A energia não poluente não representa nem 1% do consumo na América Latina e no Caribe, cuja principal opção é o petróleo, como há 30 anos. Entretanto, na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10, que acontecerá entre 26 de agosto e 4 de setembro, na África do Sul, os governos da região pedirão ao mundo, por iniciativa do Brasil, que se comprometa a fazer com que, no prazo de uma década, 10% da energia consumida proceda de fontes limpas. A tarefa será dificílima.
Em 2000, o consumo de energia da América Latina e do Caribe cresceu 1,75%, com o petróleo na liderança, e as emissões de dióxido de carbono por pessoa aumentaram 0,38%, segundo a Organização Latino-Americana de Energia. Os combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) liberam dióxido de carbono e outros gases que causam o efeito estufa, que a ciência vincula ao aquecimento do clima. Porém, a energia alternativa é mais cara, os projetos requerem mais esforço e “a tradição e a infra-estrutura†regionais ainda favorecem os combustíveis fósseis, relata um estudo do projeto Energia Renovável nas Américas, patrocinado pela Organização dos Estados Americanos.
Há pouco espaço para que as fontes renováveis possam competir no mercado quando o contexto institucional está projetado para favorecer as outras, diz Sara Larraín, diretora do Programa Chile Sustentável. A parafernália de fontes limpas inclui energia hidrelétrica em pequena escala, eólica, solar, sistemas para aproveitar a energia do oceano, combustão controlada de biomassa (lenha, resíduos agrícolas), extração de etanol da cana-de-açúcar, biogás produzido pela fermentação de lixo orgânico. A região deu início a muitas destas iniciativas, com apoio de governos, da Organização das Nações Unidas e do setor privado, mas não passam de marginais.
Algumas são muito originais, como o uso do bagaço da cana, em El Salvador. A Empresa Eléctrica do Norte transforma, desde 1999, uma média de 27 mil toneladas desse material em cinco megawatts diários de eletricidade, quantidade suficiente para atender 30 mil usuários. Na cidade argentina de Comodoro Rivadavia, na região austral, o aproveitamento do vento permite abastecer 30% da demanda energética de 150 mil habitantes. No Brasil, Chile, Equador e Guatemala existem projetos para desenvolver o uso de painéis solares e torres para recolher a energia do vento. Além disso, nos últimos anos foram feitas leis e estabelecidos programas para favorecer as fontes limpas no Brasil, Costa Rica, Honduras e Nicarágua, segundo o projeto Energia Renovável nas Américas. Mas a fragilidade econômica da região cria obstáculos.
Embora as grandes centrais hidrelétricas não emitam gases poluentes, os ambientalistas não as consideram tecnologias verdes, pois requerem drásticas alterações no meio ambiente, com bloqueio e desvio de rios. Na Venezuela, com reservas de petróleo para os próximos 66 anos, o uso de energia alternativa é tão baixo que não figura nas estatísticas. O mesmo acontece no Chile, onde a diretora do Programa Chile Sustentável assegurou que seu país “vai atrás†da matéria. “Estamos em franco retrocesso em relação a uma opção por combustíveis mais limposâ€, afirmou Larraín.
A realidade, no entanto, não intimida os governantes, que prometem tentar fazer com que a cúpula Rio+10 subscreva o uso obrigatório de 10% de formas de energia limpa para 2010. (O autor, Diego Cavallos, é correspondente da International Media Services)