07 de julho de 2026
Ser

Separação: como saber se é a hora

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 7 min

Tanto o homem quanto a mulher pode apresentar os sintomas do momento de uma separação. Na verdade, quando o rumo do relacionamento não vai bem, afeta os dois. Mas quem começou? Essa pergunta não tem resposta pois o ditado que diz: “Quando um não quer, dois não brigam”, é bem verdade. Ou seja, se um segurar a onda nos momentos de dificuldade, o espaço para o amor acaba surgindo novamente.

A psicóloga Ana Maria Tricci de Piotta usa a definição espaço porque talvez nem seja o amor que tenha acabado, mas sim o espaço para ele. No cotidiano, de acordo com ela, o espaço para o namoro, sedução, vai se estreitando tanto que o amor se vê sufocado e não sabe mais para onde ir.

O menor dos detalhes assume uma enorme proporção. “O som que ele faz com o chaveiro. A maneira como ela fala com os filhos, enfim, tudo irrita um ao outro”, explica. O espelho vai se rachando a cada pequena intriga, até mesmo a maneira como o outro fala pode ser irritante. A cada rachadura, o espelho diminui o espaço para refletir uma imagem inteira do par. Assim, forma-se uma bola de neve que vai crescendo até que a convivência se tornar insuportável.

Juntamente com esse processo, a vida a dois, o sexo, vão diminuindo e ficam cada vez mais ausentes na vida do casal. Muitas vezes, explica Ana Maria, os sintomas de que é chegada a hora são confundidos com crise conjugal, financeira ou profissional.

“Tudo isso faz com que o casal perca o referencial de uma vida em comum, cada um vai fazendo suas coisas sem depender do outro, vai se virando e se habituando a fazer tudo sem o outro. Os dois vão se distanciando cada vez mais e pensam no sofrimento como unilateral. Isso não é verdade. Os dois, da maneira como lhes convém, sofrem”, diz Ana Maria.

Ela explica que a mulher extravasa mais, já o homem se fecha. “Isso vem um pouco da cultura que diz que homem não chora. Acredito que eles sofram mais, porque o silêncio dói muito”, conta.

A psicóloga conclui que, mesmo parecendo que foi de repente, a hora da separação chega aos poucos, é construída ao longo do tempo, em um passo a passo de insatisfações, mágoas e ressentimentos. O processo é longo e chega no limite quando já não há convivência.

Pode-se perceber esse limite, de acordo com Ana Maria, quando há mais evitação do que desejo de estar junto, quando há mais desentendimento que cumplicidade, quando um faz as coisas do dia-a-dia sem ao menos consultar o outro, quando o casal só se une para agradar os filhos, só se fala para mostrar aos filhos que está tudo bem.

Nesse momento, não há mais porque continuar a vida em comum. Uma separação é difícil, gera conflitos, desentendimentos, mas, por outro lado, é a solução para os problemas. “Muitos casais que não conseguiam mais falar entre si se separam e tornam-se amigos. Um dia essas pessoas se amaram, se quiseram bem, portanto, podem viver em harmonia. O que ocorre é que juntos, feito marido e mulher, já esgotou, não vai mais adiante, mas isso não impede que reine uma amizade”, explica Ana Maria.

Esse foi o caso de Maria Aparecida Alcântara. Ela não queria se separar e depois achou que foi a melhor solução. “Eu não sentia mais amor por ele, mas estava acostumada a saber que tinha uma retaguarda. De repente, percebi que não havia mais jeito. Ele estava decidido. Eu não queria, relutei, mas hoje somos amigos e acho que foi o melhor que poderíamos ter feito. Sou independente e muito mais feliz”.

Maria tem uma filha de 14 anos que vive com ela. O pai visita a filha quando quer e tem liberdade de passar quanto tempo deseja com ela. "O relacionamento dos dois é ótimo e eu até gosto quando ela vai passar o fim de semana com o pai, assim eu fico tranqüila, posso sair um pouco e me divertir com minhas amigas", conta.

