09 de julho de 2026
Articulistas

Rebolado da esquerda à direita


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A história política da França sempre foi bom tema de reflexão. A França viveu embates ideológicos de toda ordem e conflitos sociais que explodiram em muitas revoluções sangrentas. A história da III República, do fim do século XIX a primeira metade do século XX, é exemplar para entender a construção do Estado Moderno. São anos da consolidação da hegemonia burguesa e das instituições políticas democráticas. Um traço marcante da vida política desta época foi a flutuação do eleitorado. Ao ciclo do voto à direita, se sucedia o ciclo do voto à esquerda. Chegavam ao poder ministros conservadores que se desgastavam na opinião pública. Davam lugar a ministros mais à esquerda, que acabavam por sofrer a mesma erosão de prestígio. Aos conservadores “republicanos burgueses” sucediam os “radicais” ou os “radicais socialistas”. A política criava suas regras. A sociedade era transformada pela revolução tecnológica e a universalização das relações capitalistas de produção.

A hegemonia da Assembléia Nacional e do voto distrital funcionavam como amortecedores impedindo deslocamentos aos extremos da vida política. Arcaísmos de todos os tipos freqüentavam as mentes, desde sonhos monarquistas até o nacionalismo extremado. O cenário só ficou tenso nos anos trinta. Um rebolado mais forte ocorreu na política: do “front populaire” à extrema direita, às vésperas da catástrofe do nazismo. A vida política francesa até a Grande Guerra viveu a harmonia melodiosa da “chanson” e a voz forte da imortal Piaf.

Estas lembranças ocorrem quando observamos os últimos anos da experiência de consolidação de nossa vida democrática. Foi outro contexto histórico. Nosso fim de século teve um ritmo frenético. Nossas esperanças para o novo século ficaram trêmulas. A consolidação tardia da hegemonia burguesa e a universalização das modernas relações capitalistas de produção efetivaram-se, entre nós, com o canto renovador da bossa nova e culminaram com a baixaria do “tcham” e do Carnaval “oliudiano” da Marquês de Sapucaí.

Mas que conversa é essa? Exclamam os modernos. Direita e esquerda são coisas do passado! Hoje a hegemonia da inovação tecnológica, da posse do poder do saber, comanda o mundo. A universalidade das trocas reorganiza sem cessar o cenário mundial. Não há alternativas à hegemonia do capital. É o velho, ou dá, ou desce. Ou olhamos aflitos e ansiosos para o primeiro mundo, ou sucumbimos como a África. Este projeto hegemônico se consolidou em nosso cenário político nacional. O receituário liberal-tecnocrático universalizou-se. Às vezes, o mundo treme de Norte a Sul com os abalos financeiros. São as vicissitudes das fraturas do sistema mundial.

Não é por acaso, que vemos todos os candidatos com um rebolado capenga da esquerda para a direita. Todos eles, como na dança da garrafa, rebolando por sobre as exigências do equilíbrio fiscal, do déficit primário, do respeito aos contratos, enfim, da estabilidade. Todos passaram, em poucos meses, a falar a linguagem do FHC e do Malan, mas mal acabados.Terminou o debate. Chegamos ao “Consenso Brasil”, obedecendo ao “Consenso de Washington”.

Hector Camin, refletindo sobre a esquerda latino-americana e suas vicissitudes, lembrava que os conceitos da esquerda só seriam reformulados por um impacto externo. Este impacto chegou avassalador. Não dá para enganar mais e ficar apenas no jogo das palavras. Chamar sociedade civil o que se chamava proletariado. Chamar globalização o que antes se chamava im perialismo. Chamar de democracia o que antes se chamava de revolução. É preciso fazer as pazes com o mercado e com os empresários.

Terrível é que, depois do enterro das convicções, chegam as promessas. Suely Caldas resume com talento: “Não há dificuldades em reduzir juros, retomar o crescimento econômico com vigor, aumentar os salário mínimo, expandir as exportações, gerar milhares de empregos, pagar boas aposentadorias, fazer crescer a renda nacional, acabar com a miséria e a fome”. (Ulysses Guariba é professor da FFLCH da USP)