10 de julho de 2026
Articulistas

E viva o povo brasileiro


| Tempo de leitura: 3 min

Difícil escrever com antecedência para ser lido num dia como hoje quando se decide a Copa do Mundo de Futebol e o Brasil é finalista. Se me abstrair do futebol para abordar a situação econômica ou política do país, corro o risco de ser irrelevante. Provavelmente os brasileiros vão levantar da cama para assistir o jogo e deixar a leitura mais atenta dos jornais para depois. Qualquer conjectura será matéria vencida. Futebol não é uma coisa darwinista onde o mais forte sempre vence. O Senegal ganhou da França, campeã do mundo. Esse esporte tem a característica de exigir uma atitude solidária dos 11 jogadores. Um galo sozinho não tece uma manhã – dizia o poeta João Cabral – embora esse goleiro alemão tenha sido o grande responsável pelos cocoricós de vitória do seu time, nesta Copa. Em situações normais, se cada atleta quiser decidir a partida sozinho para não ter que dividir o estrelato, a lógica vai para o espaço. Aí que mora o perigo com tantos jogadores assediados por contratos para marcar gol com a chuteira da Nike (nem que seja de bico) e descansar os pés consagrados nos chinelos da Rider. É o momento em que o esportista vira homus economicus. Puramente darwiniano como o capitalismo que prega o livre mercado que só favorece ao endinheirado e gera mais desigualdades. Raras vezes o enfraquecimento do coletivo tem conotações menos materialistas. O técnico turco, por exemplo, queixa-se de dificuldades para escalar o time ideal porque a maioria muçulmana não se liga com companheiros que acham uma bobagem esse negócio de ajoelhar para rezar cinco vezes ao dia, voltados para Meca.

Nesta Copa assistimos a várias demonstrações de solidariedade com o povo sofrido pelo terror financeiro. Os argentinos queriam ganhar para dar um lenitivo à população do seu país, incansável nos protestos de rua contra o desaparecimento das suas economias amealhadas com sacrifício. Os turcos vivem uma situação semelhante a do Brasil e também queriam dar um gostinho de dias melhores ao patinho feio da União Européia. Os senegaleses sonhavam com um sucesso maior que chamasse a atenção do primeiro mundo para a sua presença no mapa da mãe-África.

Marx se descabelava com as contradições do capitalismo que em vez de ajudar, atrasavam a revolução proletária. Se o Brasil ganha, a ilusão do penta poderá ser o antídoto que falta para o virus da nossa impotência social. Vão nos fazer acreditar que a má-fase da economia é superável, assim como se normalizou a intermitência vivida no período classificatório pelo scratch canarinho. Os Ronaldinhos e Rivaldos expressariam a capacidade de resistência e superação das nossas dificuldades e limitações. A exposição à TV nos fará esquecer os erros e as safadezas dos políticos. Deslizes fazem parte da vida democrática. Importante é ter garra. Assim não fora, esses meninos pobres, negros, não emergiriam para o estrelato global, prova de que a oportunidade é igual para todos. Mudam somente as circunstâncias de vida. Mero detalhe. Basta querer. Há esperança para o desempregado apesar da tirania do mercado, da inoperância e subserviência de nossos políticos e o descalabro social.

Será óbvia a tônica dos discursos. FHC há uma semana cita Felipão como exemplo de estadista. Esqueçam os talentos perdidos nas periferias e nos morros. Aqueles pelos quais nada fizemos e que agora nada mais nos pedem e retribuem à balas.

Os cartolas corruptos não vão faltar no caminhão dos bombeiros e nas recepções oficiais, na tentativa de se igualar à competência, habilidade e criatividade dos craques brasileiros, sempre carentes de dirigentes a sua altura. Como todo o povo brasileiro. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)