08 de julho de 2026
Auto Mercado

Desânimo brutal

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Em um passado não muito distante, ser motorista de caminhão significava abraçar uma profissão de prestígio e altamente valorizada. Significava. Atualmente, a realidade do setor está longe de gerar motivos para fazer os condutores dos “brutos” comemorarem a data nacional que homenageia amanhã, 30 de junho, a categoria.

Ser caminhoneiro no Brasil hoje é sinônimo de sofrimento. Fazem parte desse cenário desalentador uma combinação de fatores que alia o excesso de pedágios à uma frota envelhecida e carente de manutenção, além de fiscalização falha e motoristas mal pagos e despreparados. Some-se a isso o fato de ter de trafegar por pisos esburacados e a recorrer a peças recauchutadas e de desmanches para manter o veículo em condições de rodar.

Não faltam números para comprovar a triste realidade enfrentada pela categoria no País. Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) aponta que o caminhoneiro trabalha demais sem receber proporcionalmente. O estudo revela que um condutor autônomo trabalha, em média, 15 horas por dia e ganha R$ 3 mil, valor que não leva em conta as despesas com manutenção, pedágios e o sustento da família. Outra pesquisa, feita em 2000 também pela CNT, avaliou as condições das estradas. Nela, 80% foram consideradas péssimas e deficientes no quesito conservação geral.

No mesmo ano, o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (Denatran) divulgou as estatísticas de acidentes com caminhões. Enquanto os carros de passeio participaram em 108.011 acidentes, os “brutos”, mesmo representando apenas 7% da frota nacional, se envolveram em 50.342 ocorrências, quase a metade dos registrados com automóveis.

Revoltados com a situação de abandono, os caminhoneiros organizaram paralisações de protesto em 1999, 2000 e 2001. Em um ponto de encontro tradicional dos motoristas da cidade, a reportagem do AutoMercado&Cia entrevistou caminhoneiros, que se mostraram desanimados com a atual realidade da profissão.

O caminhoneiro gaúcho Celso Marcari, há 15 anos na estrada, é um retrato da desilusão que predomina na categoria. Ele ressalta que já está há 30 dias fora de casa - é natural de Torres da Cunha (RS) - e ainda não conseguiu uma carga sequer para carregar. Além disso, como se não bastasse ter de sustentar a esposa, a prestação do financiamento do caminhão, no valor de R$ 3 mil mensais, vence amanhã e ele não sabe o que fazer para quitar a dívida.

Marcari revela que, dependendo do movimento de carga, consegue receber cerca de R$ 7 mil em um mês, mas que, descontando os gastos com pedágios, manutenção, prestações e com a casa, não lhe sobra nem 40% desse valor. Para ele, os pedágios tornaram-se um “assalto” sem arma. “Além de existirem em quantidade excessiva, estão caros demais. Rodei 100 quilômetros e paguei mais de R$ 100,00, o que dá uma média de mais de R$ 1,00 a cada quilômetro. É um absurdo”, considera.

Ele também protesta em relação ao valor extremamente baixo pago pelos fretes e que há pouca carga para muitos caminhões. “Eles estão muito baratos. Por isso, o correto seria o governo estipular uma tabela de frete por quilômetro rodado, e não deixar imperar a livre negociação, como ocorre hoje. Atualmente, a carga a ser transportada diminuiu e tornou a oferta de caminhão maior que a procura”, enfatiza Marcari.

Diante da total falta de melhores perspectivas para a atividade, o gaúcho pensa em deixar de ser autônomo. “Acho que terei de voltar a trabalhar como empregado, pois não estou conseguindo nem pagar o caminhão”, considera Marcari, com ar e olhos tristes.

Apesar de tudo, Antonio Marchesan, com mais de 30 anos de experiência na estrada, 15 deles como caminhoneiro, mantém o otimismo. Para ele, que trabalha para uma transportadora, vale a pena ser caminhoneiro, mesmo diante dos problemas. “Gosto da profissão, apesar dos vários e caros pedágios, que acabam atrapalhando o patrão e, por isso, podiam ser mais baratos”, diz ele.

“Mal conseguimos comer”, diz autônomo

Para Laércio José da Silva, caminhoneiro há 18 anos, não há o que comemorar amanhã. “Há cerca de 20 anos o motorista comprava um caminhão e tinha condição de até comprar outro rapidamente. Hoje isso já não é mais possível, pois está difícil até manter apenas um”, frisa ele.

Silva revela que dos R$ 3.600,00 a R$ 3.800,00 que consegue ganhar mensalmente com a atividade, mais de 80% se perdem nos gastos com pedágios, ajudantes e manutenção. “Não me sobra R$ 400,00 por mês livre de despesas. Assim, ultimamente não estou ganhando nem para comer e há muitos nessa situação’, destaca o caminhoneiro.

Ele reclama, a exemplo de Marcari, que a principal dificuldade enfrentada pela categoria atualmente é o preço do frete, que não sobe há cerca de quatro anos. “Em compensação, o petróleo e os pedágios aumentam constantemente”, frisa Silva. E acrescenta: “Você não acha um frete bom que compense a viagem. Se não faço um por R$ 0,40 ou R$ 0,50 o quilômetro rodado, muitos topam por valores muito mais baixos para não ficar parados.”

Segundo Laércio, diminuir o valor dos pedágios e aumentar o dos fretes são as medidas imediatas e emergenciais que o governo deveria tomar para fazer os caminhoneiros saírem um pouco do sufoco. “Tem muita coisa que deveria ser mudada, mas quem irá fazer isso?”, questiona ele.

Ele reclama, ainda, do valor pago na instalação das faixas refletivas (leia box nessa página), dispositivo que passou a ser obrigatório esse ano. “A R$ 19,00 o metro, tive de gastar R$ 280,00 para colocá-las no meu caminhão. Está certo que elas aumentam a segurança, mas tem de ter um preço justo e mais acessível para o caminhoneiro”, pondera Silva.

Apesar de afirmar que nunca se utilizou do recurso, o caminhoneiro confirma que o uso de estimulantes, os populares “rebites”, é freqüente na categoria. Para cumprir horários apertados, muitos motoristas viajam sem parar e, a fim de burlar o sono, apelam para as “drogas”. “Muitos são obrigados a utilizá-los, principalmente aqueles que trabalham diariamente puxando carga”, conclui ele.

Faixas refletivas

A colocação das faixas refletivas nos caminhões já foi assunto de reportagem no AutoMercado&Cia. Elas tornaram-se dispositivos obrigatórios nos caminhões desde a entrada em vigor da deliberação número 30, lançada em 19 de dezembro de 2001, pelo Governo Federal.

Ela determina que veículos com Peso Bruto Total (PBT) acima de 4.536 quilos devem receber faixas em 33,3% da extensão das laterais e em 80% da traseira. Também têm de estar presentes em todas as extremidades da carroceria dos baús e sua instalação obedece a um calendário pré-determinado.

Todos os veículos com placas final 1 e 2 já devem estar equipados com as faixas e o prazo para aqueles com final 3 encerra-se amanhã, exatamente no Dia Nacional do Caminhoneiro. Como cada final de placa tem prazo de dois meses para a colocação, o processo deverá estar concluído somente em 31 de agosto de 2003. Quem desobedecer estará sujeito à multa por infração grave.