08 de julho de 2026
Auto Mercado

Em nome da popularização

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

“No mundo de hoje tudo se adapta às necessidades das pessoas. Porque não fazê-los para as pessoas que possuem problemas físicos?”. Essa é a reivindicação do comerciante aposentado Nelson Barbosa Gomes, 49, residente em Duartina, que cobra das montadoras nacionais a fabricação de carros populares adaptados para os deficientes físicos.

Segundo Nelson, atualmente o mercado oferece apenas automóveis de porte grande e normalmente mais caros, como Santana Quantum ou Monza, dotados com transmissão automática, um dos equipamentos imprescindíveis para os deficientes. “Temos isenções de impostos, como o IPVA, mas não nos adianta nada, pois veículos populares, mais baratos, não existem para nós”, afirma ele.

O aposentado, que é portador de deficiência física em uma das pernas, considera que apenas os deficientes físicos com melhor poder aquisitivo podem adquirir os veículos comercializados atualmente no mercado. “Nem se encomendarmos, segundo informações de funcionários de concessionárias bauruenses, seria possível conseguir carros populares adaptados”, ressalta o duartinense.

Nelson, dono de um Santana Quantum 96 automático pelo qual pagou R$ 17 mil, conta que uma montadora lançou, em 1996, um carro voltado para deficientes físicos, mas que não lhe foi muito útil. “Tive de vendê-lo porque não consegui me adaptar. O freio era na mão e tinha dificuldade com a embreagem”, destaca ele.

Por isso, o aposentado defende a inclusão da transmissão automática entre os veículos populares. “Ela torna o automóvel mais fácil de dirigir, mas encarece o custo final do veículo. Mesmo assim, com a isenção de imposto o negócio acaba compensando para nós”, frisa Nelson. “No meu caso e de outros que apresentam problema nas pernas, o câmbio automático já resolveria a questão”, salienta ele.

O duartinense acrescenta que os veículos populares ocasionariam uma dupla economia para os deficientes físicos. “Além de estarmos comprando um carro naturalmente mais barato que os outros, nos beneficiaríamos com a ausência da cobrança dos impostos”, pondera Nelson.

O aposentado enfatiza, ainda, que chegou a pensar em comprar um automóvel popular e, em seguida, adaptá-lo em uma oficina especializada. Entretanto, desistiu da idéia, segundo ele, pelo alto preço do serviço. “Fica muito caro. Não fiz levantamento de preços, mas pelo que tenho conversado com outras pessoas, também deficientes, a colocação dos equipamentos no veículo não compensaria”, diz.

Adaptações

O bauruense Anderson Petenuci, proprietário da Prontomatic, empresa especializada em adaptações para portadores de deficiências, ressalta que atualmente é possível efetuá-las em qualquer veículo do mercado, seja de segmentos populares ou de luxo. E a um custo, segundo ele, que não é “absurdo”.

Anderson explica que o tipo de deficiência definirá a adaptação a ser executada. “Fazemos para carros populares no caso da deficiência ser nos membros inferiores. Agora se ela for no braço, a pessoa dependerá de um veículo automático, pois é inviável transformar um automóvel com câmbio mecânico em automático”, afirma.

Ele exemplifica que o serviço de automação de embreagem, que deixaria o carro teoricamente parecido com um automático, custa cerca de R$ 1.680.00, independente de ser popular ou não. “Não é um preço absurdo”, considera Anderson. “A vantagem é que o deficiente poderá escolher qualquer veículo no mercado, abrindo um leque de opções, enquanto carros automáticos são normalmente de luxo e beberrões”, acrescenta.

Além disso, segundo Anderson, tais equipamentos são eficientes, não comprometem a segurança ao rodar e podem ser desligados a qualquer momento. “Assim, o carro poderá ser dirigido de maneira convencional por pessoas que não possuam deficiências físicas”, diz ele.

Anderson afirma acreditar que as transmissões automáticas passem a equipar automóveis mais baratos. â€œÉ uma tendência. Assim, os carros não serão voltados aos deficientes, e sim poderão ser aproveitados por eles”, finaliza ele.

