11 de julho de 2026
Regional

Pistas clandestinas mobilizam polícias

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 4 min

As Polícias Federal e Civil vêm realizando trabalho para coibir tráfico de drogas e contrabando no grande número de pistas clandestinas construídas no meio dos cerca de 362 mil hectares de cana-de-açúcar existentes nas microrregiões de Bauru, Botucatu, Jaú, Ourinhos e Marília, além de outras propriedades da zona rural. A preocupação das autoridades tem levado os serviços de inteligência a buscar identificar os locais que estão sendo usados pela criminalidade.

Apesar de fazerem vários levantamentos ao longo do ano, o número de pistas e os principais pontos são um segredo que as polícias evitam revelar exatamente, para que as investigações não sejam atrapalhadas. “Bandido também lê jornal”, afirma um experiente policial ao evitar dar algumas informações sobre a forma de operar da polícia em relação ao combate ao tráfico e ao contrabando nas pistas clandestinas.

Antônio Vaz de Oliveira, delegado-chefe da Polícia Federal de Bauru, afirma que a PF tem um levantamento de um grande número de pistas clandestinas da região de Bauru, mas não há como se ter o número exato. Porém, há um trabalho de acompanhamento sobre a utilização delas.

Vaz lembra que essas pistas clandestinas são apenas clareiras abertas no meio dos canaviais, sem qualquer infra-estrutura. Ele destaca que a pista na zona rural de Areiópolis, na qual um avião monomotor, suspeito de ser utilizado para o tráfico ou contrabando, sofreu um acidente e foi abandonado, na última segunda-feira, já era conhecida da PF de Bauru, que já a tinha visitado. â€œÉ difícil quantificar exatamente. Você faz um levantamento em época de cana baixa é uma coisa. Na época de cana alta, às vezes, nem acha a pista. É um verdadeiro labirinto, que dificulta o trabalho”, ressalta.

Outro ponto de dificuldade na hora de flagrar os aviões nessas pistas é em relação ao fato das aeronaves fazerem sobrevôos de reconhecimento da área, para tentar identificar se não existem políciais esperando. O elemento surpresa por parte da polícia fica mais difícil.

A estimativa de Vaz é de que 90% das ações criminosas nessas pistas é em relação ao tráfico de drogas. No passado, a quantidade de contrabando já foi maior, mas a atividade está retraída, inclusive em razão do preço do dólar.

Gilberto da Silva Pacheco, delegado-chefe da PF de Marília, afirma que o núcleo de operações trabalha com análise de informações em relação ao tráfico, contrabando e descaminho. O serviço de inteligência da PF de Marília detectou a existência de uma grande quantidade de pistas clandestinas na zona rural das cidades da região.

Pacheco destaca que algumas fazendas têm pistas consideradas boas, apesar de não contarem com infra-estrutura. Ele lembra que algumas estradas vicinais também podem ser usadas para pouso e decolagem de pequenos aviões do crime organizado. “Falamos em pistas, mas pelo que vemos na prática, qualquer local é passível, principalmente próximos às grande rodovias”, afirma.

Pacheco destaca que os entroncamentos rodoviários de Marília e de Bauru são excelentes para o escoamento dos produtos. Além das rodovias estaduais e federais, existem as vicinais que facilitam uma possível fuga. Ele concorda com Vaz e diz que a maior parte das ações delituosas nas pistas clandestinas se refere ao tráfico de drogas, que é economicamente mais compensador como atividade criminosa do que o contrabando.

Investigações

O novo delegado titular da Seccional de Botucatu, Tadeu Campos de Castro, que assume hoje o cargo, destaca que tem uma preocupação especial em relação à utilização de pistas clandestinas para fins de tráfico de drogas e contrabando. Tanto que pretende fazer, pessoalmente, sobrevôos sobre a região de sua jurisdição para catalogar as pistas clandestinas e poder realizar um trabalho específico contra o uso criminoso dessas pistas.

Ele lembra que esse é um trabalho mais específico da Polícia Federal, mas pretende que seu levantamento possa servir para um trabalho integrado entre a Polícia Civil de Botucatu e a PF.

O titular da Seccional de Polícia Civil de Jaú, Benedito Antônio Valencise, ressalta que as pistas chamadas de clandestinas nos canaviais, na maioria dos casos, são aquelas construídas e utilizadas pelas próprias usinas para abastecimento (de combustível ou fertilizantes e defensivos agrícolas). De acordo com ele, eventualmente, essas pistas acabam sendo utilizadas pelos criminosos para tráfico de drogas e contrabando.

Valencise diz que não existem pistas construídas sem o conhecimento das usinas. Porém, não descarta a possibilidade dos carreadouros existentes no meio dos canaviais serem usados para pouso e decolagem de pequenos aviões. Para ele, porém, essas situações ocorrem eventualmente.

O titular da Seccional de Bauru da Polícia Civil, Antônio Ângelo Ciocca, destaca que há uma preocupação em relação às pistas clandestinas existentes na região. Porém, não há um trabalho específico sendo realizado, a não ser quando há denúncias ou suspeitas de utilização para fins ilícitos.

José Henrique Gomes dos Santos, da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), concorda com Valencise em relação à eventual utilização das pistas rurais, construídas pelas usinas, pelos traficantes de drogas e contrabandistas. Por outro lado, disse que existem investigações do serviço de inteligência da Dise de Bauru sobre o uso das pistas clandestinas pelo tráfico de drogas.