08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Cota para negro


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Lendo a matéria veiculada no JC do dia 13/5/2002, intitulada “Cota para negro no ensino é polêmica”, li várias manifestações inteligentes e interessantes, mesmo as que no meu entender são equivocadas. Uma, porém, chamou-me a atenção, senão vejamos.

O posicionamento do advogado Wilson Brasil de Arruda inicialmente não trata o cidadão negro fora do contexto social e, em seguida, com inteligência, bom senso e agudeza de análise, identifica o problema como sendo de caráter econômico e não como discriminação racial.

O projeto de lei que reserva um percentual de vagas para negros foi analisado por Wilson Brasil da seguinte forma: “... Esse projeto de lei não vem de encontro aos anseios da sociedade...”

Parabéns, Brasil. Neste momento em que você luta para ser candidato a deputado federal, essa lição de maturidade política serve, inclusive, para os senadores que aprovaram, na semana passada, o referido projeto.

Mais abaixo, dispara com precisão o seguinte torpedo: “... Não é só o negro que tem dificuldades para chegar à universidade. Isso acontece com todos que formam a camada menos abastada da população...”

Para mim, com esse posicionamento o pré-candidato a deputado federal Wilson Brasil mostra que sua candidatura está acima de vaidade pessoal ou interesse particular. No meu entender, ele passa a ser referência na campanha que se avizinha.

Nosso solo pátrio já foi palco de muitos exemplos de lutas do povo negro e Wilson Brasil demonstra ser herdeiro das melhores dessas tradições. Ganga Zuma ou Ganga Zumba, rei do Quilombo dos Palmares, entre 1600 a 1678, para mencionar o maior exemplo que a história registra, nunca reivindicou privilégios. Ele, e seus comandados, após enfrentar a expedição de Fernão Carrilho em 1677, conquistou o direito de assinar, com o governador de Pernambuco um tratado de paz para seu povo. Somente a traição foi capaz de anular aquele ato, quando em 1678 foi assassinado por envenenamento em circunstâncias nunca explicadas.

É importante que a consciência negra lute para acabar com todas as medidas paliativas e demagógicas, unindo-se aos “discriminados pobres, brancos, amarelos ou índios” e lutem por empregos, salários, educação, saúde para todos nós brasileiros.

Não quero estender-me mas é importante recordar que o “Estado Afro-Brasileiro” dos Palmares surgiu em 1600 inicialmente com 30 ou 40 negros rebeldes, chegando a uma população estimada em 50 mil habitantes, ocupando um território de 260Km de extensão por 132Km de largura, que ocupava boa parte dos atuais Estados de Alagoas e Pernambuco.

Depois do assassinato de Ganga Zumba, Zumbi foi proclamado novo rei até a destruição de Palmares em 1694. É isso mesmo, um século aproximadamente, foi a duração daquele Estado dentro do Brasil, com suas aldeias, como as que deixaram na África, e, com seus chefes locais mantinham relacionamento comercial com os brancos e no que consta, saudavam suas compras “à vista”.

A consciência do negro deve ser a consciência de todos os brasileiros, independentes de origem racial, contra a injustiça social e econômica.

Sou solidário com o seu ponto de vista, Wilson Brasil, parabéns e sucesso.

Observação: no ano de 1969, no processo de luta contra a ditadura militar, revolucionários de várias origens raciais fundaram a “Vanguarda Armada Revolucionária Palmares” (VAR-Palmares) em homenagem à luta libertária do povo negro durante a escravidão. (Darcy Rodrigues - RG: 04.314.427.0-6 MEx)