07 de julho de 2026
Saúde

Programa muda perfil do profissional

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

A eficácia do Programa Saúde da Família (PSF) depende, principalmente, de uma mudança no perfil dos profissionais de saúde. Se nos últimos anos a medicina vem se especializando cada vez mais, é preciso trilhar o caminho contrário e retomar o conceito de médico generalista.

A equipe do PSF tem que estar preparada para identificar todo o tipo de problema de saúde e para atender homens e mulheres em qualquer faixa etária - do recém-nascido ao idoso.

“Em vez de dividir o atendimento em pediatria, clínica médica e ginecologia/obstetrícia, como acontece nos núcleos de saúde, a equipe toda será generalista. Todos os integrantes farão um curso de capacitação para estarem aptos a atender e lidar com as três áreas”, destaca a secretária municipal de Saúde, Sônia Fiocchi.

Ela esclarece que o paciente só será encaminhado para um especialista se houver necessidade de tratamento específico. â€œÉ o caso de uma gestação, por exemplo. A equipe vai acompanhar a gestante mês a mês, orientando todo o pré-natal. Só se apresentar complicações em algum momento é que a paciente será levada ao ginecologista/obstetra”, salienta.

O mesmo poderá acontecer caso a equipe de saúde da família suspeite de alguma doença. Nestes casos, o médico especialista pode avaliar e prescrever o tratamento e deixar o acompanhamento do paciente por conta da equipe.

Atribuições específicas

A equipe de saúde da família é responsável pelo acompanhamento de todas as famílias residentes num espaço determinado. O grupo é composto por um médico, um enfermeiro padrão, dois auxiliares de enfermagem e seis agentes comunitários. Cada componente fica responsável por uma parte do trabalho.

De acordo com o Ministério da Saúde, os agentes atuam como intermediários entre a população e o serviço de saúde. Eles são moradores do bairro e fazem visitas mensais a todas as famílias cadastradas, conversando com as pessoas e observando a situação global do domicílio para tentar identificar se há problemas, quais e onde.

Nestas visitas, os agentes devem aproveitar para incentivar a família a adotar hábitos saudáveis e ações preventivas. A intenção é que eles ganhem a confiança de todos e atuem como amigos e conselheiros.

Os auxiliares de enfermagem acompanham os agentes sempre que a família precisar de orientações sanitárias e procedimentos de enfermagem. Eles falam sobre cuidados com a higiene residencial e pessoal, acondicionamento adequado do lixo, prevenção de acidentes e vários outros temas que possam ser úteis na promoção de qualidade de vida.

Eles também podem ser acionados para fazer curativos e para orientar a família sobre o tratamento prescrito pelo médico, como os horários certos para cada remédio, por exemplo.

Já os enfermeiros supervisionam o trabalho dos agentes e auxiliares, além de realizar consultas na unidade de saúde e assistir doentes em casa, sempre que necessário.

Médico

Todas as atividades promovidas pela equipe de saúde da família serão acompanhadas e orientadas por um médico. Através dos relatórios, ele mantém-se informado sobre as condições de saúde de cada família, de cada morador.

A diferença dele para os profissionais que atendem em núcleos tradicionais de saúde é que, além das consultas feitas na unidade, o “médico de família” trabalha mais perto da comunidade. Ele visita seus pacientes em casa sempre que é necessário e coordena reuniões periódicas para discutir questões de saúde do bairro.

“Suponhamos que um agente identifique uma seqüência de problemas de pele num quarteirão. A equipe pode marcar uma reunião na escola ou no quintal de um dos moradores. O médico tira as dúvidas, orienta e prescreve tratamento para quem precisa”, exemplifica Fiocchi.

Questionada, ela explica que são muitos moradores e que o médico não consegue visitar todas as casas uma vez por mês. “Mas ele estará presente em qualquer lugar da área atendida sempre que a comunidade chamar e sempre que a equipe identificar necessidade, seja na creche, na praça ou no domicílio de um paciente. Ele não é um médico de escrivaninha”, completa.

Responsabilidades comuns

Além das atribuições de cada profissional, a equipe de saúde da família tem responsabilidades comuns. De acordo com o Ministério da Saúde, todos têm que conhecer a realidade integral das famílias abrangidas. Isso inclui as características sociais, econômicas, culturais, demográficas e epidemiológicas de cada domicílio.

Os objetivos maiores da equipe são identificar problemas de saúde e situações de risco daquela população. A partir deste conhecimento, os profissionais devem, em parceria com a comunidade, elaborar um plano local para enfrentar e reverter os quadros críticos.

O Ministério da Saúde defende que a qualidade desse trabalho depende diretamente do vínculo de confiança, afeto e respeito entre usuários e profissionais. O bom relacionamento é que vai permitir a vigilância constante de cada morador e, conseqüentemente, a manutenção da saúde integral das famílias.

PSF atende 30% da população do Brasil

O Ministério da Saúde (MS) comemorou, no último dia 11, a marca de 50 milhões de pessoas atendidas pelo Programa Saúde da Família (PSF). Isso corresponde a quase 30% de toda a população brasileira e equivale a mais que toda a população da Argentina, Paraguai e Uruguai juntas.

De acordo com a assessoria de imprensa do MS, existem atualmente 15.201 equipes do PSF atuando em cerca de 4 mil cidades brasileiras. São mais de 200 mil profissionais que cobrem 70% dos municípios. A meta é chegar, até o fim deste ano, a 20 mil equipes e 69 milhões de brasileiros.

O Ministério da Saúde defende que o PSF contribui para a redução da mortalidade infantil e das internações hospitalares, além de melhorar a qualidade da assistência a gestantes.

Nos municípios em que o programa está implantado, as equipes chegam a solucionar 85% dos problemas de saúde da população. Isso porque, nas famílias assistidas, há mais pessoas vacinadas e um melhor controle de doenças existentes.

Graças às equipes de acompanhamento domiciliar, patologias como a tuberculose e hanseníase são identificadas e tratadas precocemente. E alterações como hipertensão e diabetes ganham orientação e supervisão regular.

O MS salienta que todos esses pacientes recebem medicamentos gratuitos. As drogas compõem uma “cesta básica” de 32 remédios considerados essenciais pelo governo federal. Só no ano passado, foram distribuídos 28,5 mil “kits” de medicamentos para mais de 3 mil cidades (37 milhões de pessoas atendidas).

Investimentos

De acordo com o Ministério da Saúde, o PSF é mantido com recursos federais, estaduais e municipais. A transferência de verba federal varia de R$ 28 mil a R$ 54 mil por cada equipe atuante, conforme o percentual da população atendida.

Os municípios que desenvolvem, simultaneamente, ações de saúde bucal, recebem mais um “incentivo” financeiro, que vai de R$ 13 mil a R$ 16 mil por ano para cada equipe implantada.

“Além desses recursos, são repassados mais R$ 10 mil sempre que uma nova equipe do PSF é implantada (...) e outros R$ 5 mil por cada nova equipe odontológica, para aquisição de equipamentos”, destaca a assessoria de imprensa do MS.

Segundo os assessores, o governo federal tem aumentado consecutivamente os recursos para a atenção básica à saúde. Em 1996, foi aplicado R$ 1,511 bilhão, subindo para R$ 4,208 bilhão em 2001. Isso representa um crescimento de 178%.

Para este ano, a previsão do MS é investir R$ 5,163 bilhões, incluindo verba referente ao Programa Bolsa-Alimentação e à distribuição de medicamentos para programas de diabetes e hipertensão.