Um homem de terno e gravata entra na joalheria e se identifica como juiz de direito. Para confirmar, apresenta até uma carteirinha de identificação. Na loja, pede para ver mercadorias caras e propõe pagamento em cheque.
O funcionário da joalheria desconfia da urgência do suposto juiz para ir embora logo com os produtos. Ele então informa ao senhor que vai consultar o cheque antes de efetuar a venda. No mesmo momento, o homem engravatado sai em disparada da joalheria, levando junto sua “carteirinha de juizâ€.
A história parece mentira, mas ocorreu há alguns meses numa joalheria de Bauru. Casos como esse não ocorrem todo dia, mas quando dão certo causam enorme prejuízo aos lojistas.
De acordo com o presidente da Associação das Empresas do Calçadão (AEC), Franscisco Alberto De Bernardis, está aumentando o número de golpes sofisticados no comércio de Bauru, mas ainda não há estatísticas sobre o assunto.
A principal novidade, segundo os lojistas, são os cheques falsificados, cuja confecção é facilitada pelo uso da tecnologia, que torna possível apagar e reescrever dados da folha como se fossem de uma pessoa com o nome “limpoâ€.
Para Bernardis, diante dessa prática torna-se quase impossível negar o crédito. “A falsificação é perfeita, e eles (os golpistas) vêm com documentos falsificados tambémâ€, ressalta.
O gerente de sistemas Idém Gomes Júnior, funcionário da joalheria em que o falso juiz tentou aplicar um golpe, afirma que está se tornando cada vez mais difícil identificar possíveis estelionatos apenas recorrendo a consulta de dados. Para ele, com um scanner e uma impressora caseira é possível falsificar quase todo tipo de documento, de RG a holerite.
Nem mesmo a consulta por telefone é garantia de negócio seguro. Gomes Júnior cita o exemplo de um homem que queria abrir um crédito para fazer compras no total de R$ 900,00 e forneceu o telefone do seu suposto empregador. Do outro lado da linha, o “patrão†confirmou a idoneidade do cliente.
Dias depois, quando o cheque foi depositado e voltou sem fundos, a loja descobriu que a pessoa a quem o funcionário havia telefonado era apenas um comparsa do estelionatário.
Na opinião de Gomes Júnior, a solução é contar com a experiência e com treinamento de funcionário para evitar prejuízos. Na joalheria em que trabalha, os funcionários passam por treinamento específico toda segunda-feira. “A gente tenta fazer com que o funcionário fique familiarizado com os golpes, para que na hora em que aparecer, ele reconheçaâ€, declara.
Ferramentas
De acordo com o gerente de vendas de um magazine da cidade, Ângelo Manoel Prieto, sua empresa utiliza uma ferramenta valiosa para identificar possíveis golpes. Com o “crédito scoreâ€, o funcionário descobre se há muitas passagens do comprador pelo SPC ou se foram feitas muitas consultas sobre a pessoa no mesmo dia.
Desse modo, o funcionário descobre se o cliente já tentou fazer compras em muitas outras lojas num período curto de tempo. “Isso significa que a pessoa está querendo comprar muito, o que deixa uma interrogaçãoâ€, observa Prieto.
Segundo o gerente, há também as chamadas mercadorias de alto risco, alvo preferencial para quem quer aplicar os golpes. Estão na lista telefone celular, DVD, videocassete, TV e aparelho de som. “São produtos que você compra aqui e, na esquina, já consegue vender a qualquer preçoâ€, aponta Prieto.
De acordo com uma das supervisoras de crédito do magazine, Odete Cardoso, o índice de inadimplência no crédito de toda a rede é de 4%. Número que, segundo conta, é obtido através de uma série de consultas a órgãos de proteção ao crédito de abrangência nacional e de táticas para identificar possíveis golpes.
Nas consultas por telefone a empregadores, por exemplo, a orientação quando há desconfiança é perguntar por um nome diferente do apresentado na loja pelo comprador. “Quando é golpista, eles confirmam qualquer pessoa que está do outro ladoâ€, conta Odete.
Furtos
Além dos golpes com cheques e documentos frios, os comerciantes têm preocupação constante com furtos. Numa loja de confecções no Centro da cidade, a estimativa de perda mensal com furtos está entre R$ 2.500,00 e R$ 3 mil, o que equivale a 0,5% do faturamento.
De acordo com o gerente Luís Antônio Colpani, entre os 20 funcionários da loja, quatro são seguranças, sempre de olhos atentos a movimentações estranhas nos balcões de exposição e nas pessoas que entram nos provadores.
Segundo Colpani, não raro há casos de pessoas que saem dos provadores com a roupa nova no corpo e deixam a que estavam usando no chão. Ou as que tentam levar uma calça nova vestida por baixo da velha. “Os furtos do dia-a-dia não têm como evitarâ€, lamenta.
Colpani ainda chama atenção para uma curiosidade, que, segundo diz, está se tornando prática freqüente. Aproveitando o movimento, ladrões furtam bolsas e carteiras dentro do estabelecimento, principalmente de mulheres idosas.
Nas joalherias, onde as mercadorias são pequenas mas de grande valor, a atenção é voltada para os chamados “ladrões profissionaisâ€. Segundo o funcionário Gomes Júnior, a pessoa consegue, com rapidez e astúcia, “iludir†o atendente da loja e levar anéis e brincos caros sem que ninguém perceba. Para combater essa prática, a joalheria instalou monitoramento interno e investiu no treinamento dos funcionários.