A avenida Getúlio Vargas é o novo point das crianças e adolescentes que pedem dinheiro nas ruas de Bauru. Na altura da quadra 7, próximo a um supermercado, atuam um grupo de meninos e um de meninas, num total de mais de dez pedintes que aproveitam os instantes de semáforo fechado para abordar os motoristas.
Para o Conselho Tutelar, aumentou o número de crianças na mendicância. O Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) cobra projetos sociais para atender as crianças.
As meninas, entre 9 e 14 anos, disseram à reportagem que ganham de R$ 5,00 a R$ 15,00 por dia cada uma, dinheiro que elas afirmam levar para casa, para ajudar suas famílias. Os motoristas que passam todos os dias pelo local, preocupados com a situação ou cansados de dar moedinhas às crianças, denunciam que algumas vezes em elas chegam a fazer ameaças se o pedido de ajuda for negado.
A estudante Paula Barbosa, que passa de carro todos os dias pela avenida Getúlio Vargas para chegar à sua casa, conta que uma das meninas bateu duas vezes seu carro com um pedaço de pau após ela ter dito que não tinha dinheiro. “Eu disse que não tinha dinheiro e ela bateu no carro com um pedaço de raiz que estava nas mãos. Foi como se não quisesse bater, mas bateu duas vezesâ€, afirma.
Depois do incidente, Paula fecha os vidros do carro ao passar pelo local. “Eu tenho medo de assalto. Passo todos os dias pelo local e pode ser que eles marcaram meu carroâ€, explica.
Sandra Tardivo, outra motorista que ontem à tarde negou-se a dar dinheiro para as meninas, ressalta que, pelas roupas que elas usam, não parecem precisar de ajuda. “Estou cansada de ajudar. Elas estão aqui todos os dias. São crianças bem vestidasâ€, desabafa.
O chaveiro Alexssandro da Silva Fernandes, que tem um quiosque na calçada da quadra 7 da Getúlio, confirma as ameaças e até agressões por parte das crianças. “Hoje (ontem) mesmo viu uma delas jogando um pedaço de pau em um carro. Se a pessoa não dá, eles também costumam cuspir no carroâ€, diz.
Apesar das reclamações dos motoristas, o delegado Marcelo Haddad, titular do 3.º Distrito Policial, afirma que não foi registrado nenhum caso de constrangimento ou ameaça por parte das crianças que pedem dinheiro na região.
Ele orienta para que o motorista procure a delegacia caso sinta-se constrangido ou receba alguma ameaça. â€œÉ importante registrar a ocorrência para que possamos encaminhar a criança ao Conselho Tutelar ou à Vara da Infância e Juventude, se tiver mais de 12 anosâ€, explica.
A PM também não tem sido acionada para casos de constrangimento e ameaça envolvendo as crianças que pedem dinheiro na Getúlio, segundo o tenente João da Costa Duarte, comandante da Base Sul. Mas a PM tem observado o aumento de pedintes.
As meninas negam as ameaças e agressões e reclamam de alguns motoristas. “Às vezes, eles xigam a gente, tia. Peço na rua porque preciso de dinheiro para ajudar minha mãe. Arruma qualquer serviço para ela, menos limpeza de privadaâ€, afirma a mais nova do grupo, com 9 anos.
Ela conta que mora no Fortunato Rocha Lima e tem mais três irmãos menores, a quem ajudaria. “Meu padrasto trabalha, mas gasta tudo em pinga. Aqui em ganho R$ 5,00 por dia. Sábado, que é um dia bom, às vezes tiro até R$ 15,00, tiaâ€, diz.
Conseg cobra ação
Há meses, Primo Mangialardo, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da área do 3.º DP e das Bases Sul e Centro da PM, alerta para o aumento de crianças pedindo nas ruas de Bauru. Ele cobra do poder público projetos sociais para atender crianças como as que estão mendigando na Getúlio, antes que elas caiam na criminalidade.
Para Mangialardo, o Conselho Tutelar deve levar as crianças que estão na rua para suas casas e cobrar das famílias uma ação enérgica. “Há casos de pais que já foram presos porque o filho não freqüentava a escola. O pai, a mãe, a avó ou alguém tem que se responsabilizar pela criança que é encontrada pedindo na rua. A lei prevê isso. Se não tiver família, tem que abrigarâ€, afirma.
Ele também cobra a fiscalização na venda de cola de sapateiro, para evitar que as crianças que pedem nas ruas passem a usar a droga. “Acho que a fiscalização uma vez por mês nas lojas, para checar se a cola está sendo vendida apenas para maior de 18 anos, ajudariaâ€, diz.
Na opinião do presidente do Conseg, a mendicância é a porta de entrada das crianças para o mundo do crime. “Quando aumenta o número de crianças pedintes, também cresce o número de pequenos furtos. Os maiores usam os menores para furtarâ€, frisa.