11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Taxistas levam mais denúncias à Emdurb

Da Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Menos de uma semana após a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) prorrogar a conclusão da sindicância instaurada para apurar supostas irregularidades no sistema de táxis da cidade, surgem novas denúncias sobre arrendamento ilegal de vagas.

Entre elas, acusações contra o presidente do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região, Waldir Faria de Freitas, e contra Antônio Veronese, conhecido por “Pederneiras”, suposto controlador de, pelo menos, nove vagas de táxi no ponto do Terminal Rodoviário.

Além disso, o JC obteve informações sobre um caso de rearrendamento de vaga, em que até vales-compra da prefeitura foram utilizados no pagamento de “luvas” (pagamento inicial além do aluguel) pelo usufruto da vaga.

Ainda na tarde de ontem, as denúncias foram levadas ao conhecimento da comissão sindicante da Emdurb. Segundo a empresa, os depoimentos formais serão colhidos na próxima segunda-feira.

Há cerca de um mês, a empresa, que fiscaliza o sistema de táxis em Bauru, está apurando denúncias sobre um suposto modelo de contrato de arrendamento, que seria fornecido por funcionários da própria Emdurb.

Na última semana, a empresa resolveu adiar o término da sindicância por 30 dias a contar do prazo anterior, dia 26 de junho. O objetivo da comissão é colher depoimentos “mais relevantes” de taxistas.

Sem carro

O taxista João Batista Pereira Camargo, 46 anos, conta que trabalhou como taxista por 22 anos, sempre como arrendatário de vaga. Há cerca de três meses, ele teria sido expulso da vaga em que trabalhava por Antônio Veronese, que supostamente adquiriu o espaço da antiga titular.

Segundo o relato do taxista, essa mulher seria neta de Deonilda Crespi Zambonato, de quem teria recebido a vaga por transferência.

O nome de Deonilda figura como titular de uma vaga na Praça João Paulo II (Terminal Rodoviário) num contrato de gaveta elaborado em 30 de novembro de 1999.

Pelo documento, o taxista Camargo arrenda a vaga de Deonilda por R$ 300,00 e assume a compra de um veículo Gol 1994 em 25 prestações mensais de R$ 390,00. Para garantir o negócio, o veículo permaneceria em nome da vendedora até que o débito fosse quitado.

De acordo com o taxista, ele conseguiu pagar apenas 12 parcelas e o veículo teria sido trocado por um mais barato. Há cerca de três meses, a neta de Deolinda teria supostamente vendido a vaga e Camargo ficou sem o carro, sem o valor pago e sem emprego. “Estou sem trabalhar há três meses”, conta o taxista.

O suposto comprador da vaga, Veronese, teria transferido a autorização para o genro e colocado outro condutor no local.

O taxista Camargo garante que o contrato de arrendamento, prática ilegal, teria sido elaborado na sede do sindicato dos taxistas. O presidente da entidade teria presenciado a confecção do documento e uma suposta assinatura sua figura no espaço destinado às testemunhas. “Isso aqui (o contrato) foi feito no sindicato”, sustenta Camargo, mostrando o documento.

Segundo taxistas ouvidos pelo JC, não raro esses contratos são feitos dentro do sindicato, com o consentimento de Freitas. Em outro contrato, em que a esposa de Freitas, Sílvia Sizue Ohki, arrenda uma vaga na rua Gérson França por R$ 300,00, o valor deveria ser pago pelo arrendatário na sede do sindicato.

A reportagem tentou localizar Freitas na sede do sindicato e em seu celular, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Vale-compra

O ex-condutor Vanderlei Tomiati, 37 anos, que atualmente é servidor público, deve fazer denúncias ainda inéditas para a Emdurb na segunda-feira.

Até 1997, Tomiati seria arrendatário de uma vaga na rua Ezequiel Ramos, que na verdade, era rearrendada. O ex-taxista conta que pagava um salário mínimo (na época, R$ 120,00) a um homem que, por sua vez, arrendaria a vaga de uma outra pessoa por meio salário mínimo.

Além disso, Tomiati teria de pagar “luvas” de cerca de R$ 6 mil para poder trabalhar no espaço. “Ele cobrava luva de um ponto que nem dele era”, ressalta o ex-taxista.

Tomiati conta que, na época, começou a trabalhar como servidor municipal, mas manteve o emprego de taxista para poder saldar suas dívidas. Naquela ocasião, o ex-taxista afirma que chegou a pagar uma parcela da luva com vale-compra da prefeitura, no valor de R$ 99,00.

“Eu não conseguia pagar, eu não fazia (corridas) para pagar o arrendamento e a luva. Aí eu tive de pegar meu vale-compra e dar para ele”, relembra Tomiati.

Vagas sustentam família

No ponto de táxi da Praça João Paulo II (Terminal Rodoviário), pelo menos nove vagas pertencem a familiares de Antônio Veronese, conhecido por “Pederneiras”. Segundo alguns taxistas, Veronese negociaria as vagas.

Pela atual legislação, cada pessoa física tem autorização para explorar até duas vagas, sem a obrigação de trabalhar como condutor no local. Comercializar vagas é proibido e transferências podem ser feitas, desde que não haja pagamento envolvido.

No Terminal Rodoviário, duas vagas estão no nome de Veronese. Sua mulher, um filho e um genro têm duas vagas cada. Sua filha tem uma.

Segundo Veronese, as vagas que pertencem a ele e a sua mulher foram obtidas junto à prefeitura há mais de 30 anos. “Eu as tenho (as vagas) desde que vim de Pederneiras, em 1968”, afirma.

Veronese conta que trabalhou como taxista desde que chegou a Bauru. Sua mulher e sua filha, no entanto, nunca foram condutoras. O ex-taxista alega que sua família possui essas vagas porque a lei permite e que elas ajudam no orçamento de sua família e de seus filhos. “Essas vagas sustentam a família”, ressalta.

Quanto às acusações de que Veronese colocaria a vaga no nome dos parentes para comercializá-las, ele nega. “Falam que são minhas, mas eu não tenho. Só tenho duas vagas, uma minha, uma da minha esposa”, sustenta. As outras, conta Veronese, são os filhos e o genro que “desfrutam”.

No caso da vaga que pertencia a Deonilda Crespi Zambonato, Veronese afirma que o espaço foi apenas transferido sem nenhum pagamento. O carro que ficava na vaga, um Gol, foi comprado por seu genro, José Fernandes de Oliveira Neto, da neta de Deonilda. “Meu genro foi quem comprou o carro e colocou no nome da mulher dele, minha filha”, relata.

Veronese garante que nunca negociou vagas. Ele teria apenas motoristas contratados legalmente que pagam, segundo conta, R$ 0,63 por quilômetro rodado. “Eles tiram uns R$ 300,00 por mês e sobram uns R$ 300,00 para nós; é o que sobra do táxi. Uma miserinha, porque está muito ruim de serviço”, observa.