09 de julho de 2026
Bairros

Fiéis mantêm peregrinação de imagens

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Todas as semanas, invariavelmente, a professora Maria Teresa Turtelli Gil de Souza tem um compromisso inadiável. Ela se junta a um grupo de aproximadamente 25 pessoas para rezar o terço e exaltar Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. “Quando estamos juntos, a oração fica mais forte”, conta.

A equipe é aberta e sempre ganha novos adeptos. A cada semana, as pessoas se unem na casa de um companheiro para rezar e pedir proteção a Nossa Senhora. A imagem da santa, que foi colocada em uma capelinha, acompanha os fiéis a cada terço e permanece por sete dias na casa do anfitrião, como uma forma de sacramentar a presença de Deus.

A base da equipe é o Jardim América, bairro de classe média localizado na zona sul da cidade.

Maria Teresa conta que o grupo teve início há cerca de três anos, quando um amigo dos integrantes estava muito doente. “Nós nos reunimos para rezar e pedir a Deus que desse saúde para essa pessoa, muito querida entre nós. A partir daí, não deixamos mais de nos reunir”, salienta.

O amigo em questão acabou falecendo em virtude do problema de saúde, mas isso não enfraqueceu a equipe. “Pelo contrário, rezamos durante sete dias seguidos, até a missa de sétimo dia do nosso amigo e nos unimos ainda mais”, conta a professora.

Em Tibiriçá, mudam as santas, mas o costume é o mesmo. Lá os fiéis exaltam as imagens de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora das Graças. São dois grupos distintos, que se reúnem semanalmente para cultuar o costume.

Segundo a dona-de-casa Iracema Rodrigues Ferraz, uma das integrantes da equipe, o costume é de grande importância para os fiéis do distrito, principalmente porque o padre da capela não mora no local. “O padre só vem uma vez por semana para rezar a missa. Durante os outros dias, precisamos fortalecer a nossa fé nos unindo”, salienta.

Ela diz que os próprios habitantes do local se mobilizam para garantir a continuidade das tradições. “Como aqui quase todo o mundo se conhece, é bem mais fácil reunir as pessoas em torno da fé”, garante.

Fortalecimento espiritual

Para os praticantes dos costumes religiosos, a união de forças em torno de um objetivo comum é o que atrai cada vez mais gente para a prática das tradições. â€œÉ um momento de reflexão que nos auxilia a melhorar o dia-a-dia”, conta a professora Maria Teresa.

A reunião do grupo de orações também fortalece os vínculos de amizade e solidariedade. “Quando sabemos que alguém está precisando de algo, nós nos mobilizamos e procuramos ajudar, seja financeiramente, fazendo doações, ou espiritualmente, com oração”, explica.

Maria Teresa lembra que a função do grupo de orações, na verdade, não é promover ações sociais, mas que não há como deixar de lado o espírito de colaboração. “Temos pessoas de várias profissões no nosso grupo e cada um contribui com o que pode para ajudar alguém que esteja necessitado.”

Ela diz que o objetivo principal é realmente rezar e pedir proteção para Nossa Senhora. “Sempre fazemos um pedido antes de começar o terço. O que temos conseguido de graça é uma coisa fantástica.”

De acordo com o monsenhor Darcy de Almeida Pinto, da Igreja Senhor Bom Jesus, apesar do terço ser considerado uma tradição antiga, o ato de reunir as pessoas em residências para rezá-lo é uma prática mais moderna. “As congregações e apostolados são o embrião desses grupos de orações”, destaca.

Ele conta que antigamente as equipes tinham uma associação mais concreta, que contava inclusive com estatutos e regimentos. “A modernidade traz muitos empecilhos para as tradições. As práticas que eram constantes no passado, hoje estão diminuindo”, frisa o monsenhor.

Para Maria Teresa, a continuidade das tradições depende muito do que os pais ensinam para os filhos. “A devoção é algo que vem de dentro para fora. Mas os pais devem incutir nos filhos esses valores religiosos, rezando sempre em casa e passando essa admiração por Nossa Senhora”, salienta.

Já o monsenhor Darcy aposta na reciclagem de costumes como forma de garantir a sobrevivências das tradições. “O contexto muda constantemente e é preciso estar atualizando as tradições, sem perder as raízes.”

Pelo alto-falante

Semelhante a uma cidade pequena, o distrito de Tibiriçá mantém alguns costumes que não são mais praticados nos bairros de Bauru.

Um deles é a comunicação do velório através de um alto-falante instalado na praça central do distrito.

A dona-de-casa Iracema Rodrigues Ferraz, que mora em frente à capela de Nossa Senhora Aparecida, em Tibiriçá, explica que a prática é realizada mediante autorização da família. “Antigamente o anúncio era feito usando-se o sino da capela”, lembra.

Como a badalada do instrumento tinha um som muito triste, aos poucos as pessoas foram pedindo para que ele não fosse tocado mais.

Depois da instalação do alto-falante, a comunicação do falecimento passou a ser feita com o equipamento de som. “Através de um aviso ficamos sabendo o dia, a hora e o local do velório”, conta Iracema, mais conhecida como “dona” Lola.

Ela destaca que é costume entre os moradores de Tibiriçá o consolo à família do falecido. “Mesmo que não conheça a pessoa que morreu ou seus familiares, todo o mundo vai ao velório. É uma forma de respeito e condolência”, diz a dona-de-casa.

Outra tradição é cantar durante o sepultamento. “As pessoas acompanham o enterro entoando cantos religiosos”, afirma.

Como o padre não mora no distrito, quando ele não pode se dirigir ao local para dar a benção ao falecido, o ministro da igreja assume a função.