08 de julho de 2026
Geral

Chico Xavier: 'um divisor de águas'

Por Thaís da Silveira | Agência Folha
| Tempo de leitura: 5 min

“O movimento espírita pode ser dividido em antes e depois de Chico Xavier.” É o que acredita o professor de História Leopoldo Zanardi. Ele é diretor do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) e durante anos estudou a vida do médium e psicógrafo que morreu anteontem à noite, em Uberaba, no Triângulo Mineiro.

“Chico Xavier pode ser considerado um divisor de águas porque acelerou o desenvolvimento do movimento espírita, motivando a adesão das pessoas à ideologia espírita”, expõe Zanardi.

Apesar do Brasil encarar a morte de Xavier como uma “perda”, o professor explica que, para os espíritas, o fato é visto com naturalidade. No espiritismo, a morte é apenas uma transição já que o corpo morre, mas a vida do espírito continua.

â€œÉ como se você tivesse trocando de roupa. O Chico mesmo dizia que ele estava bem. O que não estava bem era o corpo dele. Sabíamos que a saúde dele estava fragilizada”, conta.

Zanardi acredita que as palavras de Chico Xavier passaram a ser muito respeitadas ao longo dos anos também pelo exemplo de vida que ele passava às pessoas, considerado um “modelo de virtudes”.

Ele destaca que o psicógrafo publicou 419 livros, totalizando 25 milhões de exemplares vendidos. Apesar disso, nunca recebeu os direitos autorais de suas obras, os quais destinava a entidades que realizam trabalhos sociais. No dia 8 de julho, o médium completaria 75 anos de atividades mediúnicas.

Admiração

Zanardi foi introduzido à literatura espírita por meio das obras de Chico Xavier, com as quais logo identificou-se. A partir de então, começou a colecionar obras e informações publicadas em jornais e revistas a respeito do médium.

Em meados de 1980, teve a oportunidade de conversar com o psicógrafo em São Paulo, durante o lançamento de um de seus livros. “Ele sempre enxergava algo de bom nas pessoas”, observa Zanardi.

Há 20 anos, o professor publicou um livreto em homenagem aos 50 anos de lançamento da primeira obra de Xavier - “Parnaso de Além-Túmulo”.

Marcos

O diretor do Ceac, que estudou a vida do escritor, conta que na noite de 8 de julho de 1927, em uma reunião pública do Centro Espírita “Luiz Gonzaga”, em Pedro Leopoldo (MG), Xavier atendeu à recomendação da médium Carmen Pena Perácio para tomar o lápis junto ao papel que encontrava-se sobre a mesa, a fim de tentar a psicografia.

O resultado? “Chico Xavier obedece ao conselho recebido e, de imediato, um amigo espiritual escreve 17 páginas, para sua grande surpresa, embora ele já registrasse fenômenos mediúnicos em sua experiência pessoal desde a infância”, expõe Zanardi.

O primeiro livro de Chico Xavier, “Parnaso de Além-Túmulo”, foi psicografado entre agosto e dezembro de 1931. A primeira edição foi um volume de 156 páginas, 60 produções literárias e 14 poetas - entre eles, Antero de Quental, Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu, Castro Alves e Cruz e Souza.

Da primeira à última edição, em 1994, a obra somou 80 mil exemplares. Na edição definitiva, o livro passou a ter 56 poetas, 259 produções literárias e 509 páginas.

Segundo Zanardi, é impossível alguém imitar as características peculiares de dezenas de poetas já que o estilo é a marca registrada do autor.

“Se alguém escreve à maneira desse ou daquele poeta, a ponto de confundirmos se a obra é daqui ou do além, de duas, uma: ou a psicografia é uma realidade palpável, ou o imitador, nesse caso o médium, é tão genial quanto o imitado, devendo ocupar então uma cadeira em qualquer Academia de Letras”, destaca o professor.

“Essa é a trajetória de um verdadeiro missionário, exemplo de dedicação e disciplina nas atividades mediúnicas, amor incondicional ao próximo e, acima de tudo, fidelidade à doutrina que abraçou e vivencia”, acrescenta Zanardi.

2,3 mi são adeptos do espiritismo no País

O espiritismo tem 2,34 milhões de adeptos no Brasil (1,38% da população), segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000. Estima-se que existam 15 milhões de espíritas em todo o mundo.

Sua doutrina foi codificada em 1857 no "Livro dos Espíritos'' pelo professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), que adotou o pseudônimo de Allan Kardec.

O espiritismo considera Deus a inteligência suprema e a causa primária de todas as coisas. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom. O Universo foi criado por Deus.

Os espíritas crêem que Cristo é filho de Deus. É um espírito iluminado, mas não é o próprio Deus. A moral de Jesus, contida no Evangelho, é o roteiro para a evolução dos homens, e a sua prática é a solução para os problemas humanos e o objetivo a ser atingido pela humanidade.

Seus adeptos acreditam no retorno do espírito à Terra em sucessivas encarnações, até atingir a perfeição, e na possibilidade de comunicação entre vivos e mortos, que para isso recorrem a um médium. A mediunidade é considerada um dom que muitas pessoas trazem consigo ao nascer.

A comunicação entre vivos e mortos pode ocorrer por meio da psicografia (o médium escreve como se o próprio espírito escrevesse) ou da psicofonia (o espírito utiliza o corpo do médium para falar aos vivos). Há porém espíritos inferiores, que dão más orientações.

O espiritismo não tem corpo sacerdotal hierarquizado, como o catolicismo. Sua liturgia é composta por palestras (sobre o Evangelho) e reuniões com passes, por meio dos quais uma camada vibratória negativa pode ser retirada, com o consentimento do assistido, e substituída por fluidos bons para repor os fluidos retirados.

O passe atinge três fatores mais importantes: pensamento, alimentação e sexo. O número de palestras e de reuniões com passes depende do número de voluntários aptos a desempenhar tais funções nos centros espíritas.