11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Café tem safra recorde, mas preço é o menor em 20 anos

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Os produtores de café estão diante de um grande dilema. Em 270 anos de cafeicultura no Brasil, neste ano está sendo registrada a maior safra de café da sua história. A previsão é de ficar em torno de 45 milhões de sacas. Contudo, o preço de venda da saca é o mais baixo dos últimos 20 anos, aproximadamente - entre R$ 80,00 e R$ 100,00, dependendo da qualidade.

O contrasenso é causado pelo excesso de cerca de dez milhões de sacas existentes no mercado, segundo informa Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp).

De acordo com ele, da safra prevista para 2002, cerca de 50% já foi colhida. Estimativas extra-oficiais indicam a possibilidade de se chegar a 50 milhões de sacas nessa colheita - cinco milhões a mais que a previsão oficial. O grande desafio da categoria nesse momento é encontrar um meio para que o excesso de oferta de sacas seja administrado. Caso contrário, em termos financeiros esse poderá ser o pior ano de todos para os produtores de café.

Retenção

Segundo Guimarães, em âmbito mundial existem cerca de 115 milhões de sacas em oferta (produção mundial), contra uma procura de 105 milhões. “Trata-se da lei do mercado. Enquanto a oferta for maior do que a procura, os preços ficarão baixos. Para equilibrar essa situação, esse excesso de dez milhões de sacas teria que ser retirado do mercado. Já tentamos fazer a retenção do café há três anos, quando houve uma reunião em Londres, mas não obtivemos sucesso. Cada país tem os seus interesses e não há como entrar num consenso para a retirada desse excesso de circulação”, diz Guimarães.

A situação é tão grave que, diante de uma produção tão grande como a deste ano, os produtores não têm recursos para fazer a colheita. Por isso, a necessidade da retenção de sacas é urgente, segundo aponta o vice-presidente da Faesp.

De acordo com ele, a solução interna seria que o Governo Federal administrasse essa sobra, como já ocorreu em outras ocasiões através do estoque das sacas em excesso no mercado. Mas em ano de eleições presidenciais, os cafeicultores não vêem como conseguir isso. Atualmente, Brasil, Vietnã e Colômbia detêm, juntos, cerca de 50% da produção e consumo mundial de café. A média anual de produção é, respectivamente, de 25,7 milhões de sacas, 11,5 milhões e 10,5 milhões de sacas/ano.

“Trata-se de uma grande incoerência. Em termos de agricultura, temos uma produção recorde que poderia servir de estímulo aos produtores. Em termos econômicos a situação é trágica, porque com o excesso de sacas no mercado os preços estão caindo cada vez mais. O consumo de café não tem acompanhado o aumento da oferta do produto. Para melhorar os preços, é necessário que essa sobra seja administrada. O ideal é que isso fosse feito pelo governo, mas em ano eleitoral é uma completa ilusão achar que conseguiremos atenção do governo para esse problema”, avalia Guimarães.

Impasse

Segundo ele, existe uma proposta antiga, por parte do governo, de liberar recursos da ordem de R$ 700 milhões (recursos do Funcafé) para forçar a retenção interna do produto. Mas na chamada economia do café, isso não resolve o problema.

“A idéia é que o produtor venda ao banco uma certa quantidade de sacas, por um valor estipulado, que seriam estocadas pelo governo. Como somente agora se sabe exatamente a dimensão dessa safra, estamos pleiteando que esse valor passe para R$ 1,5 bilhão. Isso faria com que o Brasil retesse cerca de 15 milhões de sacas. Mas como a economia do café é extremamente complicada, se o Brasil fizer a retenção, os preços subirão e o resto do mundo vai se aproveitar dessa situação. Por isso, precisaria haver uma retenção mundial, mas isso não vai ocorrer”, adianta Guimarães.

Diante do impasse, possível saída seria ocorrer uma tragédia no setor, como uma geada que destruísse parte da produção. Mas isso também prejudicaria os produtores. “Ou seja, por ora, não temos a quem ou a que recorrer. Estamos diante de um terrível impasse”, conclui Guimarães, que é cafeicultor.

Exportações

Os reflexos da oferta excessiva de café no mercado também podem ser observados através da performance de exportações registradas nos últimos anos. Em 1998, foram exportadas 18,2 milhões de sacas, gerando receita de US$ 2,6 bilhões; em 1999 foram 23 milhões de sacas e receita de US$ 2,4 bilhões; no ano seguinte foram 18,1 milhões de sacas exportadas e receita de US$ 1,8 bilhão; em 2001 foram exportadas 23,4 milhões de sacas, gerando receita de US$ 1,4 bilhão, e para este ano, a estimativa é de exportar 24,5 milhões de sacas e gerar receita de US$ 1,2 milhão - a menor desde 1998.