Em plena Copa, as lides eleitorais passam ao segundo plano. É claro que a Globo incita o país a torcer desesperadamente. A audiência tem que se manter com altos índices, para justificar o contrato de exclusividade e dar satisfação aos patrocinadores. Eleições têm menor destaque. Um candidato torcendo aqui, outro ali, aparece discretamente na TV. A grande sacada foi a corrida dos candidatos para os programas de rádios, onde as audiências matinais são avassaladoras, atingindo em cheio a periferia das grandes cidades. É um vale tudo de críticas contundentes aos adversários e de promessas e mais promessas vãs. Começa a despertar o interesse do povão...
Continuam as articulações políticas, sem grande exposição na mídia. Os marqueteiros previdentes aconselham a ninguém explorar o filão do futebol e da Copa. Vêem grandes riscos para quem cometer a ousadia. Sugerem apenas uma análise prudente: um clima de vitórias vai deixar o país mais contente e satisfeito, um clima de derrotas vai deixar o país mais irritado e insatisfeito. Quem se beneficiaria? No Brasil, política e futebol sempre foi uma associação de grande risco. Os infortúnios não compensam a popularidade ilusória. A lembrança da CPI do futebol ainda está fresca na opinião pública. Devassou as bandalheiras em profusão dos cartolas.
É tempo, sobretudo, para saudável avaliação da conjuntura. Uma avaliação crítica realista é um bom exercício para a inteligência. Permite fugir de visões sectárias, que enfraquecem as ações, e do fanatismo, que engolfa a razão, e conduz a erros fatais.
As convenções estão marcadas.Até o final do mês de junho tudo tem que estar armado para o lançamento das campanhas. As composições políticas estão sendo ultimadas.O grande drama dos candidatos é a escolha dos vices. O tempo fica curto e os vices não aparecem para reforçar ou complicar as candidaturas. Serra saiu na frente com Rita Camata. Marcou muitos pontos decisivos.
O vale tudo das pesquisas continua. As pesquisas são realizadas de forma tão precária que deixam uma imensa margem de manobra para manipulação dos resultados. À grande distância das eleições, os índices são manipulados todo o tempo. A margem de manipulação diminui, quanto mais as pesquisas se aproximam do pleito. Os índices finais têm que coincidir com os resultados das urnas. É um jogo que merece uma grande vaia da torcida...
As incertezas da economia marcam a conjuntura política. A oposição atribuiu sempre nossos desequilíbrios estruturais e nossas carências sociais ao governo de FHC. A conversa hoje é outra. É preciso dizer o que fazer, explicitar para a sociedade a pauta da gestão econômica. Aí a coisa pega. Passam a defender as linhas gerais da política liberal, com uma retórica de mudança. É um imenso esforço de legitimação da candidatura de Lula. Encontros se sucedem com empresários e banqueiros. A descrença permanece grande. Some-se a isto que o perfil de despreparo do candidato para o exercício da Presidência surge, nas pesquisas qualitativas, com peso maior do que eventuais propostas econômicas.
Uma análise ponderada e favorável ao governo FHC, lembraria a conquista essencial da estabilidade, a reforma do Estado, o novo gerenciamento macroeconômico e o equilíbrio das contas públicas. Críticos lembram do equívoco de manter uma política cambial de paridade e de juros altos, por longo tempo, quebrando empresas e sufocando o setor público. O equilíbrio fiscal, resultante de um aumento sem precedente de impostos, fortaleceu o Estado e sufocou empresas e aumentou o desemprego. É um debate macro-econômico essencial, mas que a galera assiste basbaque...
A conjuntura é marcada pela depreciação do real e pelo aumento do chamado risco Brasil, que se agrava diariamente. O investidor estrangeiro se retrai. A ansiedade financeira começa a assumir contornos de histeria.
A turbulência da conjuntura tanto pode atingir a candidatura Serra, como liquidar a candidatura Lula. (O autor, Ulysses Guariba, é professor da FFLCH da USP)