O bauruense Luciano Dias Pires Filho, 45 anos, é uma pessoa de hábitos comuns. Jamais havia praticado esportes radicais como o trekking ou escalado uma montanha. Nunca tinha se envolvido numa grande aventura.
Diretor de marketing de uma multinacional, é casado, pai de dois filhos e vivia sua vida cotidiana até que decidiu realizar um sonho: percorrer as trilhas do monte Everest, na cordilheira do Himalaia, no ano passado.
O resultado dessa aventura é livro “O Meu Everestâ€, da Geração Editorial, que Pires lança quarta-feira, em São Paulo. Trata-se de uma obra bastante ilustrada, na qual o executivo narra, de um ponto de vista muito pessoal, uma experiência incomum. Na estrevista a seguir, o autor fala da sua viagem e do seu livro.
Pergunta - O que leva um executivo a deixar o conforto e a família e se aventurar nos perigos e nas condições precárias da trilha do Everest? Luciano Dias Pires Filho - No meu caso foram duas coisas: primeiro o interesse que eu tinha em percorrer o caminho que os grandes aventureiros do começo do século passado trilharam na tentativa de vencer a montanha mais alta do mundo. As descrições que li nos livros deixavam claro que se tratava de uma trilha singular, pela beleza e pelo esforço físico. O outro ponto foi o desafio físico. Será que eu teria competência para preparar-me e vencer uma caminhada de 15 dias e mais de 200 quilômetros numa das trilhas mais altas do mundo? Esse desafio me motivou a tentar. A questão do conforto é relativa. Eu jamais estaria no conforto enquanto não realizasse meu sonho...
Pergunta - Por que o “meu†Everest? Pires - O meu Everest trata de um processo, e não de uma montanha. Fala de um sonho, da pesquisa para realizá-lo, da preparação, da caminhada, da conquista, do retorno... e continua com o processo de escrever o livro, com as palestras, com os contatos com outros interessados, com a criação do site www.omeueverest.com, com uma exposição fotográfica. Tudo isso é o meu Everest. Nesse contexto, tem também a montanha mais alta do mundo. E esse processo é só meu. Qualquer pessoa que tentar realizar algo parecido, vai passar por experiências e reações diferentes e terá o seu próprio Everest.
Pergunta - Quais são os riscos de tentar chegar ao Campo Base do Everest? Pires - O risco de quedas é uma realidade. As avalanches nem tanto, pois a trilha percorre locais de baixo risco. O grande problema é o mal de altitude, que ataca a qualquer pessoa, sem que seja conhecida uma forma de determinar como evitá-lo. É necessário um acompanhamento constante das dores de cabeça, dos vômitos, das tonturas, do apetite, da cor da urina, enfim, de reações que apontam para a possibilidade de um edema pulmonar ou cerebral causado pela altitude. Esse é o grande risco, e a melhor forma de minimizá-lo é seguir um ritmo lento e calculado para a aclimatização. Existem riscos de acidentes também, como o ataque de um iaque (o bovino adaptado à altitude do Himalaia), um ataque de guerrilheiros, problemas estomacais e intestinais causados por comida ou água contaminada, além de outros. O cuidado, a observação e o respeito à montanha são as armas para atenuar esses riscos.
Pergunta - Como foi o “day afterâ€, quando você desembarcou em São Paulo novamente? E como foi voltar a sentar à sua mesa de trabalho? Pires - Primeiro foi uma sensação incrível de dever cumprido. De saber que eu havia feito algo fora do usual, de ter diante de mim o desafio de contar o que vi e vivi. Depois, na volta ao trabalho, foi uma frustração. Eu descobri rapidamente que, por mais que tentasse, jamais conseguiria passar para meus colegas a mínima idéia da grandiosidade daquilo tudo que vivi. E também descobri que mudei um pouco no jeito de ser. Aprendi, depois de subir e descer, subir e descer, que a descida também faz parte da trilha para o Everest.
Pergunta - Em alguns momentos do livro você cita o “estado de consciência†que o Everest cria. Como é este estado? Pires - É aquele momento em que você, sozinho, sentado no alto de uma daquelas montanhas, aprecia aquela paisagem deslumbrante e entende que perdeu completamente a noção de tempo, de distância, de dimensões. Aquilo é tão monumental que você se sente diminuído à sua real condição. A natureza é tão poderosa que chega a ser opressiva, e nos dá a consciência de que somos pequenos, insignificantes mesmo. Eu já havia experimentado algo parecido quando me envolvi com astronomia e passei noites vasculhando os céus. A mesma sensação de perda de noção de tempo e espaço aconteceu. Não acho que isso seja privilégio do Everest. Imagino que qualquer pessoa que já tenha estado só diante do mar, da selva amazônica, e de outras situações em que o homem é confrontado com as forças da natureza, sinta algo parecido.
Pergunta - O que é preciso para subir o Everest? Pires - Se sua pergunta é sobre atingir o cume do Everest, objetivamente é preciso dinheiro, vontade (muita vontade), preparo físico, experiência em alta montanha. Subjetivamente, é preciso ter aquela compulsão por tentar o impossível, por ir além dos limites do corpo. Coragem, motivação e respeito pela montanha.
Pergunta - Como foi analisar o nosso mundo cotidiano lá de cima, no teto do mundo? Pires - Em determinados momentos fica clara nossa dependência de valores que inexistem naquele lugar. Lá não existem rodas. Tudo é transportado nas costas de pessoas ou animais. E as pessoas desenvolvem uma resistência física que chega a ser humilhante para nós. Lá quase não existe luz elétrica. E as pessoas conversam em vez de assistir televisão. Lá o objetivo principal é ter abrigo e comida. Ninguém pensa em trocar de carro, comprar TV nova ou vestir roupas de marca. São outras necessidades, outras prioridades, um grau de religiosidade impressionante, a convivência com a miséria, o frio e os perigos... Comparado a nosso mundo cotidiano, na trilha do Everest tudo é superlativo. Temos que ser mais corajosos, mais objetivos, mais companheiros, mais humildes, mais saudáveis, mais... humanos.
Pergunta: Como você classificaria seu livro? Pires - Como uma reportagem que conta a aventura de um sujeito como outro qualquer, acostumado à vida nas grandes cidades, que decide experimentar uma experiência nova. Troca a gravata por uma mochila, faz um plano de viagem, tira férias, paga em prestações, despede-se da família e chega até o campo base do Everest. Eu escrevi da forma como falo, pensando em pessoas como eu. Sem frescura, sem teorias, sem aquela história de pregação religiosa ou ideológica. “O Meu Everest†mostra que qualquer um pode vencer uma das mais belas trilhas do mundo - ou realizar um sonho - sem precisar ser louco, super atleta ou milionário.