Gramaticalmente correta ou não a comovente súplica contida no título pode ser entendida por muitos. E bem mais, naturalmente, pelos excelsos lingüistas, que cedo conseguem colocar-se por dentro dos segredos ou variantes do nosso rico idioma por freqüentarem cursos de vários e adiantados níveis, enquanto aqueles ou aquelas que geralmente pronunciam a frase nem sempre têm a ventura de sentir o seu sabor, pois que são crianças pedintes, as quais não dispõem de condições para esquentar ao menos um pouco os duros bancos escolares, tendo possibilidade, unicamente, de se localizarem nas esquinas, baterem nas portas residenciais ou não e pedirem moedinhas destinadas à compra de um pãozinho para si ou para o irmão menor, que ficou no inóspito casebre da periferia, à espera do mata-fome.
O drama é plenamente conhecido por todos que conseguem vislumbrá-lo e, sem dúvida, o é praticamente por toda a sociedade, a qual percebe as suas consequências ali bem perto, não apenas em razão da repetência a que são os transeuntes acometidos nas apinhadas ruas, nas quais as pequeninas e magras mãos são estendidas à sua caridade fraterna, como também por serem perceptoras do quanto é falha a política administrativa deste e dos passados governos para com a comunidade, a maioria da qual é absolutamente pobre de assistência social e de bens de consumo imprescindíveis para que menos meninos e meninas sejam topadas nas esquinas pedindo o auxílio de um centavo, o qual, não raro, serviria para a compra de algum analgésico para mamãe ou papai, que lá, à distância do amor do próximo, se contorcem com s dores de alguma enfermidade, às vezes incurável, ou de uma certíssima velhice, que já veio ou vai desaparecendo no horizonte. Tarda, inegavelmente, a chegar aos poderes públicos de todas as áreas a mão estendida dos abandonados, ainda que os dirigentes saibam de sua existência, e, por isso, os projetos sociais tão reclamados pelo clamor da sociedade, cada vez mais aumenta a indigência dos pobres e, na mesma proporção, a criminalidade gerada pela fome que grassa o longo das periferias tristonhas, donde se infere que aquele “tio, me dá uma caridade†tem correta procedência. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)