apontam a falta de perspectiva dos jovens como causa deste crescente aumento de gravidez precoce. Para Albertina Duarte, que é coordenadora do Programa Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, não há dúvida alguma de que “a garota que tem planos para o futuro se cuida e não engravida”. Conclui-se que a gravidez é apenas um passo para que as jovens larguem os estudos e a vida social junto às amigas.

Isto com o tempo tende a deixar seqüelas psicológicas na adolescente, o que além de prejudicar sua própria vida também poderá influenciar negativamente no futuro da criança, que provavelmente não encontrará em casa uma estrutura propícia à sua criação.

Os jovens representam 1/3 da população brasileira. Necessitam mais do que nunca de ações do Estado e do carinho da família. No caso do Estado são necessárias ações que melhorem a perspectiva de vida, com a abertura de vagas no mercado de trabalho e ampliação do horizonte cultural, como forma de alimentar os sonhos e minimizar os efeitos das incertezas, naturais nesse período da vida. Responsabilidade importante também cabe à família, mas há que se considerar a desestruturação que boa parte delas passam em decorrência da crise econômica e social. Entretanto, seu papel na manutenção do apoio e carinho é indispensável tanto para prevenir a gravidez precoce quanto para torná-la menos traumática.

Para isso, seria necessário um sistema de orientação para as famílias, para que elas tivessem um suporte na hora de agir quando se deparassem com a surpresa da gravidez, pois, por se encontrarem muitas vezes despreparadas, acabam causando traumas ainda maiores nos filhos. Em momentos críticos como estes, os adolescentes precisam, acima de tudo, de carinho, cuidado e amparo por parte de todas as pessoas que os cercam. Além disso, é importante uma maior participação das escolas na orientação sexual, seja por meio de aulas específicas, campanhas preventivas ou ampliação do relacionamento dos professores com os alunos, pois estes são os locais onde nossos filhos passam grande parte dos seus dias, formando suas opiniões e firmando o caráter.

Maternidade não pode ser um fardo e fatalmente o será para uma jovem despreparada. Cabe pois à sociedade criar as condições para que a juventude tenha lazer, saúde e educação para se preparar para o futuro e levar a vida “na boa meu”. (O autor, Arnaldo Jardim, é deputado estadual)