09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Copa abafa 'pentarreajuste' de tarifas

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

No fim de semana em que a Seleção Brasileira conquistou o pentacampeonato mundial de futebol, o povo brasileiro vai sentir no bolso um “pentaumento”. Sofreram reajustes para cima cinco tarifas controladas pelo governo: o telefone, os pedágios, a gasolina, o óleo diesel e o gás de cozinha (a partir de amanhã).

É um aumento para cada título mundial conquistado pelo Brasil. Coincidência ou não, os aumentos foram efetuados durante a semana passada, em meio à expectativa da final da Copa, e durante o fim de semana, enquanto a torcida brasileira soltava o grito de “pentacampeão”.

Na sexta-feira, enquanto o goleiro alemão Oliver Kahn era o inimigo número 1 do País, as tarifas telefônicas subiram. Ligações realizadas a partir de telefones fixos ficaram, em média, 8% mais caras, de acordo com reajuste determinado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Ligações locais tiveram acréscimo médio de 8,30%, e as de longa distância nacional, aumentos de até 5%.

No domingo, dia da final, os preços dos combustíveis nas distribuidoras subiram. A gasolina sofreu reajuste de 6,75%, e o óleo diesel, 9,5%. Na bombas, o aumento já está sendo percebido. Em alguns postos da região, o diesel subiu 8%, em média.

Na última segunda-feira, dia em que o País acordou “de ressaca” pela conquista do penta, aumentou o preço dos pedágios em rodovias privatizadas do Estado de São Paulo em cerca de 11%. Ir de Bauru a Jaú e voltar, por exemplo, custa agora R$ 8,00. Antes, custava R$ 7,20, o que equivale a um reajuste de 11%.

Para encerrar a festa do penta, é a vez do gás de cozinha sofrer o quarto reajuste do ano, o segundo em pouco mais de um mês: sobe 6,2%.

“Disfarce”

Não há evidências que comprovem a intenção do governo em determinar cinco aumentos em plena semana do penta. Nas ruas, a opinião da maioria é de que a euforia pela campanha brasileira na Ásia foi o “disfarce” ideal para o anúncio de medidas impopulares, a apenas três meses das eleições.

“O povo está sonhando com o penta e só vai perceber isso (os aumentos) quando for no mercado”, diz o comerciante Júlio César Melo de Oliveira, 40 anos. Na opinião dele, os aumentos foram “enormes” desde o início do Plano Real, que fez aniversário de oito anos anteontem.

Para o eletricitário Marcelo Scardini Silva, 29 anos, a euforia pela conquista do penta deveria ser direcionada a assuntos do cotidiano do País. “Penso que se o brasileiro tivesse a consciência política que deveria ter, e se mobilizasse como fez em Brasília para receber os jogadores da Seleção, iria contra esses aumentos, esses abusos”, ressalta.

Uma mulher, que não quis ter seu nome divulgado, diz que tem certeza de que as datas dos cinco aumentos foram escolhidas propositadamente para coincidir com as finais da Copa. “Eles aproveitaram a oportunidade para embalar os aumentos e o povão não ter o que reclamar. Foi uma forma realmente de se aproveitar da situação”, sustenta.

Nem todos, no entanto, têm a mesma opinião. O cobrador Fernando Carneiro, 42 anos, acredita que os reajustes foram, de certa forma, uma coincidência. “Eu acho que existe uma transparência normal do governo. Como o País é totalmente dolarizado, uma conseqüência normal são os aumentos que estão havendo”, opina.

O economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecom), declara que o aumento nos combustíveis, por exemplo, poderia ter sido adiado. No momento, o reajuste compromete a meta da inflação, além de suscitar “conotações oportunistas”.

“Para alguns, os aumentos nos preços dos combustíveis em meio à euforia da Copa do Mundo relembrou um passado de práticas nada recomendáveis a um governo sério”, aponta o economista.

Gás sobe amanhã

A partir de 0h de amanhã, o gás de cozinha (gás liqüefeito de petróleo - GLP) vendido às distribuidoras passa a custar 6,2% mais caro. Esse é o segundo aumento em pouco mais de um mês: em 1 de junho, o gás sofreu reajuste de 9,2%.

O preço médio do botijão em Bauru deve ficar em torno de R$ 30,00, segundo Luís Carlos Afonso, dono de uma distribuidora na cidade. De acordo com Afonso, os seguidos reajustes - o de amanhã será o quarto de 2002 - provocaram uma retração de 4% no consumo de gás de cozinha neste ano, em São Paulo.

No acumulado do ano, o preço do botijão de gás teve acréscimo de 63,34%. Até o início da noite de ontem, algumas revendedoras de gás de Bauru afirmavam não ter recebido nenhum comunicado oficial sobre o reajuste.

Opiniões

“Veja como é no futebol, é uma prova tremenda: se o brasileiro fosse dessa forma com a política, as coisas seriam diferentes”. - Marcelo Scardini Silva, 29 anos, eletricitário

“Deu tudo em cima, bem quando a Seleção foi penta. Podiam esperar uns 15 dias”. - Regina Marcolina, 39 anos, dona de casa

â€œÉ uma falta de respeito com o povo”. - Júlio César Melo de Oliveira, 40 anos, comerciante

“O governo está sendo transparente, mostrando essa face antes das eleições”. - Fernando Carneiro, cobrador, 42 anos

“O governo vê que o povo está iludido com a Copa, e aproveita”. - Elisabete de Oliveira, 38 anos, comerciante