A formação e o desenvolvimento saudável de qualquer criança depende diretamente da qualidade funcional da família em que ela está inserida. A afirmação é unânime entre os mais diversos profissionais e estudiosos. Quando o ambiente não funciona bem, a criança tende a sofrer desvios de comportamento. A dependência química é apenas um deles.
De acordo com a farmacêutica Daniele Castro Di Flora, família funcional é aquela onde existe resolutividade de problemas. Para isso, o diálogo sincero, a liberdade de expressão, a definição de limites e o respeito mútuo são essenciais.
“A criança e o adolescente já têm, naturalmente, vários conflitos internos. Eles precisam se afirmar de alguma forma. Somada a isso, existe a curiosidade pelo novo. Numa família onde esses e outros conflitos não são resolvidos, existe uma vulnerabilidade, que abre as portas para as substâncias entorpecentes, como ingestão de alívioâ€, afirma.
Para a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Darlene Martin Tendolo, amar significa dizer “não†quando é necessário dizer “nãoâ€. Ela defende que as pessoas não podem ter medo de negar coisas para aqueles com quem se convive.
“Se é não, esse ‘não’ tem que ser pronunciado com toda a tranqüilidade. Por exemplo, meu filho não vai dirigir antes de tirar habilitação e acabou. O carro está sob minha responsabilidade e se acontecer alguma coisa com meu filho, eu serei penalizada. Duas vezes: primeiro pela tragédia que pode acontecer com meus filhos; segundo pela sanção legal que vou sofrer por ter sido permissivaâ€, comenta.
Daniela Di Francia concorda, mas ressalta que esse “não†tem que vir sempre acompanhado de um “porquêâ€, principalmente para as crianças. Explicar com naturalidade é a melhor alternativa para aplacar a curiosidade delas.
“Tem que haver liberdade para esse diálogo verdadeiro, porque ainda tem muitos pais que dizem que criança não tem querer. Ela tem querer e precisa adquirir conteúdo. Esse conteúdo depende de informações e exemplosâ€, completa.
Continuidade
Para o pediatra Felinto dos Santos Neto, o bom relacionamento entre pais e filhos precisa ser contínuo. A transparência e troca de informações têm que ser constantes.
“Não adianta você nunca tocar no assunto e só orientar no dia em que ele resolver ir a uma danceteria, por exemplo. Aí não se consegue nada. Esse diálogo tem que vir desde o início da criação, não esconder nada, mostrar mesmo, esclarecer. Acho que, assim, a chance de que a criança busque uma alternativa errada diminui. E ainda assim é difícilâ€, pondera.
Experiência
A psicóloga Adriana Félix Providello salienta que as substâncias químicas, como todos os outros perigos do mundo, estão no cotidiano do ser humano. “Vai chegar um momento em que a criança, o adolescente vai ter contato com isso e ele vai querer experimentar. Neste momento, os pais têm que estar abertos para receber issoâ€, alerta.
Para ela e os demais especialistas entrevistados, proibir simplesmente não vai resolver, principalmente se forem considerados os conflitos naturais da formação de consciência.
É preciso saber lidar com as situações. No caso das substâncias lícitas, a experiência pode ser acompanhada dos pais, dentro de casa. Quando a curiosidade passar para as drogas propriamente ditas, é possível recorrer a livros e grupos de orientação. O importante é manter o equilíbrio e a saúde do relacionamento familiar.
“Em todo esse processo, a atitude dos pais precisa ser ajustada ao tipo de criança, à personalidade da criança, porque sempre há o risco de que ela faça alguma coisa como contravenção e rebeldia. O bom senso tem que imperar sempre e, na dúvida, impor limites é um ótimo caminhoâ€, conclui a psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira.