07 de julho de 2026
Bairros

Benzedeiras representam crença e fé

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

A figura daquela senhora sábia e com a casa cheia de plantas e imagens de santo, que benze as pessoas e cura o susto de todas as crianças, continua firme e forte em Bauru. Amaioria dos bairros tem a sua benzedeira-símbolo, aquela pessoa que basta perguntar na rua que todo o mundo sabe onde mora.

Jovita Nunes Rodrigueiro, uma senhora de 87 anos, moradora da Vila Falcão, por exemplo, já virou lenda.

Ela faz consultas espirituais em sua casa há cerca de 30 anos. Mas, nos últimos três anos, só tem atendido crianças. “Eu estou muito doente, tenho problema no coração e o médico me proibiu de benzer. Mas eu não posso deixar uma mãe desesperada vendo o filho com quebrante ou ‘bucho virado’”, salienta.

Ela diz que recebe pessoas de todos os bairros de Bauru, que a procuram em busca de uma benção. “Eu sempre me senti muito bem por benzer as pessoas e faço isso com prazer”, destaca.

Jovita diz não saber de onde vem a energia que ela passa aos outros, mas diz que o resultado é sempre positivo. “Eu não sei explicar por quê isso acontece, mas a criança entra aqui assustada e chorando e sai calma e sorrindo”, descreve.

Ela recebe pessoas a qualquer hora em casa e diz não utilizar nenhum outro instrumento a não ser a oração. “As pessoas têm muita fé na benção e isso ajuda na cura desses problemas espirituais”, conta.

Adelaide Moreira André, a Adê de Oxum, tem um centro de candomblé no Parque Vista Alegre. Além de mãe de santo, ela também é uma conhecida benzedeira do bairro.

Ela explica que as pessoas que a procuram como benzedeira são de religiões distintas. “Benzedeira não é uma religião, é uma crença. As pessoas quando têm algum problema de saúde ou de cunho espiritual me procuram para receber as bençãos”, diz.

A maioria delas são mães em busca de tratamento para "bucho virado" e quebrante. Adê de Oxum explica que o primeiro assemelha-se aos sintomas da desidratação e o segundo, é mau olhado.

De acordo com ela, o que ajuda na cura é a transmissão de energia da benzedeira para o “paciente”. “Para dizer a verdade, qualquer pessoa pode benzer. Ela só tem que ter fé e transmitir energia positiva através da oração”, explica.

A benzedeira diz que atende cerca de seis ou sete pessoas por dia, em busca de tratamento.

Para benzer, ela utiliza a bíblia e muita oração, nada além disso. “Eu peço para a pessoa que está acompanhando quem eu vou benzer para ler um salmo da bíblia enquanto eu faço as minhas orações”, conta.

Ela diz que a benção deve ser feita sempre durante o dia, pois a força do sol ajuda na transmissão da energia.

De acordo com o professor da Universidade do Sagrado Coração (USC), Antonio Carlos da Silva Barros, mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, a prática da benção é algo que está incutido na cultura popular.

Ele ressalta que, oficialmente, a religião católica não aceita as benzedeiras. No entanto, não tem como negar a influência delas na formação religiosa dos fiéis. “A força da benção é algo que está presente dentro do espaço da religiosidade e faz parte da construção da fé das pessoas”, explica.

Isso explica porque esse tipo de prática é tão procurada, independentemente da religião da pessoa. “Isso passa de pai para filho. É uma questão de fé. As pessoas acreditam que a benção é uma intercessão de Deus através de um instrumento humano”, conta o estudioso.

Folia de Reis

O Grupo Folia de Reis de Bauru existe desde meados da década de 70. Ele se apresenta todos os anos, no dia 6 de janeiro, pelas ruas do Núcleo Bauru 16.

Os foliões, vestidos com fardas coloridas, fazem uma peregrinação pela vizinhança e recolhem doações com colaboradores. Tudo pode ser doado, de comida a dinheiro.

As oferendas são dadas em nome dos três Reis Magos e não podem ser levadas para casa, conforme a regra do grupo.

Os alimentos são preparados na casa do festeiro, no dia da festa. O que sobra é doado para entidades assistenciais.

Um dos momentos mais importantes da festa é a chegada da bandeira com a imagem dos Reis Magos à casa do festeiro. O estandarte ficará no local durante um ano, até que se inicie novamente a peregrinação.