08 de julho de 2026
Regional

Deficientes buscam apoio em Igaraçu

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Igaraçu do Tietê - Deficientes visuais encontraram em uma escola de Igaraçu do Tietê um importante estímulo ao desenvolvimento intelectual e pessoal. Entre os ex-alunos estão até mesmo vereadores de cidades como Jaú e Botucatu. São pessoas que superaram o preconceito e hoje servem de exemplo para os mais novos.

O petista Antônio Carlos Trigo é um dos que se deram bem na política. Sua vida é parte inerente à própria história da Escola de Recurso ao Deficiente.

A escola funciona em um espaço cedido pela escola estadual José Conti.

Trigo foi um dos primeiros alunos a ser matriculado na escola. No dia em que entrou na sala, Trigo completava 18 anos. As palavras que disse ao chegar à escola são lembradas, ainda hoje, com emoção pela professora Aparecida Bis.

“Era agosto de 1986. Ele botou os pés na sala e disse: ‘Hoje, eu faço 18 anos. Esse é o meu melhor presente. Aquele com o qual eu sonhei a vida toda: estudar”, lembra Cida Bis, como é mais conhecida.

De acordo com a professora, Trigo não demorou mais do que dois meses para estar alfabetizado, em braile. Fez o supletivo, o ensino médio e ingressou na faculdade. Sempre com ajuda da Escola de Recurso.

O braile é um sistema de escrita em relevo, inventado pelo francês Louis Braille (1809-1852), cego desde os três anos de idade.

Hoje, Trigo cursa faculdade de Serviço Social. Em 2000, foi eleito vereador de Botucatu, com 659 votos, e engrossou a bancada do PT na Câmara Municipal, com cinco representantes.

Na opinião da professora Cida Bis, grande parte do sucesso alcançado por Trigo deve-se à facilidade com que ele se comunica com as pessoas - uma herança da Escola de Recurso.

Professor de música

Outro ex-aluno de Cida Bis que decidiu investir na carreira política foi Estevam Rogério da Silva. Na última eleição municipal, em 2000, ele foi o quinto vereador mais votado, em Jaú. Concorrendo pelo PMDB, ele recebeu 1.668 votos.

Além de exercer o cargo público, Estevam também é professor de música.

Ele começou a estudar em Igaraçu com sete anos. Naquela época, lembra a professora, Estevam achava que nunca iria estudar. Segundo ele, saber que todos os colegas iam para a escola era motivo de inveja.

De acordo com a professora, desde cedo, Estevam mostrou-se um aluno aplicado e inteligente. “Ele entrou logo na 3.ª série. Ficou apenas dois meses e já foi para a 4.ª série”, relembra Cida Bis.

Entre os alunos que atualmente freqüentam a Escola de Recurso ao Deficiente, um dos destaques é Joice de Paulo Lopes, 13 anos. Ela cursa atualmente a 6.ª série do ensino fundamental, em Barra Bonita, e sempre que precisa vai até Igaraçu, em busca de ajuda.

Lá ela faz os exercícios, estuda e quando sobra tempo lê romances, aventuras e até mesmo poesia. A exemplo de outros adolescentes, Joice elegeu Harry Potter seu personagem favorito.

Mas ela não se limita apenas à leitura das aventuras do pequeno mago. Em sua lista, estão inseridos livros como Romeu e Julieta, de Shakespeare, e Poesias Completas, de Castro Alves, entre outros.

Além da literatura, Joice tem outra paixão: o sapateado. Todas as quartas e sextas-feiras ela deixa de ir à Escola de Recurso e vai aprender a sapatear. Como não é capaz de ver a dança, Joice se encantou com o som. Ao falar de sua experiência com a dança, a garota não contém a satisfação e abre um sorriso ao falar que sempre quis aprender o sapateado.

Bicho de sete cabeças

Fábio Leal de Carvalho, 18 anos, também tem um sonho. Ele quer ser técnico em informática. Seu primeiro contato com o computador foi na Escola de Recurso. Também se encantou e agora quer se especializar no trato com a máquina e seus programas. “Eu imaginava que (o computador) era um bicho de sete cabeças. Mas não é não”, comemora.

Há apenas quatro meses com a professora Cida, Fábio lamenta não ter procurado apoio antes. “O carinho que eu recebi aqui, mudou tudo na minha vida. Antes, eu ficava só dentro de casa, porque tinha vergonha de sair”, conta ele.

Quem também está satisfeita com o trabalho de apoio da professora Cida Bis é a dona de casa Alzira Correa, 68 anos. Ao contrário dos alunos, Alzira enxerga muito bem, mas não sabe ler. Para suprir essa carência, ela conta com a ajuda da filha, que é deficiente visual, mas sabe ler, em braile.

Elas moram em Pederneiras e ficaram sabendo da escola por meio de uma rádio da cidade. Antes disso, Alzira buscava apoio para a filha, Silene Correa, 22 anos, no Rio de Janeiro.

Hoje, Silene está cursando a 3.ª série do ensino médio, o antigo colegial. Enquanto fortalece sua auto-estima, mostrando à todos que é possível vencer na vida sem um dos sentidos mais vitais do ser humano, Silene serve de apoio à mãe. Ambas, acabam se completando, com o apoio mútuo.