08 de julho de 2026
Ser

Madrasta boazinha

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 10 min

Roberta Palermo, 33 anos, há sete madrasta de duas crianças, hoje com 11 anos e 8 anos, desde o início de seu relacionamento sempre se preocupou em se antecipar aos problemas que pudessem acontecer nesse namoro, muitas vezes conturbado.

Ao agir desse modo, quando o problema aparecia, ela já tinha a solução ou era bem mais fácil conduzi-lo. Dia-a-dia ela percebia que o relacionamento com seu marido estava baseado em amor, bom-senso e conta que sempre se colocava no lugar do outro antes de se precipitar e criar um clima de confronto. O casal afirma que vive muito feliz, dialoga muito e tem um lar tranqüilo, alegre e feliz para receber as crianças.

Roberta diz estar realizada como madrasta e espera que com sua experiência positiva possa judar outras mulheres que estejam namorando ou casadas com um homem que já tenha filhos.

Jornal da Cidade - Como surgiu a idéia de escrever um livro que fala sobre o papel da madrasta? Roberta Palermo - Eu estava vivendo o papel da madrasta. Quando comecei a namorar o meu marido procurei livros, revistas, algum material que falasse sobre o dia-a-dia das mulheres que se tornavam madrastas e nada encontrei. Fiquei em alerta diante desta nova situação, pois normalmente esse é um relacionamento repleto de problemas. Eu mesma tive uma madrasta e nosso relacionamento foi muito ruim, pois ela tinha ciúmes de mim com o meu pai. Dia-a-dia eu percebia que tudo estava correndo muito bem conosco e quis escrever esse livro para mostrar para outras mulheres e famílias que esse é um relacionamento que pode ser difícil sim, mas que pode dar certo e trazer muita alegria.

JC - Como foi a sua experiência como madrasta? Roberta - Foi muito boa desde o início. Eu não tive ciúmes da ex-esposa de meu marido, nem de seus filhos e soube conduzir bem o nosso dia-a-dia. Sempre dialogamos sobre todos os assuntos polêmicos que poderiam até virar uma discussão, mas acabamos nos entendendo e criando regras juntos. Foi muito importante eu e o meu marido termos uma educação bem parecida. Dificilmente nos desentendemos. Quando ocorre um problema, o resolvemos pacificamente e concordamos com tudo em relação a educação das crianças quando estão em nossa casa. Se brigas constantes causaram a separação dos pais da criança, é importante para elas verem que o pai e a madrasta se entendem bem para sentirem segurança nesse relacionamento.

JC - Claro que cada caso é um caso. Há aqueles em que as crianças não se incomodam muito. Como também pode acontecer da criança não aceitar de jeito nenhum. Como você trabalha com esses dois lados? Roberta - Falo para as pessoas usarem três ítens fundamentais para viver bem: amor: pelo marido, pela criança; bom-senso: na hora de tomar atitudes, resolver problemas e, se colocar no lugar do outro: se a ex-esposa não pára de telefonar, tente primeiro ver se ela realmente não está mesmo precisando de ajuda com a criança antes de reclamar. Ela pode estar se sentindo só para resolver problemas com a crianca e a ajuda do pai é fundamental. A madrasta pode ficar em alerta e alertar o pai caso ele não perceba que ela está querendo atrapalhá-los. Quando isso acontece, é importante que a madrasta veja se as atitudes tomadas pelo pai diante dos problemas que vão aparecendo são as que ela espera dele. Tudo tem que ser pensado. A mulher não pode entrar nesse relacionamento achando que depois resolve os problemas. Eles só aumentam a cada dia se não forem resolvidos diariamente.