A difícil decisão

A psicóloga diz que as mulheres têm mais resistência em aceitar que o relacionamento não tem mais razão de existir. “Elas, mesmo já não amando seus maridos, se sentem inseguras em pensar numa vida individual, por isso preferem continuar junto, mesmo em crise crônica”, explica.

O que essas mulheres não sabem, de acordo com Ana Maria, é que a vida, depois de uma separação, pode ser bem melhor. “Depois que cada um tem seu canto, a convivência entre os dois melhora. Isso porque eles já não são obrigados a suportar uma situação irreal. É aí que entra a maturidade”, diz.

Para ela, até os filhos se sentem melhor. Ela explica que mesmo os filhos menores sentem que os pais não estão bem, por mais que disfarcem. Os pais, conta, pensam que estão fazendo o melhor para seus filhos seguindo juntos e fingindo que está tudo bem. “Isso é uma farsa, uma mentira e os filhos percebem. Talvez, na idade deles, não entendam bem o porquê os pais agem assim, mas no futuro isso pode até ser prejudicial”, afirma.

O melhor que se tem a fazer quando se detecta o fim de um relacionamento conjugal, de acordo com a psicóloga, é tentar conversar, chegar a um acordo e fazer a separação da forma ideal, em comum acordo. “Não tem por que insistir em algo que se acabou. Há que ter maturidade e entender que não há maneira de voltar a ser um casal unido e feliz. Quando isso é certo, nada vai mudar. Filhos não fazem o amor do pai e da mãe renascer e nunca devem ser usados como o motivo da união. A verdadeira razão de um casal continuar vivendo junto deve ser o amor, apenas o amor”, diz.

Filhos

Os filhos, de acordo com a psicóloga Ana Maria, devem ser poupados das conversas burocráticas que fazem parte de uma separação. Eles devem ser informados pelo casal sobre a decisão e deve-se deixar muito claro que o rompimento é entre o marido e a mulher. O filho continua sendo filho dos dois e, se possível, com total liberdade de ir e vir, sem que os pais interfiram.

“Ocorre muito isso da mãe ficar com raiva do pai, que tomou a decisão de ter a conversa sobre separação, e ficar deixando a criança em situação de insegurança. O filho quer estar com o pai, mas pensa que isso vai magoar a mãe, então poupa deixando de fazer aquilo que realmente quer”, diz. Isso é “péssimo”, de acordo com Ana Maria. A criança, conta ela, fica se submetendo ao problema dos adultos que deveriam estar preocupados naquilo que é melhor para seus filhos, independente do que sentem por dentro.

A criança deve ter liberdade. Os pais devem deixar que elas exponham seus sentimentos, sem nenhuma interferência. “Um péssimo marido pode ser um excelente pai e o fato de ele não ser um bom esposo não deve, de maneira alguma, interferir na imagem que a criança tem do homem como seu pai”, explica.

As crianças têm idéias próprias a respeito dos adultos que convivem. Elas devem ser estimuladas nessas idéias e não manipuladas em seus pensamentos. A criança deve ser respeitada para poder aprender a respeitar também.

É essencial que os filhos sejam respeitados e informados do que está acontecendo com os pais, mas as opiniões deles devem ser importantes também. “Normalmente, a guarda dos filhos é da mãe, mas nada impede que o pai, sendo um bom pai, possa vir a ter a guarda dos filhos. Isso existe. Na minha opinião, essa decisão deve ser dos pais em acordo com os filhos, quando esses já têm idade suficiente para decidirem o melhor para eles. Mas, independente de com quem as crianças ficam, é essencial que tanto o pai, quanto a mãe, incentive a convivência dos filhos com seu ex ou sua ex. Filhos são filhos e sempre serão e precisam dos dois, quando quiserem e como quiserem”, finaliza a psicóloga.