Conhecido como “xerife dos preços†no começo da década de 80 e no início do Plano Real, o consultor de empresas José Milton Dallari Soares, um dos pais do atual modelo econômico brasileiro (ele fez parte da equipe que criou o Real), aposta na exportação como uma das únicas saídas viáveis para manter as finanças internas em ordem.
O consultor acredita que isso vai ajudar o próximo presidente a quitar todos os seus compromissos financeiros, sem prejudicar o andamento da economia brasileira.
Para Dallari, a vinda da vice-diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Anne Krueger, será muito positiva para o País. “Ela verá que é um absurdo o que as empresas que examinam o risco financeiro estão fazendo com o Brasilâ€, salienta.
Secretário nacional de Abastecimento e Preço de 1980 a 1985, consultor do Ministério da Agricultura até 1989 e secretário nacional de Acompanhamento Econômico em 1994 e 1995, Dallari atualmente presta consultoria para empresas e agronegócio e é candidato a deputado estadual pelo PPB.
De passagem por Bauru na última sexta-feira, ele concedeu a seguinte entrevista para o Jornal da Cidade:
Jornal da Cidade - Na opinião do senhor, o que aconteceu nesse último mês com relação ao reajuste dos preços de serviços no País?
Dallari - Algumas empresas acabaram aproveitando essa época de Copa do Mundo, de Brasil pentacampeão, e enfiaram preço em cima da gente. Subiu tudo: gasolina, água e gás. As pessoas estavam distraídas e não perceberam os reajustes.
JC - Por que o governo permitiu essa elevação de valores de repente? Dallari - Está faltando um pouco de gestão do Governo no sentido de coibir esse tipo de coisa. Nós estamos reféns do sistema. Foram feitos contratos nos processos de privatização e atrelaram as tarifas ao dólar. Toda hora que mexe na moeda americana, mexe-se nas tarifas. Quero só ver se, quando o dólar cair, vão reduzir as tarifas. Temos que perguntar ao processo esse detalhe, como é que vai fazer quando o dólar começar a cair.
JC - A economia mundial está passando por momentos confusos e de falta de credibilidade a alguns países. No Brasil especificamente, o que levou a todo esse tumulto com relação ao risco financeiro do País? Dallari - No processo econômico, esse tumulto é decorrente de dois fatores básicos: o primeiro é que, efetivamente, o mercado financeiro internacional viu o tamanho da vulnerabilidade do Brasil. Nós estamos com o crescimento do endividamento público muito grande.
Nós demos um sinal negativo para o mercado financeiro quando o Banco Central (BC) reduziu essa questão dos fundos de renda fixa. Quando ele tomou essa decisão, sinalizou para o mercado financeiro que nós estávamos com problema de capital de giro. O BC teve de estreitar aquilo tudo que ele ganhou nos últimos três anos, alongando gradualmente o perfil da dívida e voltou para trás. O mercado internacional viu que nós vamos ter grande dificuldade - seja o governo que for - para poder girar a dívida do tamanho que está. O segundo grande fator é o processo político interno do Brasil.
JC - O que o novo presidente vai herdar economicamente de Fernando Henrique Cardoso? Dallari - Na minha visão, como especialista na área macroeconômica, independentemente de quem for eleito para presidente, no dia 1 de janeiro ele senta-se na cadeira do Palácio do Planalto e recebe uma promissória de R$ 55 bilhões para pagar no ano de 2003. Tanto faz se for o Lula, o Ciro, o Serra, independe. Com esse “papagaio†nas mãos, ele vai ter que sentar para negociar.
JC - De que maneira? Dallari - Previamente. Logo depois das eleições, o novo presidente terá de negociar com o sistema financeiro internacional. Ele deve começar dizendo: “eu vou respeitar os contratos, tudo aquilo dos acordos que nós fizemos. Porém, vocês vão ter de me dar um fôlegoâ€.
JC - E como deverá ser administrado esse “fôlegoâ€? Dallari - O governo terá de correr atrás de capital externo. Nós estamos estimando para este ano US$ 18 bilhões. Para o ano que vem, depende do governo - pode vir US$ 20 bilhões ou US$ 10 bilhões.
JC - A que, na opiniãodo senhor, o novo presidente deve dar prioridade para garantir a entrada de divisas? Dallari - É indispensável avançar nas exportações daqui para a frente. Nos próximos 50 anos, o Brasil tem de partir para o processo exportador. Para estimular isso temos que retirar todos os impostos, sem exceção, zerar os impostos de exportação. Além disso, deve-se criar linhas de financiamento no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), principalmente para exportar bens de capital. Também é necessário estimular a agricultura brasileira, que é o que nos garante mais competitividade no mercado mundial. Temos o café, o açúcar, o álcool, a laranja e todas as carnes (bovinas, suínas, aves), todos eles são produtos que representam bem o Brasil lá fora. Esse é o rumo que não dá para mudar, seja qual for o presidente da República.
JC - O que o senhor acha da visita da vice-diretora do FMI, Anne Krueger, ao Brasil (ela chega nesta terça-feira ao País)? Dallari - A visita dela é muito importante para nós. Ela vem sentir o Brasil e vai ver que é um absurdo o que as empresas que examinam o risco financeiro estão fazendo com o País. Não tem o menor sentido o risco do Brasil ser equivalente ao da Argentina e muito menos ser equivalente ao risco da Nigéria. Nós somos um País que tem uma economia muito maior do que a desses dois países, com nível de estabilidade financeira e política muito maior.