JC - A palavra madrasta ainda é utilizada? Não fica associada com aquela mulher má, que não gosta dos filhos do marido? Roberta - A palavra madrasta é a única que existe no “mercado” para designar o papel dessa mulher na família em que ela vai se “instalar”. Não concordo com o termo “segunda mãe” e alguns derivados que aparecem, pois para mim mãe só existe uma. A madrasta pode ser a melhor amiga da criança, sua confidente. A ex-esposa e a criança aceitarão melhor essa mulher se perceberem que ela não quer tomar o lugar da mãe, e sim participar positivamente nessa família. A palavra madrasta ainda está associada com a mulher má, pois existiu e ainda existe muita madrasta que não é boa. Os contos de fada reforçam o adjetivo de má. No dicionário podemos encontrar essa palavra querendo dizer: pouco carinhosa, ingrata. Já existe, porém, muitas mulheres querendo acertar, querendo ser boas para os filhos de casamentos anteriores e quem sabe, no futuro, passemos a não nos arrepiar mais quando escutarmos essa palavra.

JC - Pode acontecer de pais que desistem do novo relacionamento, mesmo amando, só para não encarar ou magoar os filhos? Roberta - Acho que existe de tudo. Já vi muitos casos de mulheres que não quiseram se relacionar com um homem para não levar um estranho para dentro de casa por causa dos filhos. Acho que elas estão erradas, pois os filhos vão crescer e elas se sentirão sozinhas um dia. Acho que os homens nem sempre abrem mão de um relacionamento por causa dos filhos. Normalmente, a guarda da criança é da mãe e ele tem mais liberdade em sua casa para receber a namorada. Se um homem vive bem com a nova mulher deve tentar, desde o início, manter um clima de harmonia para não ter que chegar a um impasse de abrir mão ou não do relacionamento por causa dos filhos. O que vejo muito, são homens que se tornam ausentes após iniciarem um novo relacionamento. Uns desaparecem, não visitam mais a criança. Os motivos são diversos. Má influência da madrasta (não que isso justifique a omissão do pai), desentendimento constante com a ex-esposa entre outros.

JC - Você dá algumas dicas no seu livro? Roberta - Dou muitas dicas. Falo também de situações que não vivi, mas pensei em como agiria se acontecessem comigo. Tentei abranger a maioria dos problemas que ocorrem nesse relacionamento em famílias reconstituídas.

JC - É comum que a ex-mulher, mãe das crianças, não fique muito feliz com o relacionamento do ex-marido e coloque empecilhos na convivência dele com as crianças. Ou seja, só permite que ele saia com as crianças se a nova namorada não for junto. Ou ainda ela pode colocar as crianças contra a nova namorada do pai. Como agir nesses casos? Roberta - É muito comum a ex-esposa falar mal da madrasta para a criança e a maioria dos problemas começa aí. A criança chega na casa do pai já com pedras na mão e, na verdade, nem sabe porque não gosta da madrasta. A criança será fiel à mãe e os problemas de relacionamento serão horríveis. Nessa hora, a madrasta deve assumir uma postura de se colocar no lugar dessa criança e entender que ela está sendo manipulada. Demonstrar apenas boas atitudes em relação a ela, tentar conversar, manter um clima de harmonia e deixar o tempo mostrar que essa mulher não é como a mãe diz. É normal que a ex-esposa sinta ciúmes.

Coloque-se no lugar dela: uma mulher estranha que vai conversar, cativar, presentear seu filho. Estará envolvida na educação também. E se a madrasta não for educada, falar palavrões e tiver outros maus hábitos? Será importante que o pai converse muito com a criança e fale sobre esse novo relacionamento, como está feliz, etc. Acho importante a criança conhecer a madrasta antes de saber que esta é uma candidata a namorada do pai. Primeiro ela deve ser uma amiga “legal” do papai. O encontro pode ser na casa dos pais dele. Esta é uma oportunidade para a criança conhecer a madrasta sem interferência de ninguém. Se a madrasta tiver boas atitudes, esses momentos iniciais ficarão marcados para sempre, mesmo que depois a mãe fale mal quando souber do novo relacionamento. A criança pode até tratar mal a madrasta, mas fica mais fácil para essa recuperar o relacionamento no futuro.

