O mundo está dividido? Claro que sim. Em certo sentido, sempre esteve. Entre grandes e pequenas nações; entre povos desenvolvidos e subdesenvolvidos; entre ricos e pobres. Assim tem sido desde a mais remota antigüidade, mas, agora, o é de forma diferente. Depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo não se dividiu entre vencedores e vencidos, como ocorreu em guerras anteriores. Foram feitos sinceros esforços, que tiveram rápidas e muito positivas conseqüências, para ressaltar a reconstrução e impedir o agravamento dos ódios e ressentimentos criados pela guerra. Um desses esforços foi o Plano Marshall e outro a construção européia baseada na reconciliação franco-alemã.
A divisão do mundo do pós-guerra apoiou-se em dois eixos: um político-ideológico, no qual o Oeste (correspondente ao pólo da liberdade) opunha-se ao Leste (e ao seu projeto de totalitarismo messiânico); no outro, de tipo econômico-social e menos nítido mas persistente, o Norte (desenvolvido) se opunha ao Sul (pobre e não-alinhado). Esse mundo duplamente dividido, que deu lugar à chamada Guerra Fria, acabou em 1989 com a surpreendente queda do muro de Berlim e da “cortina de ferro†e, depois, com o colapso do sistema comunista (1991) como modelo alternativo de sociedade. Os chamados não-alinhados (terceiromundistas) também perderam, em conseqüência, sua razão de ser.
É então, segundo o historiador Eric Hobsbawm, quando começa o século XXI... um século diferente, com realidades, conflitos e desafios muito diferentes dos anteriores. O fim da Guerra Fria não representou, como alguns pensavam, o triunfo universal da democracia nem a universalização dos direitos humanos, embora em ambos os campos se registrassem avanços significativos. A verdade é que o mundo mudou e o próprio capitalismo, como sistema econômico dominante, também experimentou uma mudança: passou de industrial a financeiro.
Segundo o neoliberalismo triunfante, quanto menos Estado (em cada Estado) melhor. Quanto menos organização internacional, melhor. O dogma neoliberal postula que as economias devem abrir-se à competitividade internacional, desmantelando as fronteiras para que o novo império do capital possa apoderar-se de setores antes considerados estratégicos para as economias nacionais: telecomunicações, energia, petróleo, gás natural, transportes aéreos e marítimos, indústrias agroalimentares e, dentro em pouco, talvez, os recursos hídricos. Retira-se da esfera estatal o controle desses recursos estratégicos para privatizá-los como primeiro e inexorável passo para a internacionalização.
Em razão da crescente desordem mundial, agravada e acentuada pelos trágicos atentados de 11 de setembro, o dilema que surge na consciência das pessoas livres é o seguinte: É possível uma globalização alternativa? É possível um mundo diferente, inspirado nos valores éticos e nos princípios do humanismo universalista que orientou os fundadores das Nações Unidas? Os enormes desafios globais que o mundo atual enfrenta só podem ser superados com terapias globais. Nenhum Estado - nem mesmo o mais poderoso de todos - pode resolver seus problemas encerrado em suas próprias fronteiras. A vulnerabilidade dos Estados Unidos, comprovada com horror pelos próprios norte-americanos depois dos atentados de setembro, assim o demonstra. E está destinada ao fracasso a previsão dos defensores da represália e do “olho por olho, dente por denteâ€, com sua sensibilidade de antiga cultura do faroeste. É inútil ignorar a evidência: os problemas globais só podem ser tratados em termos globais. (O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)