Conselho apóia

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 6% da população brasileira é portadora de pelo menos uma deficiência. Em Bauru, segundo o último censo realizado em 1993 e coordenado pela Secretaria do Bem Estar Social, havia cerca de 15.645 pessoas com alguma deficiência. Desse total, o levantamento contabilizou, na época, exatos 3.973 deficientes físicos.

Entretanto, conforme acredita Francisco Takao Kajino, coordenador geral do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Comud), atualmente tal número já deva atingir 6 mil pessoas, o que representa um crescimento entre 25% a 51% durante os últimos sete anos.

Kajino apóia a iniciativa do duartinense ao reivindicar das montadoras os carros populares aos deficientes. “Concordo plenamente com ele, pois já estamos em desvantagem na locomoção e veículos mais baratos certamente nos auxiliaria. Mais do que uma questão mercadológica, há que se respeitar os deficientes”, considera ele.

O coordenador do Comud ressalta, ainda, que os portadores de algum problema físico podem optar também pelas adaptações nos veículos. “Não há nem a necessidade do carro ser automático. Já há no mercado equipamentos eletrônicos do gênero”, finaliza Kajino.

Necessidade x Mercado

O astrólogo JoãoBidu, que também preside uma entidade bauruense de auxílio e inclusão do deficiente físico, a Sorri, concorda com as reivindicações do aposentando duartinense. Mas ele pondera: “Realmente, as montadoras não atendem a clientela com deficiência porque os carros dotados, por exemplo, com transmissão automática são mais luxuosos.”

O grande problema, considera Bidu, é que o brasileiro ainda nutre certa antipatia por tais câmbios, o que atrapalharia uma maior massificação do sistema. “Mas isso também está se alterando e, conseqüentemente, poderemos encontrar carros automáticos em todos os segmentos de comercialização”, afirma ele.

Entretanto, Bidu destaca que o lançamento de carros populares adaptados para deficientes físicos está intimamente ligado à questões mercadológicas. â€œÉ preciso levar em conta qual parcela da população deficiente terá condições de comprar tais automóveis e o que isso significa para as montadoras. Não sabemos o quanto isso seria economicamente viável para elas”, argumenta o astrólogo.

Apesar disso, Bidu, que também é portador de deficiência física, salienta que o mercado para tal população tem registrado avanços. “Há alguns anos, quando precisava comprar carros automáticos, as opções eram, no máximo, duas ou três e sempre nas versões top de linha, os mais luxuosos e caros. Isso já não acontece hoje e, por isso, as pessoas devem continuar lutando para que a situação melhore ainda mais”, conclui.

Montadoras mantém programas

Entre as principais montadoras nacionais, duas possuem programas específicos voltados à população com problemas físicos. A Fiat lançou este ano, durante a Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação e Inclusão (Reatech), os Palios ELX e Weekend ELX e Siena ELX com dispositivos especiais do Autonomy, programa implantado pela fábrica no Brasil em julho de 1996.

Desde então, a Fiat e sua rede de concessionárias, segundo a assessoria de imprensa, comercializou no período cerca de 3 mil veículos para o público em questão. Com o Autonomy, o cliente portador de deficiência física pode optar por sistemas que incluem acelerador manual de aro ou por alavanca, freio de serviço por alavanca ou vertical, embreagem automática e inversão do pedal do acelerador.

A Volkswagen lançou, durante a mesma Reatech, o programa Mobilidade para dar atendimento aos portadores de deficiência física. Para isso, a montadora fez parceria com uma empresa de adaptações e homologou quatro modelos para atender a esse nicho de mercado: Gol, Parati, Santana e Golf.

A Ford, através da assessoria de comunicação, informou que não há veículos populares adaptados para deficientes físicos e nem previsão para que venham a ser lançados no mercado.

A assessoria de imprensa da General Motors relatou que o novo Corsa 1.0, modelo popular lançado recentemente pela empresa, conta como opcional o sistema de embreagem automática, o autoclutch. O equipamento pode ser adquirido a um custo de cerca de R$ 1.500,00.