JC - Como a madrasta deve agir quando as crianças passam a gostar tanto dela, que acabam dizendo que a preferem à mãe? Roberta - A mulher sente-se muito honrada quando percebe que a criança gosta tanto dela que gostaria que ela fosse sua mãe, mas deve ficar bem claro tanto para a criança, como para a madrasta que isso não é possível. Mesmo que a mãe tenha falecido, a lembrança desta para a crianca é muito importante. A madrasta pode ser a melhor amiga, nunca uma segunda mãe. Se ela agir assim, terá inclusive o apoio da mãe que verá que ela não quer tomar o seu lugar. Na maioria das vezes também fica mais fácil para a criança que sabe que não terá uma pessoa estranha querendo mandar nela. Portanto, se isso acontecer, a madrasta deverá dizer que também gosta muito dela, mas que ela já tem uma mãe muito especial.

JC - As pessoas de fora normalmente criticam ou “aconselham” quem está iniciando um relacionamento assim. É comum ouvir que a mulher que vai iniciar uma vida com um homem que já tem filhos é boba porque está se casando com um “kit” e não apenas com um homem. Como responder a esse tipo de provocação? Roberta - A própria família dessa mulher pode desencorajá-la a enfrentar esse relacionamento. O que ela deve fazer primeiro é escutar o que essas pessoas dizem e até verificar se algumas coisas não são verdadeiras, como por exemplo: “Será que ele está mesmo separado?” Ela deve mostrar que entende que esse é mesmo um relacionamento que até pode trazer mais problemas que um sem tanto passado, mas se ela tiver segurança de que vai saber conduzir a situação, saberá explicar para as pessoas a sua volta.

JC - E se os filhos dele não gostarem da madrasta, dizer que a odeiam. Como ela deve agir? Roberta - Se a madrasta tem somente boas intenções em relação à criança e mesmo assim ela a trata mal, normalmente tem um adulto por trás que pode estar falando mal da madrasta para a criança. Se a ex-esposa não aceita esse novo relacionamento do ex-marido, pode ser ela a causadora do transtorno. Nesse momento, somente as boas atitudes em relação à crianca mostrará que a madrasta não é exatamente aquilo que estão falando para ela. Talvez seja necessário que ela evite fazer os programas junto com o pai e as crianças até que elas comecem a perceber qual é a verdadeira intenção da namorada do pai. A criança também pode ser grudada no pai e não querer dividí-lo, mas se a postura do pai for adequada desde o início, a criança perceberá que ele não deixará de amá-la porque está namorando outra mulher. A madrasta deve colocar-se no lugar dessa criança e perceber que ela está abalada, que não queria a separação dos pais, mesmo que já tenha acontecido há muito tempo. Tem crianças que têm ciúmes até da mãe ao lado do pai, imagine de uma estranha. Muito diálogo o pai com a criança também ajuda a mudar os conceitos errados de sua cabeça.

JC - Você fundou a Associação de Madrastas e Enteados (AME). Como funciona? Qual é o objetivo? Roberta - O objetivo da associação é o de reunir pessoas (madrastas, enteados, famílias envolvidas e quem mais se interessar pelo assunto) para dividir angústias, frustrações, idéias e resultados positivos para juntos melhorarmos o dia-a-dia dessa convivência madrasta-enteado, muitas vezes tão conturbado. Estou cadastrando as pessoas que estão se interessando em participar e como a maioria delas mora fora da cidade de São Paulo retendo organizar um fórum e todos poderão opinar e ajudar perguntando e respondendo umas para as outras. Por enquanto estou respondendo perguntas direcionadas para o meu e-mail que está no site: www.madrasta.hpg.com.br

JC - A AME tem quantos associados? Roberta - O número está crescendo a cada dia. Quando o site completou um mês (de 2 de junho até 2 de julho, deste ano), 2020 pessoas tinham acessado o site que hoje (15 de julho) está em 2380 acessos. Tenho, atualmente 13, pessoas que realmente se interessaram e outras que ainda não confirmaram.