Do ponto de vista orgânico, a puberdade é caracterizada por uma alteração na produção de hormônios. Agora, meninos têm mais testosterona e meninas têm mais estrogênio e progesterona. O resultado mais visível disso são as alterações do corpo, que vêm acompanhadas de perto por mudanças no modo de entender e encarar o mundo.
â€œÉ um mundo novo de emoções. De repente, tudo parece mudar, o corpo se transforma, os pensamentos se modificam e os sentimentos se alternam entre a vontade de ser livre e tomar as próprias decisões e o desejo de correr para o colo dos pais no primeiro obstáculo. Não se assuste. Isso é apenas por um tempoâ€, explica a ginecologista Carla Lambertini Bonjorno.
Segundo ela, as transformações físicas nas garotas começam por volta dos 10 anos. A cintura afina, o quadril alarga e os seios despontam. Aparecem os primeiros pêlos nas axilas e nos genitais.
Menarca
“O aparelho reprodutor amadurece e vem a primeira menstruação, chamada menarca. As meninas nem sempre ficam muito satisfeitas com a idéia de menstruar todos os meses e é comum as primeiras menstruações serem irregulares, pois o controle hormonal ainda não está totalmente estabelecidoâ€, ressalta.
A médica explica que a menstruação nada mais é que uma descamação da parede interna do útero (chamada endométrio) que se prepara todos os meses para receber uma gravidez.
O organismo cria uma “cama†para receber o óvulo fecundado, que se transformará no bebê. Quando isso não acontece, esse “ninho†se desfaz e é eliminado na menstruação. Então, começa a ser formada uma nova “cama†para o próximo mês.
“Como isso ocorre? Existe uma glândula no cérebro chamada hipófise. Uma de suas funções é controlar o funcionamento do aparelho reprodutor. Quando ocorre uma menstruação, essa glândula manda uma ordem para que os ovários comecem a amadurecer um óvulo e a produzir um hormônio chamado estrogênio. O estrogênio faz o útero se preparar para a gravidez, engrossando a camada interna - o endométrioâ€, descreve.
O amadurecimento de um óvulo demora alguns dias. Quando ele está pronto, a hipófise ordena ao ovário que ele seja solto e ele começa a percorrer um caminho em direção ao útero. Este processo chama-se ovulação e é o período em que existe a chance de ocorrer a gravidez.
“Após a ovulação, o ovário passa a produzir outro hormônio - a progesterona, que faz engrossar o endométrio para abrigar uma possível gravidez. Se não ocorrer a fecundação, que é o encontro do óvulo com o espermatozóide, em até 48 horas, o óvulo é absorvido e essa camada interna do útero não precisa mais existir. Ela descama após 14 dias da ovulação. Isso é a menstruaçãoâ€, afirma.
Entre eles
Nos meninos, esse processo aparece um pouco mais tarde, por volta dos 12 anos. Eles começam a crescer muito rapidamente, a voz engrossa, aparecem pêlos no bigode, barba, axilas e genitais e há um aumento de tamanho do pênis e testículos.
“Esta, aliás, é a maior preocupação dos rapazes nesta época. Inclusive porque o pênis é a última coisa a crescer. E eles têm mania de se comparar com os amigos. Isso não é bom, principalmente porque, às vezes, o amiguinho entrou na puberdade aos 12 anos e a dele só começa por volta dos 13-14 anosâ€, observa a pediatra Maria Luiza Cury, especialista em medicina do adolescente.
O urologista Aguinaldo Nardi explica que o que acontece é um desencontro neste desenvolvimento. “O ganho de estatura é proporcionalmente muito mais rápido. E o crescimento do pênis é lento quando você compara com a altura. Então, o rapaz troca o tom de voz, começa a fazer a barba, mas o pênis ainda não tem tamanho de adulto. Isso vai acontecer por volta dos 15-16 anosâ€, assegura.
Segundo Nardi, a família precisa estar atenta a essas dúvidas e explicar as etapas do desenvolvimento para não criar pânico no adolescente. “Existem situações, por exemplo, em que o pênis aparentemente é pequeno, mas é o que está em volta dele que é maior, ou seja, a gordura. Crianças que têm gordura suprapúbica (na região genital) podem ter o chamado pênis embutido. Ele fica encoberto pela gordura, mas tem tamanho normalâ€, comenta.
Neste caso, o problema pode ser resolvido com uma cirurgia que retire o excesso de gordura. â€œÉ diferente do micropênis, que é uma doença e que há baixa produção de hormônio masculino. Nesse caso, o pênis é pelo menos 2,5 vezes menor que o normal e os testículos também são pequenos, sendo fácil identificarâ€, completa.
Outro problema que pode aparecer na adolescência, segundo o urologista, é a varicocele, muito parecida com as varizes das pernas. Trata-se de uma dilatação dos vasos sangüíneos que vão até os testículos. Quando isso acontece, pode causar redução do volume testicular e predispõe à infertilidade. Em casos severos, os médicos recomendam a cirurgia para garantir uma melhor taxa de fertilidade no futuro.
Mudança física gera conflitos emocionais
De acordo com a pediatra Maria Luiza Cury e o urologista Aguinaldo Nardi, a transformação do corpo pode causar alguns conflitos emocionais durante a puberdade. “Às vezes, a pessoinha perde a sua identidade. Ela estava acostumada com o corpinho de criança e se assusta com as mudançasâ€, comenta.
Ela afirma que há casos em que o mal-estar psicológico é tamanho que chega a propiciar o aparecimento de doenças realmente. Em outros casos, como salienta o urologista, os adolescentes manifestam sintomas como meio de buscar uma explicação para o que está ocorrendo com eles.
“Então, eles dizem aos pais que estão sentindo dor no testículo, dor para urinar e é apenas uma tentativa de ir ao médico para tirar suas dúvidas. Eles querem perguntar alguma coisa e não sabem como. Os pais devem estar atentos para issoâ€, completa o médico.
Cury salienta que a adolescência é um período de muitas dúvidas e que o medo sobre o que pode acontecer gera ansiedade. “Ansiosos, os jovens tendem a exagerar na alimentação e isso pode resultar em obesidade, com todas as suas repercussõesâ€, afirma.
A pediatra lembra que os pais devem manter o diálogo regular com os filhos, mas que, às vezes, é preciso intervir e dizer não. “Eu costumo dizer: mãezinha, o dinheiro é seu, você compra a comida, então você tem o controle. Deixe que ele brigue, chore, bata a porta, fique uns dias sem falar com você. Isso não vai fazer mal à saúde dele. Mas a obesidade vaiâ€, exemplifica.
Ela alerta que os pais têm que ajudar os jovens nessa fase da vida, porque isso vai ser cobrado por ele mais tarde. “Um dia, ele pode questionar que você viu que ele estava engordando e não fez nadaâ€, completa.