08 de julho de 2026
Turismo

Cidade dos imigrantes

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 5 min

Jorge Luís Borges, o “bruxo”, nasceu no centro de Buenos Aires, na rua Tucumán 840, mas adorava andar pela cidade toda, incluindo a periferia, fonte eterna de inspiração para seus livros. Adolescente, mudou-se para Palermo, que no começo do século era um subúrbio pobre, onde viviam rufiões e compadritos e praticava-se o tango original, de prostíbulo.

Considerava Monserrat, Constitución, Barracas e San Telmo, na Zona Sul, como o coração da cidade e queria ser enterrado na Recoleta, bairro chique da cidade, onde seus parentes e Eva Peron estão sepultados.

Para todos, ensinava que a melhor forma de conhecer Buenos Aires era caminhando e olhando para o alto de seus imponentes prédios. Era isso que ele fazia até perder a visão.

Caminhando

“Santa Maria del Buen Ayre” foi fundada por um imigrante espanhol: Pedro de Mendoza, em 1536, e reconstruída, depois dos conflitos entre índios e colonizadores (italianos e espanhóis) por Don Juan de Garay.

Garay escolheu a Plaza de Mayo para ser o centro nervoso de Buenos Aires e lá plantou a árvore da justiça. A cidade cresceu em torno da praça que abriga a Pirâmide de Mayo, o patrimônio arquitetônico mais importante do país.

A Casa Rosada, o Monumento a Garay, a Catedral Metropolitana (que abriga os restos mortais do libertador General San Martin) e outros famosos pontos turísticos ficam nas imediações. Incluindo o Café Tortoni, o café mais tradicional da cidade, fundado em 1858, ponto de parada obrigatório para quem visita a pé a região. Era lá que Borges parava.

Como os táxis são baratos em Buenos Aires, depois de percorrer a Plaza de Mayo e arredores, ganhe tempo aproveitando para conhecer o Congresso, lugar das grandes manifestações populares. Ele também pode ser atingido por metrô ou Subte, como é conhecido. A arquitetura é do começo do século em estilo greco-romano.

Outra parada interessante é no Teatro Colón, uma das salas de espetáculo mais importantes do mundo, que tem pinturas no teto representando a história da arte e excelente acústica.

As avenidas Corrientes e Lavalle, onde ficam os cinemas, os restaurantes e casas de shows, a rua Florida, com comércio variado incluindo a requintada Galeria Pacífico, a avenida Nove de Julho, considerada até pouco a mais larga do mundo (são 144 metros de pista), e o bairro de Monserrat, são outros pontos interessantes na área central da cidade.

La Boca

A chegada dos imigrantes europeus em busca de melhores condições de vida na América do Sul, foi responsável pelo surgimento de bairros humildes, mas extremamente típicos em Buenos Aires.

Caso do La Boca, formado por sobradinhos coloridos, com fachada de lata. Ele difere completamente dos bairros chiques da cidade, caso da Recoleta e Palermo, onde os ricos gozam de total privacidade e uma casa custa mais de US$ 4 milhões.

La Boca, às margens do rio Riachuelo, foi o primeiro porto da cidade, onde assentaram predominantemente os imigrantes genovezes e o armador grego Aristóteles Onassis, iniciou sua fortuna.

Abriga o Estádio do Boca Júnior, o Museu Caminito, bares, antiquários e lojinhas.

As ruas de paralepípedo são desniveladas, mostrando uma influência nitidamente italiana, tendo o Caminito como sua principal atração, imortalizada pelo famoso tango.

Foi um bairro boêmio que gerou poetas, músicos e artistas plásticos, mas hoje deve ser visitado somente durante o dia, para se evitar surpresas desagradáveis.

Palermo e os parques

Palermo é o maior bairro de Buenos Aires, com mansões arquitetônicas que se tornaram museus, embaixadas e consulados.

Possui uma das maiores concentrações de área verde - a Palermo Chico - de que fazem parte os Jardins Botânico e Zoológico, o Parque 3 de Febrero e a Costanera Norte, um parque que fica junto ao Rio da Prata.

Palermo faz fronteira com Belgrano, Colegiales, Villa Crespo, Almagro e Recoleta

Não chore por mim

O bairro da Recoleta remete imediatamente à primeira-dama argentina que emocionava multidões.

Eva Duarte Peron nasceu pobre e foi sepultada como rica, no requintado Cemitério da Recoleta. O bairro é um dos lugares mais sofisticados da cidade, abrigando lugares turísticos, praças imensas, lojas sofisticadas, bares e restaurantes finos.

Outras dicas

• Além das casas tradicionais de tango, visite uma “milonga”, lugar onde se dança o tango a qualquer dia e em horas variadas

• Puerto Madero é imperdível, assim como o Cassino Buenos Aires, que funciona em um navio ancorado no porto. Em Puerto Madero funcionam excelentes restaurantes

• Compre artesanato e relíquias na feira de San Telmo, que funciona nos finais de semana. Durante os dias úteis vá lá para conhecer um dos bairros mais tradicionais da cidade comendo e bebendo ao ar livre

• Ficando mais dias em Buenos Aires, pegue o Tren de La Costa, um trem turístico que acompanha a margem do rio da Prata e passa por bairros elegantes da chamada Grande Buenos Aires

Namoro em ritmo de tango

São inúmeras as tanguerias de Buenos Aires. Todas de excelente nível, onde o turista pode ir sem susto. Os shows, diurnos ou noturnos, são perfeitos em termos de apresentação, coreografia e seleção musical.

Pode até ser um espetáculo para turista, mas é muito bom de se ver. Tanto assim que são muitos os estrangeiros que vão à Argentina apenas para ver, sentir e se emocionar com o tango.

Melancólico para alguns, apaixonante para outros. As reconciliações e o começo de muitos namoros acontece à meia luz e ao som da música de Gardel.

Foi ele o responsável por levar o tango, que era proibido em Buenos Aires até 1806, dos arrabaldes suspeitos para dentro do Teatro Colón. E dali para Barcelona, Nova York, Paris, ou seja, os salões do mundo.

O tango é a alma de Buenos Aires. Esse autêntico representante do sentimento portenho, é uma melodia mágica que se respira a todo instante. Seja nas casas de tango, como em praça pública, incluindo San Telmo, Barracas ou em plena Recoleta.

Seus admiradores dizem que toda a história urbana da cidade dos bons ares está em suas letras, tendo como companhia inseparável a dança, com passos sensuais e motivos.