09 de julho de 2026
Articulistas

Cúpula da aids: voz solitária


| Tempo de leitura: 3 min

A Cúpula Mundial sobre Aids de Barcelona foi um grito contra a marginalização da vida à qual, pela falta do mais elementar dos direitos humanos, o mundo rico condena milhões de pessoas. Diz o recente relatório das Nações Unidas sobre a aids que, em 2020, morrerão, vítimas dessa doença, 70 milhões de pessoas. É possível que os que apostam no direito à vida possam suportar este genocídio anunciado? É possível que continuemos admitindo que apenas 1,8% das pessoas que precisam de tratamento para o HIV/aids o recebam, porque o resto não pode pagar? Quem fixa os preços? Com que critério? Dizia Peter Piot, na mesa redonda da Unesco: no final, vemos que pode ser mais importante, para levar tratamentos eficazes contra a aids ao Terceiro Mundo, mudar as leis do comércio internacional ou mudar as leis de patentes e propriedade intelectual, do que baratear os preços dos medicamentos. Terrível realidade que nos indica a escravidão à qual seguem condenados os pobres do mundo, os eternos párias da Terra, no mundo do século XXI.

Apela-se para que os países ricos efetivem seu compromisso com as Nações Unidas no sentido de doar US$ 10 bilhões anuais, que serviriam para instaurar programas de uma certa efetividade na luta contra a aids no Terceiro Mundo e que estamos muito longe de conseguir arrecadar. Muitas frases felizes foram ouvidas nestes dias neste fórum interdisciplinar e incomparável da luta contra a aids: “Temos que evitar a transmissão perinatal do vírus, porque as crianças são fundamentais... mas as crianças necessitam de suas mães e de seus pais, por isso é necessário tratá-los”. â€œÉ preciso instaurar medidas preventivas, mas deve-se fazê-lo com pessoas vivas; por isso, devem ser tratados os adultos”. “As medidas preventivas são fundamentais, mas hoje não são aceitáveis se não estiverem acompanhadas de medidas assistenciais e terapêuticas”.

Para poder levar educação, prevenção e medicamentos ao Terceiro Mundo, precisamos desse dinheiro que mencionamos, mas também de um enorme desenvolvimento de infra-estrutura, água, alimentos... e uma longa lista de necessidades. E se resolvêssemos a questão dos medicamentos anti-retrovirais? O que dizer da luta frente ao paludismo.... e a tuberculose... e tantas outras? Podemos nos perguntar do que falamos? De desenvolvimento... e este não será possível só com a mudança do modelo socioeconômico. Para o progresso da humanidade, devemos favorecer a vida e aproveitarmos essas inteligência, as quais, como tesouro único e da evolução, não podemos nos permitir o luxo de não aproveitar. É certo que o esforço econômico que o mundo rico tem de fazer nesse sentido voltará a ele, recompensado em inteligência que contribua para o desenvolvimento global. Por outro lado, toda a pesquisa para resolver o problema da aids está repercutindo com um valor agregado em outros campos da medicina.

Deve-se introduzir um elemento novo no desenvolvimento de remédios e vacinas, o elemento econômico, fazendo com que ao menos uma parte da pesquisa, a financiada com dinheiro público, se oriente nesse sentido do desenvolvimento de medicamentos eficazes e baratos, capazes de serem assumidos pelo Terceiro Mundo. Inteligência, solidariedade, eficiência e generosidade são as quatro pernas da mesa na qual se deve apoiar a luta presente e futura contra a aids, uma luta que possa servir de modelo frente a outros problemas de envergadura que existam. (O autor, Rafael Nájera Morrondo, é presidente da Sociedade Espanhola Interdisciplinar da aids (SEISIDA) e diretor do Instituto de Saúde Carlos III)