08 de julho de 2026
Saúde

Despertar da sexualidade exige apoio

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A “overdose” hormonal por que passam os adolescentes desencadeia, também, a descoberta da sexualidade. A observação do corpo em transformação desperta novas sensações e prazer. Um processo natural que precisa ser encarado com respeito, clareza e maturidade - por todos os membros da família.

Especialistas entrevistados pelo JC Saúde defendem que a maneira como o adolescente lida com a sexualidade depende diretamente de como a questão é vivida dentro de casa.

“Quem tem uma formação de personalidade num ambiente carinhoso, onde os pais se beijam, se tocam, tem uma percepção melhor do que é sexo. Indivíduos que crescem em famílias sem envolvimento amoroso terão um desenvolvimento tardio ou mesmo desvios de sexualidade”, alega o urologista Aguinaldo Nardi.

Para a pediatra Maria Luiza Cury, o equilíbrio familiar é fundamental nesse processo. Ela alerta que o jovem precisa ter um porto seguro, precisa sentir confiança em procurar os pais quando tiver dúvidas. Isso requer abertura absoluta ao diálogo, mas sem imposições, nem repressões baseadas em falsos moralismos.

Pressão social

Cury ressalta que esse respaldo familiar é essencial nos dias de hoje, quando os adolescentes sofrem uma pressão social para o início da vida sexual. “Antigamente, as meninas eram forçadas a permanecer virgens e hoje elas são forçadas a transar. É uma situação difícil, porque são as próprias coleguinhas que criam esse mal-estar. As que já transaram ficam cobrando uma atitude de quem ainda não transou”, observa.

A pediatra conta que já atendeu pacientes que se sentiam doentes porque todas as amigas estavam transando e elas não haviam nem dado seu primeiro beijo. “Uma garota estava se sentindo fora do contexto e dizia que devia estar doente, que devia haver algo nela que não deixava essas coisas acontecerem. Eu comecei a observar e percebi que isso estava acontecendo com muitos adolescentes”, afirma.

Ela cita, ainda, o caso de duas amigas que foram excluídas da lista de convidados para uma festa porque não queriam “ficar” com ninguém. “A organizadora da festa estava montando os pares e simplesmente não convidou as duas quando soube que elas queriam se divertir sem formar pares”, comenta.

A médica salienta que esta situação tem levado inúmeros adolescentes a iniciar sua vida sexual sem ter o devido preparo para isso, correndo o risco de ter complicações sérias no futuro, como episódios de impotência sexual e frigidez.

“A maior prova disso é a enorme quantidade de garotas que estão abortando. Significa que as meninas estão partindo para as relações sexuais sem estarem preparadas”, observa o psiquiatra de adolescentes Içami Tiba.

Para ele, até a idéia do “ficar”, criada pelos adolescentes como forma de se conhecer sem compromisso, já perdeu sua função inicial. “Eu digo que é um namoro do meio, bem entusiasmado. Mas quando eles enjoam do parceiro, apertam o controle remoto e trocam de menina ou de rapaz. De repente, uma coisa que antes servia para conhecimento, agora virou mais uma farra”, salienta.

Tiba apelida esses adolescentes de “serial kissers”. “Não tem o ‘serial killer’, o assassino em série? Esses beijam em série. Faz parte de uma etapa de conhecimento e crescimento. E uma das maneiras dele se conhecer é ver até que ponto ele consegue as coisas”, comenta.

Segundo ele, porém, a falta de limites tem levado os jovens às promiscuidade - algo nada bom para o desenvolvimento físico e emocional dos jovens.

Troque o ‘quando?’ por ‘por quê?’

Na opinião da pediatra Maria Luiza Cury, a melhor maneira que o adolescente tem para saber qual é o momento ideal para iniciar a atividade sexual é se perguntar “por quê”. Ela afirma que não existe um tempo ideal, mas é indispensável que o jovem tenha consciência do que quer, que tenha um objetivo capaz de sustentar sua decisão.

“Se você diz que quer transar agora porque a sua turma toda já transou, isso não é motivo. Eu percebo que, hoje, o adolescente vai na ‘onda’ e muitas vezes não sabe exatamente o que quer. Ele precisa começar a pensar por si só. Quando criança, ele não pensava, só era conduzido. Agora, as decisões passam a ser dele e ele tem que meditar sobre seus objetivos para adquirir maturidade e escolher bem”, sugere.

A médica ressalta que toda criança é movida pelo prazer. Ao atingir a adolescência, esse prazer tem que vir acompanhado de uma motivação, um objetivo. Sem isso, esse jovem não aprende a amar. Para ela, cabe aos pais ajudar seus filhos a refletir.

Cury salienta que nem sempre o que o adolescente quer é o que os pais querem para ele. Quando isso acontece, é preciso dialogar, sem imposições. Se os pais têm um argumento forte para se opor à vontade do filho, eles podem convencê-lo, meditando junto com o jovem.

A médica adverte que toda orientação passada pelos pais no processo de educação dos filhos precisa ter conteúdo. “A adolescência é um período em que ele está aprendendo a agir e pensar por si, mas ainda precisa de apoio. A qualidade desse apoio é que determina o poder de decisão que esse adolescente terá no futuro para todas as situações de sua vida”, conclui.