Parece que o vento vai derrubar a casa e tudo o que estiver pela frente. As folhas das árvores sugerem que a qualquer momento vão se desprender dos galhos e sair voando feito pássaros sem rumo. Os galhos envergam, cedem a toda força que se atira sobre eles. Por um instante a impressão é de que também eles acabarão por declarar perdida a batalha que travam contra toda esta fúria tão inesperada quanto indesejável.
Se pudessem, folhas, galhos, árvores inteiras pediriam para que o vendaval não os incomodassem. Reclamariam o direito de não serem cobertos de poeira. Lembrariam a sensação trazida pelo cansaço aeróbico a que são submetidos, e a esta sensação de frio da qual não podem fugir – o pior de tudo é que às plantas não foi dada a possibilidade de juntarem-se, em mútua proteção, nem mesmo de encolherem-se, como quem busca o calor que vem do próprio corpo. Dariam um basta, ou, na pior hipótese, fugiriam de tamanho incômodo – que inferno!
Mas eles não têm saída. Só lhes restam aceitar o destino de quem nasceu para a prisão ao solo. Sem sequer imaginar o que poderia ser o dinamismo, a comunicação, a interação, cumprem, encolhidos e resignados, o silêncio que lhes foi imposto pela natureza. Permanecem aí, mexendo-se por todos os lados sem no entanto sair do lugar - qualquer semelhança com a imagem de um cachorro correndo atrás do próprio rabo terá sido mera semelhança, advertiriam os criadores de legendas, letterings e outros complementos da comunicação.
Uma árvore sacudida pelo vento. Agitando-se em todas as direções. Mantendo-se, no entanto, por causa da flexibilidade que lhe é natural. Com um grande sentido de coesão. Cada galho, equivalente a uma pessoa, ou, quem sabe, um departamento. Chacoalhados, em lances imprevistos, sem tempo de combinar a melhor estratégia para não perder a unidade e deixar a condição de árvore que lhe garante a identidade.
Na América Latina, empresas diante de furacões que não inventaram. A Argentina, com as raízes expostas. O Uruguai envergando. O Paraguai com seus ramos e galhos varrendo o chão. O Brasil, arbusto que impressiona pelo tamanho não inspira confiança a quem deseja abrigar-se em sua sombra. E lá, onde os habitantes enchem a boca bradando “- Isto é a Américaâ€? O tronco sofre as rachaduras dos escândalos contábeis que pipocam nestes últimos tempos, confundindo o mercado, que treme a cada nova rajada . O vendaval é forte e parece cada vez mais incontrolável.
Vivemos, aqui do lado de fora e expostos a toda sorte de intempéries, um momento em que somos sacudidos por vendavais – furacões como o Globalização, por exemplo, o mais forte e amedrontador de todos. Temos pouca ou nenhuma oportunidade de pensar em estratégias de sobrevivência. Não fomos treinados para reações em comum com a unidade suficiente para suportar tamanhas tempestades.
Já que o vento não pára, o jeito é vergar sem ceder, adaptar-nos aos novos tempos, vivendo-os ao mesmo tempo em que criamos mecanismos para resistir contra suas investidas. Afinal de contas, fomos criados para enfrentar obstáculos, lutar e vencer. Quebrar não faz parte deste nosso jogo. (O autor, Rubens Marchioni, é especialista em marketing)