09 de julho de 2026
Política

Vereador quer cadastro de crianças em hotéis

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Foi protocolado na Câmara Municipal de Bauru um projeto de lei de autoria do vereador Paulo Eduardo Martins Neto (PFL) que, se aprovado, vai tornar obrigatório o cadastro de crianças até 12 anos nos hotéis, pensões e albergues da cidade.

A intenção do vereador é coibir o desaparecimento, seqüestro e abuso sexual de menores. “Como os hotéis não são fiscalizados, fica fácil esconder uma criança por aqui. O projeto tem caráter preventivo”, explica Martins Neto.

Caso o cuidado previsto no projeto seja efetivado no município, numa ficha de identificação, que será padronizada pela Prefeitura Municipal de Bauru, deverá constar o nome completo do menor e de seus pais ou responsáveis, a naturalidade, data de nascimento e endereço do mesmo. Se a criança possuir carteira de identidade, uma fotocópia do documento deverá ser anexada.

Posteriormente, os dados serão repassados à administração municipal, que os disponibilizará em sua página na rede mundial de computadores. “Com a medida, a prefeitura contará com um banco de dados que poderá ser consultado por qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta”, informa o vereador.

Embora a proposta não indique punições diante da rejeição do cadastro por parte dos proprietários de estabelecimentos desta natureza, eles estarão sujeitos até à cassação do registro comercial, pelo menos é o que informou Martins Neto.

Através do projeto, ele delega à prefeitura a fiscalização e controle da lei. “Como já existe uma legislação que regulamenta o funcionamento dos hotéis, prevendo até cassações em caso de desacordos, esta nova lei terá um caráter complementar, embora seja independente. O objetivo também é o de colaborar com a polícia”, garante.

O delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais, J.J. Cardia, não concorda com o projeto. Na opinião dele, a proposta não tem sentido prático. “Já existe uma legislação estadual específica para esta finalidade que não sai do papel. Quem vai fiscalizar o cumprimento da lei?”, indaga.

O delegado lembrou que há uns anos, quando a responsabilidade pela vigilância ainda era da Polícia Civil, os estabelecimentos de hospedagens eram obrigados a fazer o registro dos clientes e encaminhá-los à polícia diariamente, mas um decreto estadual passou essa atribuição à Secretaria Estadual de Esporte e Turismo. “A partir daí, não sei mais como foram realizadas as fiscalizações”, lamenta.

A reportagem do JC apurou que não existe mais controle de entrada e saída de crianças de hotéis, pensões e albergues no município. A Delegacia Regional de Esporte e Recreação se eximiu da responsabilidade atribuindo-a à Delegacia Regional de Turismo, órgão ligado à Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo.

De fato, conforme explica o delegado Regional de Turismo, Edvaldo José Santana, uma de suas responsabilidades legada pelo governo estadual é a de cobrar dos estabelecimentos o registro dos hóspedes, por intermédio de um livro. “Embora nossa secretaria tenha se desvinculado da Secretaria de Esportes, o controle ainda é de nossa competência, porém não temos poder de polícia para cobrar e fiscalizar”, coloca.

Uma outra dificuldade alegada por Santana é o fato de trabalhar sozinho em Bauru e região. “ Por essa razão, em caso de denúncias de qualquer natureza contra estabelecimentos, a recomendação é repassá-las para São Paulo”, explica.

A falta de fiscalização incomoda o delegado J.J. Cardia, que perdeu o controle da população flutuante da cidade. “Agora não temos nem como fiscalizar os quesitos de segurança dos hotéis, quanto mais a facilitação à prostituição e o seqüestro de crianças”, ressalta.

Setor aprova

O projeto do vereador Paulo Eduardo Martins Neto (PFL), que visa instituir em hotéis um cadastro que possa coibir o seqüestro ou abuso sexual de menores de 12 anos, foi bem recebido por representantes do setor hoteleiro ouvidos pelo JC.

A recepcionista do Hotel Avenida Regina Gonçalves é um exemplo. Por ter presenciado casos constrangedores envolvendo crianças no decorrer dos seus seis anos de atividade no ramo, acredita que a fiscalização deve voltar. “Uma vez, um casal com uma criança de sete anos solicitou um quarto e manteve relações sexuais na frente da garota. Achei a camisinha no chão. Um cadastro na recepção poderia inibi-los”, comenta.

Segundo ela, o hotel em que trabalha só pede a documentação do homem, caso um casal com filhos procure hospedagem. Da mesma maneira procede Mercedes Talarico, proprietária do hotel Ferreira Neto.

Na opinião dela, o antigo registro que a polícia mantinha afugentava as pessoas que procuram os estabelecimentos para práticas ilícitas. “Depois que o registro deixou de ser obrigatório, passamos a evitar moças e crianças no hotel”, explica.