Viver daqui para lá, de lá para cá, sem se fixar, sem se render a um amor ou sem ter que ficar dando explicações a ninguém é a vida ideal para pessoas que prezam tanto seu direito de ir e vir, que não trocam essa independência por nada.
De acordo com a psicóloga clínica de abordagem junguiana, Mônica Perri Kohl Greghi, existem vários tipos de personalidades. Ela explica que há pessoas que preferem levar a vida de maneira mais solta, sem compromisso, que se atiram na experiência de forma que não seja preciso se fundamentar no aprendizado anterior. São pessoas que gostam de se lançar às surpresas da vida.
Por outro lado, há aquelas pessoas mais conservadoras, que acreditam que terão mais segurança à medida que avançarem para novas experiências, estando apoiadas no que já aprenderam.
Mônica diz que as pessoas têm tendência de olhar os outros com um certo preconceito. “Acho que nossa sociedade ocidental peca pelo excesso de controle. É muita burocracia, dificuldade de fazer coisas novas, muitas vezes até com muita criatividadeâ€, afirma.
A psicóloga conta que, de acordo com o austríaco Fritjos Capra, os sem lenço nem documento fariam um movimento de mudança do mundo coletivamente. “Esses dois tipos psicológicos, do mais solto e o mais conservador, têm que existir porque são pólos opostos. Um garante a nossa história, uma identidade, enquanto que o outro, garante o movimento do novo. Nenhum dos pólos é saudável, então as pessoas deveriam procurar o equilíbrio entre esses dois pontosâ€, explica.
Mônica afirma que as pessoas sempre mudam, mas existe uma tipologia básica nesse sentido. De acordo com a linha junguiana, utilizada pela psicóloga, há quatro tipos psicológicos. O tipos pensamento e sensação são os mais presos à realidade, ao pré-estabelecido, ao concreto. Esses teriam, na visão de Jung, um perfil de base, rígido, concreto.
Já os tipos sentimento e intuição, são os que se interessam mais pelo mundo interno, onde a realidade concreta chega a ser chata para eles. Em alguns momentos, chegam a ser concretos, mas o perfil básico seria de desligamento da vida real, propensos ao tipo sem lenço nem documento.
Sem limitações
Cristal*, 26 anos, mãe de uma garota de 9 anos, acredita que a liberdade nada mais é do que um dom que Deus deu a todos para escolher e decidir sobre seus atos. Ela diz que o homem atual se apega à padrões sociais, tem medo de abrir mão de suas bases, de correr atrás dos sonhos e lembra do que seria da civilização atual se não houvessem os desbravadores da antigüidade, que corajosos, deixavam para trás suas famílias, seus lares, suas torturas, por acreditarem existir algo melhor. “O homem de hoje se limitaâ€, diz.
Cristal conta que uma noite dessas, estava em um café com umas amigas e apareceu por lá um cigano, pedindo para que cantassem uma música. “Ele ficou ali mais ou menos uma hora, cantando e encantando com suas histórias e filosofias. Uma alma livre de qualquer amarra. Eu o invejei, não posso negarâ€, confessa.
A garota admite que é aconchegante ter um porto seguro, um lar, uma família, um lugar para onde possa voltar no fim do dia, relaxar, se sentir amado, tranqüilo, mas para ela, se limitar a isso, por puro comodismo, é errado. “Deixar de sonhar, achando que a vida é só isso, não está certo. Eu tenho um pouco da alma ciganaâ€, afirma.
Ela diz que não consegue se prender à coisas que não a fazem feliz. Nem um relacionamento, nem profissionalmente. “Se eu não acredito no que estou fazendo, se alguma coisa me deixa insatisfeita, largo tudo e corro atrás de algo que alegre a minha almaâ€, diz.
E complementa: “viver é isso - buscar “algo maisâ€, que te complete. É claro que já quebrei a cara, mas no balanço final, o saldo é positivo. A mudança sempre é para melhor. Não que eu seja contra a estabilidade. Sou contra a “estagnaçãoâ€. A vida passa rápido demais e temos que usufruí-la da maneira mais intensa possível.â€
Para ela, se um namoro não está legal, se o emprego não satisfaz 100%, a pessoa deve jogar para o alto. “Não é tão dolorido assim. O mundo é enorme. Em algum lugar tem alguém do jeito que você sonha, para te fazer feliz. Em algum lugar tem uma vaga esperando por você. Dê oportunidade para a felicidade chegarâ€, aconselha.
Ela afirma que, depois disso, quando a pessoa olhar para trás e perceber que fez tudo o que seu coração pediu, que venceu todos os seus medos, que está em paz consigo mesma, aí sim poderá se acomodar. “Nesse ponto, você viveu seus sonhos e estará usufruindo do resultado disso. E posso te contar? Não tem como a realização de um sonho não te fazer felizâ€, finaliza.
De acordo com a psicóloga Mônica, Cristal, que tem uma filha de 9 anos, foi mãe muito jovem e, nessa fase de adolescência, a liberdade é muito importante. “Mesmo com um grande amor que acredito que ela tenha pela filhinha, essa criança acabou tirando um pouco essa liberdade que Cristal tinha e precisava. Acho que ela deva conciliar. Desde que ela faça as funções básicas de mãe amorosa e depois queira viver a vida dela, levando em conta a existência da filha, está tudo bemâ€, explica.
Mônica diz que há crianças que demandam mais a presença da mãe, outras que são mais soltas, as sem lencinho nem documento, então depende do jeito de ser mãe, do jeito de ser filha, de um acordo entre as duas para que se chegue a um equilíbrio.