Se nem para assistir aos jogos do Brasil na Copa de Mundo de Futebol em plena madrugada todo brasileiro acorda, imagine as demais partidas. Quem encararia levantar às 3h para acompanhar a disputa entre Tunísia e Japão ou Croácia e México? Os japoneses do bairro da Liberdade, em São Paulo, e alguns apaixonados por futebol e olha que tem muito fanático que não resistiu ao fuso horário. Em contrapartida, os “zumbis†da Copa estão sempre a postos em frente à TV.
Oscar Fleury Neto é um deles. Ele acredita que seu fuso horário um pouco diferente colabora para que consiga assitir a todos os jogos. Oscar é preparador físico da equipe de voleibol do Bauru Atlético Clube (BAC), e técnico de nataçaõ na Luso e tem uma atleta, a nadadora master Sophie Monginet, que o faz estar à beira da piscina às 5h quase todos os dias da semana. Para isso precisa despertar às 4h30.
Mesmo antes de Sophie, sua rotina em época de Copa do Mundo, Olimpíada e Mundiais de Vôlei e corridas de Fórmula 1 é alterada pelo relógio do esporte. Mas para não ser vencido pelo relógio biológico, Fleury tem uma técnica. Dois ou três meses antes do evento vai disciplinando o organismo. “Vou tentando levantar mais cedo, nem que depois eu volte a dormir. Antes da Copa começar fiquei 15 dias acordando às 3h30 para conseguir assitir aos jogosâ€, conta ele, afirmando que já nas Olimpíadas de Seul, em 1988, usou o recurso e deu certo. “Fiquei mais de dois meses acordando às 4h.â€
Fiel a todas as jogadas, Oscar confessa que só cochilou em frente à TV no jogo entre as equipes da África do Sul e Eslovênia. “Não deu para aguentar, dormi mesmo com a televisão ligadaâ€, confidencia, um tanto decepcionado.
Para driblar a drástica mudança de hábito e fugir da “lombeira†após o almoço, o café e a piscina são companheiros em tempo de campeonato para virar o dia direto. “Na hora do jogo, não bebo nem como nada, mas durante o dia devo tomar no mínimo uns dois copos grandes de café.†Mas quando a maratona de jogos termina, Oscar diz que deixa o café para escanteio.
Sua dieta alimentar também se altera. À noite faz refeições mais leves para ter um sono “menor e melhor, senão, você fica o dia todo meio-mortoâ€, observa.
Como desperta? Programa a TV para ligar sozinha às 3h15 e acaba acordando com o barulho.
Neste ritual, Oscar tem gravado todos os gols da Copa, mas acha que não foi uma Copa de grandes desempenhos. Até agora os melhores jogos, na sua opinião, foram Coréia x Itália e Senegal x Suécia. Brasil? “A gente vibra porque ganha e qualquer coisa que se ganha na vida é bom. Mas trazer o penta, só se a sorte e teimosia do Zagalo forem repetidas com o Felipãoâ€, considera.
O trio
Um trio de amigos que preferiu não ser identificado acredita que sejam eles os únicos a assistir todos os jogos e em grupo, no Jardim Cruzeiro do Sul. Aficcionados por futebol, não perdem uma única jogada e até escolhem para que time vão torcer. Só saem da sala nos intervalos para fazer pipoca ou pegar uma bebida. A cada jogo elegem as “figurinhasâ€, personagens que são criticados a cada jogada. Comentários e análises são feitas e nem sempre são consenso. Ao mesmo tempo, também ouvem todos os comentários dos entendidos do assunto que narram os jogos. Desde o final da primeira fase, o grupo chegou num determinante comum: “se o Brasil passar pela Inglaterra, ninguém segura o penta.â€
Mas do outro lado da cidade, no Núcleo José Regino, o auxiliar financeiro Júlio César Manzato, que sai para trabalhar antes das 6h, também tem uma atitude ímpar: assistiu a todos jogos das 3h30. “A minha sorte é que agora a própria Copa deu uma parada, meu organismo não estava mais aguentando.â€
Manzato às vezes acordava sozinho e noutras até perdia o sono. Apesar de gostar muito de futebol não se considera fanático, mas a Copa é especial e confessa que muitas vezes pestanejava num jogo meio lento.
Para ele o horário não era problema, mas sim acabar acordando a esposa, que muitas vezes ficava brava por ele não aproveitar o tempo de descanso como deveria.
Copa do leitinho
A Copa do outro lado do mundo ficou tão às avessas que até a cerveja abriu espaço para o leitinho com chocolate, até nos copos mais fiéis ao suco de cevada.
Os resultados surpreenderam e até quem é fanático assumido e reconhecido como tal, teve que optar por escolher os jogos que assistiria. França, Argentina, Senegal e Suécia foram algumas das equipes que fizeram parte do grupo selecionado pelo professor de língua portuguesa Sinuhe Daniel Preto, apaixonado por futebol e palmeirense doente.
“Eu acordei, por exemplo, no jogo França e Dinamarca. Eu punha 4h15 o relógio para ver o final do primeiro tempo. Se a França estivesse ganhando, eu dormiria. Mas eu vi que a Dinamarca estava com 1 a 0 e a França precisava de três gols. Fiquei assistindo. No jogo Suécia e Argentina, vi quem estava melhor. A Suécia fez um gol, eu continuei. Eu não me atraí por Japão e Turquia, coisas assimâ€, conta.
Ele atribui parte desse desinteresse pelos horários dos jogos às suas aulas. Em determinados dias da semana, ele entra no seu campo, a sala de aula, antes das 8h.
E para não derrubar a rotina da casa, em noite de jogo escolhido, dorme no quarto do filho, levanta, vai para a cozinha preparar um copo de leite, mas admite que é difícil assistir jogo assim e manter-se acordado. “O jogo do Brasil e da Costa Rica eu quase não assisti, foi tempo demais. E por já estar classificado, você não se empolga muitoâ€, avalia.
Sinuhe não sabe se é a idade, 40 anos, ou a experiência de ter sido comentarista esportivo, que o fizeram olhar a Copa com outros olhos. Ele aponta que não vê o Ronaldinho Gaúcho e Zidane como as pessoas vêem. “O pessoal enche muito a bola dos caras rápido e os jogadores são vendidos por fortunas. Hoje, o Beckham é um Midas, mas para mim ele é um Arce, do Palmeiras. Cruza muito bem, pode até desequilibrar, mas não é um craque. Hoje não existe mais jogo de Alemanha e Holanda, que sai faísca. Cadê a Argentina? O brasileiro tem que parar de encher a bola antes do tempo, porque o futebol nunca vai ter razãoâ€, comenta Sinuhe.