A atual fase do capitalismo brasileiro dá seus últimos retoques no perfil de algumas empresas que surgem. No meio de uma série de empresas mortais, nascem algumas que parecem ter superpoderes. Criam um perfil à parte da nova lei de mercado brasileiro: reajustam o preço do seu produto acima da inflação do período; dão-se ao luxo de atender apenas a quem interessa; não regionalizam suas lojas; possuem risco reduzido (monopólio de alguns serviços); insistem em ter menos funcionários do que deveriam; consideram-se acima do Código de Defesa do Consumidor; abandonam nossa memória e depois nos devolvem sucata; têm horário de almoço; compartilham seu prejuízo com todos através do aval do Governo Federal; por vezes combinando alguns dos itens acima, por vezes um dos itens isoladamente. Vamos a elas.
Inflação medida nos últimos sete anos: 94,3%. Superpoderosas: Tarifas públicas, 214%; Tarifa de telefone (valores de pulso e taxa de assinatura), 525,6%; Botijão de gás, 400,6%; Trem, 189,8%; Gasolina, 186,8%; Energia, 134,2%. Fonte: Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos). Local: Cidade de São Paulo.
Na Tribuna do Leitor do Jornal da Cidade (Bauru), dia 28 de março de 2002, leitor enfurecido com a notícia de Bauru possuir 40 mil linhas disponíveis, mas não haver uma linha disponível para ele, que é de Bauru. Segundo a prefeitura ele reside no perímetro urbano, embora bem afastado do centro. Para ele não há linha de telefone disponível, apesar de 40 mil linhas estarem disponíveis em Bauru, e ele ser de Bauru.
Muitos bancos nos obrigam a aguardar na fila por muito mais tempo do que determina a lei, mas a lei muda para que os bancos continuem dentro da lei. E nós continuemos na fila. Pagam dividendos ridículos se comparados ao que cobram para emprestar, e com isso registram seus maiores lucros da história. De quebra ainda distribuem talões de cheque sem critérios confiáveis, a ponto de causar uma enxurrada de cheques sem fundo que levam as empresas à penúria.
Para cruzar o pedágio da Jaú-Bauru no dia 28 de março de 2002, entre 10:30 e 10:40, tive que aguardar 10 automóveis na fila, pois só duas cabines atendiam. Perguntei: “_Pode isso sr. caixa?†Respondeu: “_São os nossos 40 minutos de almoço†(Nossas empresas mortais não sabem o que é isso há anos!). Uma estrada maravilhosa, bem cuidada, pessoas educadas nos atendendo, linha 0800 que funciona. A economia de uma cabine na hora de almoço comprometendo um serviço tão eficaz...
É sabido que Bauru sofre com as enchentes. A bela Avenida Nações Unidas e suas adjacências ganharam um supermercado gigante, que jura vender mais barato sempre, mas que responde ao cliente que não tem uma única árvore sequer em seu imenso estacionamento apenas porque segue o modelo da “sedeâ€.
Detalhe que a sede se localiza num país muito mais frio que o nosso. Que valha o recado para muita gente menor alojada por ali e que parece ter sede na Sibéria. Sabidamente, se a Nações Unidas e adjacências tivessem mais superfície de absorção de água (e isto inclui até buraco de árvore), compondo com mais uma série de medidas, os bauruenses veriam as tempestades tropicais com mais alegria e menos preocupação.
Dão as costas para nossas estações ferroviárias, nossas locomotivas, nossos passageiros, nosso país. E saem ilesas. Pouco se lixando para o que deixaram para trás, pois sabem que quando precisar é só voltar.
Até a mais famosa fábrica de refrigerantes faz mais de uma campanha sem ter brindes suficientes para entregar de imediato (a mais recente foi dos “geloucosâ€...). Que feio!
Energia elétrica. Ao economizar, diminui o lucro da superpoderosa. Isso não pode. Vamos repartir o prejuízo entre todos, além de cobrar o “seguro-apagãoâ€. Isto é ridículo. Imperdoável.
Só falta apoiarmos a indicação de Bush ao prêmio Nobel da paz. (José Paulo Toffano é presidente do Partido Verde no diretório de Jaú)