08 de julho de 2026
Saúde

Relação familiar deve ser funcional

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A formação e o desenvolvimento saudável de qualquer criança depende diretamente da qualidade funcional da família em que ela está inserida. A afirmação é unânime entre os mais diversos profissionais e estudiosos. Quando o ambiente não funciona bem, a criança tende a sofrer desvios de comportamento. A dependência química é apenas um deles.

De acordo com a farmacêutica Daniele Castro Di Flora, família funcional é aquela onde existe resolutividade de problemas. Para isso, o diálogo sincero, a liberdade de expressão, a definição de limites e o respeito mútuo são essenciais.

“A criança e o adolescente já têm, naturalmente, vários conflitos internos. Eles precisam se afirmar de alguma forma. Somada a isso, existe a curiosidade pelo novo. Numa família onde esses e outros conflitos não são resolvidos, existe uma vulnerabilidade, que abre as portas para as substâncias entorpecentes, como ingestão de alívio”, afirma.

Para a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Darlene Martin Tendolo, amar significa dizer “não” quando é necessário dizer “não”. Ela defende que as pessoas não podem ter medo de negar coisas para aqueles com quem se convive.

“Se é não, esse ‘não’ tem que ser pronunciado com toda a tranqüilidade. Por exemplo, meu filho não vai dirigir antes de tirar habilitação e acabou. O carro está sob minha responsabilidade e se acontecer alguma coisa com meu filho, eu serei penalizada. Duas vezes: primeiro pela tragédia que pode acontecer com meus filhos; segundo pela sanção legal que vou sofrer por ter sido permissiva”, comenta.

Daniela Di Francia concorda, mas ressalta que esse “não” tem que vir sempre acompanhado de um “porquê”, principalmente para as crianças. Explicar com naturalidade é a melhor alternativa para aplacar a curiosidade delas.

“Tem que haver liberdade para esse diálogo verdadeiro, porque ainda tem muitos pais que dizem que criança não tem querer. Ela tem querer e precisa adquirir conteúdo. Esse conteúdo depende de informações e exemplos”, completa.

Continuidade

Para o pediatra Felinto dos Santos Neto, o bom relacionamento entre pais e filhos precisa ser contínuo. A transparência e troca de informações têm que ser constantes.

“Não adianta você nunca tocar no assunto e só orientar no dia em que ele resolver ir a uma danceteria, por exemplo. Aí não se consegue nada. Esse diálogo tem que vir desde o início da criação, não esconder nada, mostrar mesmo, esclarecer. Acho que, assim, a chance de que a criança busque uma alternativa errada diminui. E ainda assim é difícil”, pondera.

Experiência

A psicóloga Adriana Félix Providello salienta que as substâncias químicas, como todos os outros perigos do mundo, estão no cotidiano do ser humano. “Vai chegar um momento em que a criança, o adolescente vai ter contato com isso e ele vai querer experimentar. Neste momento, os pais têm que estar abertos para receber isso”, alerta.

Para ela e os demais especialistas entrevistados, proibir simplesmente não vai resolver, principalmente se forem considerados os conflitos naturais da formação de consciência.

É preciso saber lidar com as situações. No caso das substâncias lícitas, a experiência pode ser acompanhada dos pais, dentro de casa. Quando a curiosidade passar para as drogas propriamente ditas, é possível recorrer a livros e grupos de orientação. O importante é manter o equilíbrio e a saúde do relacionamento familiar.

“Em todo esse processo, a atitude dos pais precisa ser ajustada ao tipo de criança, à personalidade da criança, porque sempre há o risco de que ela faça alguma coisa como contravenção e rebeldia. O bom senso tem que imperar sempre e, na dúvida, impor limites é um ótimo caminho”, conclui a psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira.